ACIMA DA LINHA D'ÁGUA

Com destino a Lisboa, o "Funchal" partia dentro de duas horas naquela véspera do Natal de 1963, um dia naturalmente muito querido. Havia muita gente no cais à mistura com os passageiros, tudo numa grande confusão, mas que jogava bem com o dia de São-Vapor.
Não foi fácil arranjar um bagageiro, porque pareciam farejar os melhores clientes. E, antes que tivesse de ser eu a carregar com as malas, agarrei no braço de um que vinha descendo a escada.
- Olha, Chico, são estas e eu vou contigo.
- Não é preciso, patrão, não há que enganar - respondeu-me com as duas malas na mão.
- É que nessa, aí, vai um acordeão - disse-lhe, receoso de que deixasse a bagagem perdida pelos corredores do navio.
- Ah... - exclamei, percebendo-lhe as intenções e acrescentei à conversa uma moeda que ele, evidentemente, esperava.
Apressei-me nas despedidas, deixando um beijo em cada um dos meus e, num ápice, subi a escada. Olhei para trás, num relance de dar um último adeus, e, tropeçando no cimo da escada, quase ia caindo nos braços de um agente da PIDE; "este vem a dormir", resmungou num ar de sem-cerimónia que me deixou, deveras, agastado. De súbito, apoderou-se de mim uma angústia, como se algo pudesse estar errado nos meus papéis, por exemplo, a passagem ser a de outra viagem que não aquela, etc...
Franqueei o portaló, onde estavam, também, os oficiais de bordo e outras autoridades, e logo me devolveram a papelada. Explicaram-me que, por ser véspera de Natal, havia menos passageiros, trocando-me, por isso, a cabina. É que, em vez de ser interior e com quatro beliches, viajava agora em "turística superior", só com duas camas; era como se viajasse acima da linha d'água e, ainda, com vista para o mar....
Feliz com a troca, desci até ao meu camarote, mas fiquei transtornado por não ver as malas lá. Lembrei-me que talvez estivessem na cabina para onde estava destinado. Precipitei-me pela escada, dois decks mais abaixo, e nada... nem vi ninguém por ali. E, quando voltava à minha cabina, vi o Chico de costas, que lavava outras malas. Corri para ele, com preocupação:
- Mudaram-me de camarote, onde é que estão as minhas malas?
- Eu já sei, patrão, as suas malas já estão lá.
- Não estão, Chico.
- É verdade, patrão, isto aqui não tem que enganar - volveu com o seu ar expedito. Dei-lhe mais um trocado, pois merecia-a.
De facto, já lá estavam. Agora, quem quer que viajasse na outra cama, não tinha ainda aparecido. Achei uma cabina muito acolhedora, tão diferente do quarto da minha casa antiga, grande e fria, na Ponta Garça. Todo o chão era alcatifado e o mobiliário parecia de uma madeira bem diferente da nossa acácia, proporcionando, com as suas cores claras, um ambiente leve e harmonioso. Experimentei a cama e refastelei-me por uns instantes; é que viajar, pela primeira vez, para Lisboa, no melhor barco da Insulana, era motivo para ocupar grande parte dos devaneios de alguém que tinha só vinte anos. Desfiz a mala e arrumei, com desvelo, as minhas roupas, algumas delas novas.
De seguida, deixei o camarote e, na amurada, acenei para os meus que permaneciam ainda no cais. Apetecia-me gritar-lhes, cá de cima: "eu viajo em turística superior!"; isso e muitas coisas mais, havia de dizer, mais tarde, por carta.
Enfim, de mansinho, o barco afastou-se do cais e, devagar, zarpou de Ponta Delgada, soltando três apitos, deixando atrás de si uma amálgama de braços a agitarem lenços, que me arrancaram uma furtiva lágrima - pois era novo e não devia chorar.
Passei a tarde no salão a ver jogar à batota e, depois, voltei ao camarote e vi que viajava sozinho.
Até ali, tudo corria bem, sem o mais leve sintoma de enjoo e adormeci, diria, como um anjo... Mas qual quê? Caí, sim, num sono agitado, inventando um gatuno pelo camarote adentro, a derrear-me a ilharga para me arrancar a carteira. Nisto, acordei com toques à porta.
- Quem é?
- Por favor, é o camaroteiro.
Aliviado, abri-a, mas escorrendo em suores...
- Sempre que queira alguma coisa, é só chamar - disse em tom cortês, parecendo-me uma rotineira caça à gorjeta; mais tarde, veria que me enganara.
Voltei à cama, exausto, e deixei-me arrastar pelo tempo, até que uma música, parecendo de sininos, me trouxe de novo ao paquete - era o moço do xilofone, anunciando o jantar.
Perto da meia-noite, e já deitado, voltou a música do simpático xilofone. Acorri ao corredor e disseram-me que ia ser servida a ceia da consoada.
Alinhei com entusiasmo naquela ideia de comer requintadas doçarias, próprias da quadra, e lá fui. Pois não imaginam a tamanha decepção, quando vi ser-me servido um prato de bacalhau-com-todos, que eu, como os outros, reguei com muito azeite.
O resultado foi, tão-só, cair num grande mal-estar, que, com o balancear da inconstância de ser inverno, me levou a enjoar, até à Madeira, sem nunca mais me ter levantado da cama. Aí, sim, chamei o camaroteiro, porque era mesmo preciso.
- Amanhã estaremos na Madeira - comentou o meu lugar-tenente, servindo-me duas laranjas, primorosamente descascadas.

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