05 abril 2006

OS TRÊS APITOS DA PRAXE


De facto, ao outro dia, manhã cedo, o "Funchal" bordejava a ilha da Madeira e, melhor, parara de balancear, o que me deixou muito mais tranquilo. Pela vigia, espreitei a ilha, e, subitamente, se apoderou de mim um êxtase raro, como se avistasse uma espécie de éden, onde só as divindades afortunadas se deixam levar a passeio. Afinal, privilégios de quem viajava acima da linha d'água e com vista para o mar.
Aprontei-me rapidamente e subi ao convés, para melhor apreciar o que me parecera uma maravilha. A manhã estava calma e uma brisa doce, vinda de terra, bafejava num combinado singular de maresia e de cheiros da densa vegetação, já ali tão perto na costa. Estava-se mesmo bem.
- É Câmara de lobos - disse-me, num tom lacónico, um passageiro madrugador.
- É mesmo lindo! - e, num assomo de grande convencimento, reforcei - nunca vi uma tal beleza assim!
O diálogo parecia ficar por ali, não fosse eu a insistir do conhecimento que tinha de alguns pormenores da ilha, e, por isso, acrescentei:
- Meu pai disse-me que esta era a vila de que Churchil se apaixonara.
Ele olhou-me de cima a baixo, de gargalo empinado, como se, para um rapaz de vinte anos, fosse uma matéria interdita, uma coisa só própria dos seus sessenta e tal anos; era um fulano alto e magro, algo carrancudo, e seria um pouco mais velho do que o meu pai.
- Sim - respondeu-me secamente.
- Ele gostava de pintar estes sítios, tendo por companhia os seus inseparáveis charutos - tentei ainda comentar sir Winston para manter vivo o palavrório.
Mas o companheiro, que eu julgava ter conquistado para uma conversa amena, desapareceu dali. Era assim, naquele tempo...
O "Funchal" continuava, agora, numa viagem preguiçosa, a caminho do porto e eu fiquei-me por ali, até que outros passageiros se foram chegando, para engrossar a curiosidade de ver a ilha.
Por fim, num movimento compassado, à mistura com toques de sinetas a bordo, que eu entendi serem ordens de marinhagem, o elegante paquete da Insulana encostava à doca da cidade que lhe deu o nome, voltando aos três apitos de cortesia.
Era o dia 26 de Dezembro, por sinal véspera do 60º aniversário do meu pai e logo me recordei do que ele, esse querido professor, me dissera, "tens muitas coisas para ver lá".
Portanto, era preciso sair e apreciar, de perto, os encantos de uma cidade viva de gente. Passeei-me, então, pelas ruas de calçada negra e luzidia, mas escorregadia como uma pista de gelo. Cruzei-me com gentes que não lhes entendia a fala, certamente alemães, suecos e outros, já que, de ingleses e franceses, os percebia, nos mínimos, do que me tinha ficado do liceu.
Fascinado pela correnteza cosmopolita da cidade, pois eram muitos os turistas, vim a saber que ali estavam para a quadra festiva daquele Natal de 1963. E, entretanto, muitos outros viriam, ao que me disseram, para a passagem do ano, dali a quatro dias, fugindo assim aos rigores do inverno do norte da Europa.
Fui ver, como o meu pai me dissera, onde desembocavam os "Carrinhos do Monte" e não resisti em subir ao "Terreiro da Luta", para uma escorregadela até à baixa. Foi uma sensação de quem revoava sobre a cidade que eu só um pouco imaginara. E muitas outras coisas havia para ver, conforme as recomendações que trazia, mas o tempo não chegou mesmo.
De regresso ao paquete, notava-se já uma afluência maior de passageiros e um corre-corre de bagageiros e gente subindo e descendo a escada do portaló, alguns deles visitantes, que apreciavam uma bebida nos bares do navio. Tudo possuía um encanto especial que não tinham os cafés em terra.
Senti-me outro; tivera um dia em cheio como nunca; e, assim, do lado de bombordo, me dispus a assomar à amurada, onde a vista da cidade era soberba, com o casario a perder-se desordenadamente, pela encosta acima. Para ali fiquei esquecido de mim, embevecido que estava pela luxúria da paisagem prostrada a meus pés.
Algum tempo depois, o apito de um rebocador, em manobras de cais, fez-me despertar. Dei-me conta que, do outro lado de estibordo, os passageiros se apinhavam para as despedidas; e, já faltando pouco tempo para a saída do paquete, os últimos visitantes se apressavam para abandoná-lo, porque, nos altifalantes de bordo, se pedia a sua saída.
Depois, reparei que só eu e o tal sujeito sorumbático – aquele com quem estivara à fala, de manhã – estávamos daquele lado do convés; então, em jeito de etiqueta, voltavam os três apitos da praxe.
Indiferentes – e quanto me custou! – ficámos os dois mudos e quedos.
"Até Lisboa..." - apeteceu-me dizer-lhe.