AGORA, RUMO A LISBOA
Agora que a Madeira ia ficando para trás, esfumada num fraco lampejo de uma tarde que esmorecia, como se fora o passamento sereno de um moribundo, sob um tecto de nuvens baixas, a ideia de chegar a Lisboa iluminava-se como se a pudesse ver já ao longe.O navio pareceu parar, e eu pensei que uma avaria estivesse para acontecer. Não. Como em tudo, há sempre gente bem informada que sabe das coisas; por isso, me disseram que era uma manobra, na ponte, para assestar as agulhas. Então, não sendo mais do que uma certeza sem surpresa, fiquei descansado que o rumo era mesmo Lisboa.
A vida a bordo era um regalo a que eu não estava habituado. Voltei para o salão e apeteceu-me encontrar gente de quem pudesse ouvir coisas novas, e que eu lhe pudesse dizer, também, que era alguém que viajava com o prazer da primeira viagem.
- Vão para Lisboa? - perguntei a um casal de meia-idade.
- Não, vamos para o Porto - respondeu-me o marido, um sujeito de boa apresentação, com um riso peculiar no olhar.
- Mas, então... julgava que o barco ia...
- E vai; claro que vamos para Lisboa, mas depois vamos para cima, para a Invicta - atalhou ele, com bonomia, ante a minha hesitação.
- Mas não são do Porto?
Ele abriu-se num riso largo e continuou, como se estivesse a ensinar o filho mais novo:
- O Porto é conhecida pela cidade invicta, não sabia?
- Sim, sim - respondi com evidente atrapalhação.
Durante o jantar, conversámos sobre a viagem, falando eles das belezas de São Miguel e de alguns recantos, com certos pormenores, que, francamente, eu ignorava, mas, com algum engenho, fingi conhecer.
Depois, passámos os três pelo salão, por pouco tempo, porque, de comum acordo, entendemos ser prudente acomodarmo-nos mais cedo.
E tinha já muita coisa que contar aos meus pais na primeira carta que lhes escrevesse de Lisboa.
Estava, na verdade, a passar por momentos nunca dantes vividos. A ilusão do fulgor do ambiente requintado de um bom paquete, aliado ao frenesi social, fez, obviamente, os seus estragos. Portanto, sentia-me como se fosse uma espécie de único passageiro, ou, então, uma pessoa que foge à regra da vulgaridade, que é preciso atender com um misto de deferência e obrigação – mas foi sol de pouca dura.
Com a Madeira, perdida dos nossos olhos, e a sensação de ter o "Funchal" bem ao centro na noite escura, o imenso mar, a bater rijo no costado e nas vigias, encapelou-se e fez dele o que muito bem quis; ao contrário do que se dizia, a Jóia da Insulana, com estabilizadores e muitas outras mordomias, voltava a animar-se sobre as águas, como qualquer outro navio e eu não tive outro remédio senão o refúgio da cama; aí se quebrou, de vez, o encanto de ser o tal passageiro sui generis, para ficar acorrentado ao camarote e de castigo.
Ao outro dia, a ondulação teimava em ser nossa companheira de estrada e o camaroteiro, atento aos seus pacientes, permanecia zeloso no seu posto.
- Então... já falta pouco para chegarmos a Lisboa... - gracejou-me com mais duas laranjas, descascadas a preceito.
E, de facto, umas horas mais tarde, o paquete serenou o bastante para que passasse a ouvir um reboliço nos corredores. Afinal, grande parte da clientela daquela viagem passara, como eu, agarrada à cama, porque, mesmo que pretendessem dizer o contrário, as faces descoloradas não deixavam mentir.
Ao fim da tarde, o "Funchal" estava já Tejo acima e eu pude ver a famosa Torre de Belém e os Jerónimos. Era aquilo mesmo que eu esperava, tantas vezes tinha apreciado aqueles vetustos monumentos no meu compêndio de História.
E, em marcha reduzida, mais uma vez o paquete, que eu sonhara ser um palácio flutuante, encostava ao cais da Rocha, cortejando a capital com mais três apitos.
Em terra firme, mas com o balanço ainda presente, respirei de alívio e logo abracei o meu saudoso irmão Nuno, numa ternura que só o sangue compreende; e lá fomos jantar no “Arménio” um restaurante da rua Conde do Redondo, onde ele era comensal.

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