07 abril 2006

O MÉDICO DE BORDO

A Insulana tinha-me de volta, desta vez, para pior, no "Carvalho Araújo", mas melhor, em 1ª classe - um puro fogo de vista...
Apesar do fraco fogo, outro se acendeu com a grata recordação de descobrir quem era o cavalheiro, a um canto da sala de jantar, ao primeiro pequeno almoço, sentado a uma mesa. Do seu ar tranquilo, parecia irradiar a calma que se tem depois de uma sangrenta batalha naval, em que um único marinheiro sobreviveu para contar como tudo se passou.
Só, mastigava devagar, enquanto saboreava com regalo, o pão que ia barrando com manteiga e debicava pequenos pedaços de queijo, desfrutando o mar através da janela, enquanto levava à boca a chávena do café matinal. Percebia-se que ignorava o ambiente agitado, que se vivia à volta. Estaria na casa dos quarenta, talvez.
O cavalheiro, viria a saber, era o médico de bordo. Acabado o pequeno repasto, logo se sentou numa cadeira de vime, no convés coberto, mesmo ao sair da sala.
Da conversa que tivemos, o senhor doutor era uma figura de contraponto no equilíbrio das emoções que pululavam nas viagens de mar. Para nós, eu e os outros aspirantes, saídos de Marfa e não só, ele era uma espécie de angra, um ancoradouro seguro, aonde os tripulantes demandavam o eco no vazio das suas rotinas. Habitualmente sem problemas que preenchessem os seus cuidados de médico, quer com os passageiros, quer com os homens do mar, a veneranda figura, alta, farta e relaxada, arrastava-se, entre as refeições, em extensas divagações: ora profundas e revirando-as até à exaustão, com a oficialidade de bordo, quando algum deles, depois do quarto, se deixava ficar no bar e com deleite se entregava na defesa de causas perdidas; ora de índole leve, prendendo-se, como uma aranha manhosa, enredada na teia, à espreita do primeiro passageiro que se dispusesse à cavaqueira. Dir-se-ia que era uma espécie de navegador solitário, profundamente convicto das suas rotas, "se isto virasse inferno, estou em crer que seria o único a defender Satanás", costumava ele dizer-nos, quando se encontrava só numa encruzilhada de opiniões.
- Querem, então vocês, saber, ilustre soldadesca rastejante, o melhor que há na terra: pois é, o melhor que há por aí é o queijo de São Jorge e o vinho do Alentejo.
- Só?...
- Isto para o pequeno almoço dá.
- E o vinho, também vai...
- Não... é que tenho de me ir preparando para o almoço e o Alentejo espera-me - respondeu no meio de um riso calmo, espraiado.
- Se calhar, é a sua terra senhor doutor - disse o Loureiro, um continental mestiço, que tão bem cantava o "Hit the road, Jack, don't come back no more".
- Não, eu sou de São Miguel, da Bretanha.
- Não importa, se não é passa a ser – e rimo-nos.
A viagem, em finais de Setembro, de 1964, fugia à regra do equinócio e deu-nos a oportunidade de demoradas conversas com o diplomata do "Carvalho".
Ao outro dia, lançáramos a poita na mesa do médico e nunca mais o largaríamos até ao final da viagem.
Ao terceiro e último dia, numa directa para Ponta Delgada, não largávamos o médico, que a viagem era curta para tanta prosa, e da boa.
Depois do último pequeno almoço, ainda com a poita bem engalfinhada, ouviu-se, com surpresa, o pio de uma garça, contornando, num largo voo, o cano grande do navio. O paquete rasgava as águas sem alarido, como um tubarão voraz, correndo silencioso em direcção à primeira presa da manhã.
Via-se já, a estibordo, a ilha, parecendo ao longe um enorme monstro marinho, ainda da noite adormecido. Chegou-se-nos um oficial, alto e de meia-idade.
- Bom dia, meus senhores e meu caro doutor, é como eu lhe dizia ontem, a ilha nunca é igual.
- Hum... vejo que a monotonia, para o senhor comandante, tem variâncias rebuscadas.
- Rebuscadas?
- Repare na linha de uma circunferência...
- Que é que tem? - indagou-se curioso.
- Não vê que é monótona, fastidiosa... - e o médico sorveu o fumo do seu cachimbo.
- Lá está o doutor, e sempre o seu ângulo matemático de ver as coisas.
Era assim o médico de bordo e o tempo dele parecia parado no tempo dos tempos.
- Sabe, senhor comandante, quando, ao amanhecer, espreito, pela vigia do meu camarote, o tempo como está e avisto, ao longe, a silhueta escura da ilha, rodeada de uma vastidão sombria, a primeira coisa boa que me ocorre é o café da manhã.
- Ia a supor uma outra coisa... algo de sublime e raro - gracejou o timoneiro - mas se, ao menos, lhe sabe bem o café, então a ilha é bem-vinda.
- Traz-me sossego...