LA DOLCE VITA
Quando eu poderia contar, praticamente um a um, os meus companheiros de viagem – entre alemães, sul-africanos, dinamarqueses e outras almas – todos sentados para o almoço, depenicando acepipes, para entrarem a direito no repasto do pequeno paquete da “Douro Azul”, regalando-se com a vastidão dos vinhedos, a perder de vista, Douro abaixo, logo me dei por achado que me iria enganar nas contas, ao chegar, meia-tarde, à gare marítima de Barcelona.Aquele ajuntamento de centenas de forasteiros, visivelmente ansiosos como eu, remexiam-se, dando voltas e mais voltas, na expectativa, cuido eu, de ver soar a hora – de só o mar imenso lhes encher a alma.
Aliviado com as formalidades cumpridas ao balcão, não fosse a papelada ser para outra viagem, uma beldade espanhola, grandes olhos pretos, ancas torneadas, o corpo decoroso, lançou um olhar superior – não era ela a pessoa mais desejada? –, e, depois de se explicar em catalão, afinou num inglês académico, “attention please, all passengers with card one, follow me”, e todos quase se precipitaram para serem os primeiros, da sua série, a pôr o pé naquele gigante dos mares – o “Costa Mágica”.
Julgando eu que iria rondar os cantos da casa em pouco mais de nada, como em outros tempos o fizera no “Funchal”, cedo me apercebi da sua grandiosidade, e só se ouvia, “where is the restaurant?”, e uma graciosa filipina, redondinha, o olhar deleitoso, “down, deck three”, ou aquele casal, talvez suecos e, quem sabe, em lua-de-mel, já de chinelos, e querendo banhar-se, sem se importarem com as sopas avantajadas, “and the swimming pool?”, e uma voz napolitana, afável, apontou com o polegar, “up, deck nine”.
Digamos num aparte que, entre os pilares do Islão, está uma ida, a Meca, dos discípulos de Maomé, pelo menos uma vez na vida. No outro lado da barricada, um dos sustentáculos da modernidade é o consumo – está tudo bem, mas passemos adiante.
Ora, bem comido e melhor regado, e embalado ainda pela mole de gentes enfartadas, encaminhei-me para o enorme Teatro Urbino, e deliciei-me com o primeiro show da viagem – o estupendo matraquear do Flamenco.
Muito bem, entrara em cena a dolce vita de todos os Costas, a bordo do grande “Costa”. Ninguém poderia ficar indiferente a tanto frenesi de gentes, a meia nau, no deck five, onde fervilhava um rodopio de lojas, bingo, casino, uns quantos bares com música ao vivo; ninguém escapava àquele delírio – nem mesmo o comandante, deixando-se fotografar com os Costas...
Ao serão, deambulando pelos bares, acertei num, e apreciei o duo de piano e violino, saltando por valsas, polkas, tangos, mas logo terminou – que pena, disse para os meus.
Mas acto contínuo, porque a dolce vita dos Costas é mesmo melífera, um néctar de estontear, logo se achegou, para o piano de cauda, um genuíno Al Capone, mediana estatura, fato branco, chapéu escuro, uma pistola à cintura, que colocou sobre o tampo do piano, parecendo ter chegado, à pressa, de Chicago.
Encolhemos os ombros, “e este, hen?”, comentei. O insólito personagem agarrou o teclado e mostrou a sua arte, que era muita, “I am Fred”, e toca de imitar grandes ídolos – gostei mesmo.
A primeira noite ardera para os que apostaram no casino e no bingo, mas a sorte, se a houve, deu de caras com alguém a querer acreditar que iria multiplicá-la, voltando, outra vez, ao lugar do crime – o jogo.
Mas certo, certo, foi ver a sorte bandear-se para outro desatino, que o banqueiro nunca desarma e lá foi ela aninhar-se no sítio exacto, fazendo mais rico quem rico já é – ai que sortes...
No conchego da cabina, já a noite ia alta, imaginei o todo-poderoso Dulce, a puxar os cordelinhos daquela empresa armadora, talvez um siciliano, aí pelos setentas, o cabelo rareado, cara arredondada, rechonchuda, a pele esticada, os óculos na ponta do nariz, o olhar penetrante – era assim o nosso senhor Costa –, a comentar para a assembleia-geral de accionistas – meus senhores, pão e circo é o nosso melhor negócio... Prometo voltar com mais afazeres dos Costas, que muito deram que falar na sua peregrinação pelas piscinas, pelos bares, enganando-se nos decks, e outras tantas sortes da modernidade.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home