A SAGA DOS COSTAS
E o prometido é mesmo merecido. Ai os Costas, num sobe e desce, enganando-se nos decks, mas que coisa...Ora aí estão eles de volta com mais quefazeres...
No meu desvario de querer cruzar-me com o todo-poderoso – o nosso senhor Costa –, pus-me a vasculhar os cantos da casa do grande “Costa Mágica”, e, quem sabe, poderia até topá-lo, ele saindo devagar, de um dos vários elevadores panorâmicos, imperturbável, o ar enfático, eu que o achava um simpático siciliano, aí pelos setentas, o cabelo desfalcado, a cara boleada, adiposa, o olhar incisivo, e aquele ar de tudo dominar, com os polegares nos suspensórios, olhando em redor, pois julgava-o uma pessoa espampanante, querendo alardear, “gentes, eu sou o Dulce!”.
Mas nada, o homem andava como sumido. Subi e desci escadas atapetadas de motivos em verde; talvez o indivíduo quisesse saber como iam as coisas por estas bandas pouco franqueadas. Nada, mesmo nada de semelhante criatura se mostrava; que coisa...
Extenuado de tanta subideira, vi, sim, um casalinho de borrachos, bebericando amores felizes...
Disfarcei o olhar, mas dei com outros deboches, mais acima, e fingi execrá-los; mas, verdade, verdade, estava com eles... e ela, imaginei-a, mais do que ele, “ai, amor, esse Costa aí...”, e pareceu-me ouvi-lo, “deixa, meu amor, deixa para lá...”.
Mas, então, o nosso senhor Costa, onde poderia descortiná-lo? Ah, quem sabe na biblioteca – isso mesmo! E logo corri ao recatado lugar, “o homem, afinal, não é bem aquilo que...”, disparate meu, julgá-lo espaventoso. Entrei, pé ante pé, sem querer perturbar o ambiente de indelével intelectualidade.
Bem, não querendo afugentar a praga, salvo seja, lá estava o dito-cujo, que eu procurava; assemelhava-se a ele mesmo, “excuse me, you are Mr. Costa, il Dulce, aren’t you?”. Certo de ser ele a pessoa em causa, curvei-me, como quem estava a esmolar um desconto, de última hora, para a viagem dos meus.
E aquele ameno solitário, cortês, parecia querer apenas recambiar-me, “pardom...”. Mas não, o atencioso passageiro poisou o livro “vinte mil léguas submarinas”, sobre as pernas, afastou, com o vagar da idade, os óculos e contemplou-me com a ternura dos seus bons setentas, “no, my friend... I am from La Valeta, Malta”, e eu sorri, mas tinha que lhe dizer alguma coisa, “I was there, yesterday, it´s a very nice city”, claro que tinha apreciado a sua cidade, fazendo gala nos autocarros de outros tempos – umas relíquias – e pouco me enganara a seu respeito – o fulano não era siciliano, mas era na mesma latino.
Percebi-lhe que não se importaria de bater um papo. O livro bem poderia ficar para depois, e ficámos à conversa, o bastante para falar de Tunis, “a big confusion, my friend...”, e tinha alguma razão, se atendermos à sua idade de querer alguma bonança.
E contei-lhe a visita pelo enredo de lojecas, os artesãos a descontar, muito devagar, o tempo do seu tempo; pressas, para quê, nós é que tínhamos o tempo a fugir do tempo, “aqui, é um lugar de boas compras, gente séria”, assegurou o encanto da guia tunisina, num fluente espanhol, junto ao monumental Minarete.
E o franzino comerciante, um árabe paciente, o tempo todo num carreiro do seu lado, “today is my birthday...”, e palmas para quem, talvez, fazia anos todos os dias de cruzeiro – e que importava isso...
E, assim, frente a frente connosco, o enfezado tunisino, o bigode chapado, o olhar melengoso, um expert na arte de sedução pelo exotismo das colgaduras, num inglês requentado e muito à-vontade, “first, a coffee for all of you...”, enquanto o seu lugar-tenente desfilava, uma a uma, as maravilhas da tapeçaria local, tudo nuns vagares relaxantes.
Logo um avisado Costa se adiantou, impeticado, que os latinos não se deixam perder por falas mansas, não fosse o negócio ir parar a um outro Costinha atrevido, “I want this blue carpet, and that green, oh, and this big one, yes, all these three, O.k.?”, e o espertalhote magrebino depressa pediu uma salva de palmas para o primeiro e único cliente daquela leva de mirones chochos. Os Costas, os que ditaram as ordens de compra, saíam com o olhar sobranceiro – tinham dinheiro, ou um simples cartão de crédito?

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