11 abril 2006

UMA PAUSA NO BEM BOM

Vou prosseguir nessa saga, essa gesta graúda dos nossos dias, que se dedica, por inteiro, e com devotada paixão, à tão apregoada quietação, coisa nunca sonhada no tempo dos nossos – os de cá, está visto -, eles que levaram, até ao fim dos seus dias, uma vida dedicada ao trabalho áspero, um legado a que se sentiam na obrigação de dar continuidade – uma coisa antiga... dizem, do outro tempo...
Esse tempo, meus amigos, o tempo o levou e não é previsível que retorne, Deus queira que não; mas creiam-me, é uma lida que me tem dado que pensar.
Portanto, os Costas – essa criação da modernidade –, estão por aí, banqueteiam-se com folgança, mostram-se como gente respeitosa – e são-no –, revezam-se em quefazeres da sua laia, num desassossego tal, não vá o tempo escassear-lhes.
E eu, o outro, aquele e toda a gente integram o aficcionado clube dos Costas, sem tirar nem pôr. E estou certo, quem se for ver ao espelho, mesmo agora, tirar-me-á o chapéu...
Bem, agora um aparte, aquele que ousou chegar até aqui, tentando adivinhar-me a cogitação, sem passar adiante na página, é um Costa concentrado no debate de hoje – prazer em vê-lo.
Ora, não tem sido em vão que me venho debruçando sobre seja o que for, mesmo para contar um breve apontamento. Tem estado, sempre, subjacente algo mais para lá da lembrança.
Nunca pretendi ser paladino de coisa nenhuma; tão-só, contentei-me em partilhar uns borrões, amarrotados no tempo, que vou passando à forma final – a escrita.
E não fora aquele não-me-toques a demandar ao magrebino, de Tunis, um tapete de caxemira mais pequeno, e eu não voltava com mais estas ninharias.
Mas, já agora, lá vai. Ele, o amaciado sujeito, apressava-se a pedir-lhe, “oh, no; this is still large”, e, só depois de meia dúzia de mostras, se decidiu por um mísero rectângulo de 30x40, quiçá, para emoldurar, junto de outras relíquias dos seus arrebiques...
Ou ainda o tal tunisino, o olhar paciente, um descanso na fala mansa, cada vez que mostrava um tapete – e foram para aí uns trintas, no nosso turno –, dizia que dava sorte tocar-lhes, e os Costas, naquele antro misterioso, qual plateia à escuta do presságio de um vidente, se levantavam, não fosse, mesmo ali, a sorte tocar-lhes ao de leve, quando apalpassem a qualidade do pelo.
E ponto final no esfíngico Minarete, dominando, como é sua obrigação, a sossegada capital e a inescrutável ranchada de artesãos, entregues aos afazeres de gente empenhada no seu ganha-pão.
Como vêem, Tunis e as suas gentes, o ar bonançoso, circunspecto, tudo aquilo me tocou de perto. Poderiam os Costas passear-se pela intimidade do brumoso modo de ser de quem pretende que assim seja a sua forma de vida? Por isso, fiquei assim, assim...
Voltei para o bem-bom do “Costa Mágica”, e ensopei minhas dúvidas em mais um repasto de se lhe tirar o chapéu, com direito a desfile de decorosas travessas de iguarias, arraiadas de pirilampos de “parabéns a você”, e palmas para o maître d’hotel, que logo se mostrou, emproado por tanta arte amontoada.
Em boa verdade, não estava no meu dia forte. Dizem que, a meio de viagem, o cozimento tem dessas coisas – um estranho gosto a papel de música...
Acomodado, mas sem sono e inda acordado, dei comigo a matutar em tanto desperdício de Costas empanturrados. Num instante, acerquei-me dos magrebinos aninhados nas esteiras da sua sorte.
Estava com eles e sentia-me bem tê-los à minha beira, e tomei-os, então, como gente achegada. Deixei-me escorregar nestes vagares de boa vizinhança, e adormeci na paz dos anjos – é bom poder avistar Deus e Alá.
Mas qual quê? Num pouco, um pesadelo tomara conta de mim, e, sem defesa que me valesse, estava mergulhando, vertiginosamente, na escuridão de todos os decks, abaixo do meu.
Atordoado com a queda a pique, um cheiro pestilento esfervilhou-me as narinas ressequidas de ter que respirar pela boca. Arregalei as olheiras de espanto com o frenesi de uma descomunal porcalhada a chafurdar no bota-fora dos arrotos dos Costas.
Mas espanto dos espantos, lá estava o nosso senhor Costa, il Dulce, a dar uma ajuda, “quanto mais porco, mais toucinho...”, ironizou ele para a douta assembleia-geral de accionistas.
Refeito da importunação, Palermo e Roma estavam na calha, e o soberbo “Costa Mágica” fazia-se numa marcha pomposa dos da sua classe, determinado a abrir caminho num mar de azeite.
Nada mais prometo, vamos nesta onda.