AI OS COSTAS
Não sei, nem nunca virei a sabê-lo, se aquilo que conto tem aquele tal acolhimento generalizado, uma coisa que nos sabe bem. Ou, em vez disso, paira, aqui e ali, uma indiferença fria, quase gélida, até mesmo um arrepio cortante, “olha este sujeito... outra vez...”, e adiante, que as peripécias da Casa Pia, isso sim, é que são assunto vivo.E é verdade, isso nunca virei a descobrir, a menos que alguém se plante à minha frente, “meu caro, deixe-se dessas histórias e fale-nos das últimas contratações, para a próxima época” – arrenega, vá de retro!
Mas que posso dizer, então, daquele amigão dos bancos do Liceu, “tenho sempre muita coisa para dar a mão, ao Domingo, mas, mal recebo o jornal, vou logo à tua procura” – obrigado Clemente; ah, e aquele venerando presbítero, a guedelheira farta, alvacenta, que me recorta – salvo seja! – tal e qual como o meu querido amigo Henrique Martins, Deus o tenha – aos dois o meu puro reconhecimento.
Mas fico sem saber se o respeitável clérigo – zelador cioso da mais eminente Coisa sacra, que temos na cidade –, quando me esquarteja, me guarda nas modernices do congelador, ou, como no outro santo tempo, me desterra para as masmorras da salmoura...
Seja como for, pouco me importa o regelo do moderno combinado de duas portas, quiçá de uma reputada marca alemã, ou o degredo de outros tempos, lento, penoso, numa simples balsa de barro...
Bem, se me lerem, e me disserem, na rua, apenas olá, isso é coisa boa, é quanto me basta – e, a esses, sempre obrigado.
Estou eu para aqui a piscar o olho a este, àquele e ao outro, e os Costas, os meus heróis de uma semana em cheio, à espera que lhes dê um assopro sequer.
Pronto, valha-lhes o majestoso “Costa Mágica”, que sempre se desfez em atenções com todos, por igual. Os Costas entendem, e bem, que o tratamento VIP é coisa para repartir.
Afinal, quem é que não gosta de se passar por um pequeno príncipe das Arábias, sabendo que a coroa é de folheta, uma coisa de somenos? O estilo, mesmo que efémero, ainda carrega certas baterias gastas, que se supunha não aguentarem mais carga.
E deixei Palermo com pena de não me ter cruzado com um padrinho, “ó senhor Felismino, deixe-se disso, já é tempo de lavar as mãos de sangue inocente”, dir-lhe-ia, sem papas na língua, porque nós, fora de portas, somos possuídos daquela força anímica de querer dar um apertão nessa gente de esquemas tenebrosos – ah, isso são.
Eu cá tenho esses devaneios de, um dia, me dar a doida e pôr o mundo em ordem. Aliás, conheço um montão de amigos decididos nessa luta, e quase diria os nomes de todos, empenhados nessa utopia – o maravilhoso mundo novo.
Os Costas deixaram Palermo, quem sabe desapontados por não terem podido trancar, numa esquina escusa da monumental cidade, um desses padrinhos truculentos, cientes de que Roma, no dia seguinte, perdoaria a punição cruenta.
A augusta cidade, mostrando-se arredia desse castigo, essa sim, fazia alarde de memorar, em cada arco, as conquistas do seu vasto império.
A outra, a metrópole daquela que se diz albergar a grande Fé, essa não; encontrei-a empenhada em formalismos de primeira apanha. Onde já se viu, santo Deus, que o Altíssimo Se preocuparia que o Seu humilde servo, pudesse envergar uma tanga, como a de João Baptista?
Mas, então, como pode o sacrossanto Vaticano dar-se ao desplante de ter uns capangas, a expulsar, da grande Basílica, um pobretana, apenas porque a canícula requeria um arejo de pernas, para trajar uns shorts, ou o jeito que dava, a uma fervorosa Costa, uma refrescante t-shirt sem mangas.
E que falar da ostentação, da vaidade de uns tantos purpurinos em emoldurar o grande pescador de almas num reluzente deslumbramento, “não, não, eu não servi a Deus por essa causa”, diria o despretensioso patriarca, desajeitado no seu trono. Mas ainda deu para ouvi-lo, a vociferar para uns quejandos, já que o seu Senhor lhe parecia distante, “arranjem-me uma rede para pescar mais peixe, e não esta barca a meter água”.
Pedro, para quem o conheceu, como eu, naqueles tempos de Verdade, era um homem desabrido, ele que experimentou a terrível amargura da vacilação – “Senhor, nunca, mas nunca mais Te negarei”.
E o seu Deus, que por um pouco o viu arredado, tocou-lhe, que os meus olhos isso presenciarem, “Pedro, Pedro, mais dia, menos dia, corro com essa corja de acomodados, para bem longe deste fausto, e digo-te mais, isto já me vem incomodando”Que bem me soube este desabafo, meus amigos. Os Costas são gente de estilo.

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