O comboio para as Furnas
Contava meu pai que o meu avô era uma criatura arrojada, empreendedora, sem impossíveis à sua volta; numa palavra, era um homem decidido.Não satisfeito com os horizontes acanhados da sua terra, cedo desandou da Ilha, nos meados de 1903, com a promessa de voltar à Ponta Garça, folgado de vida.
Embarcando, de penedo, para a Califórnia, sem ainda conhecer o único filho, que havia de nascer uns bons meses depois, tinha que desbravar, à sua maneira, a grande pradaria americana.
Por lá ficou uns longos dezoito anos, embrenhado na criação de gado de vária sorte, voltando à terra, como previra, bem prevenido de fazenda e de alfaias agrícolas nunca vistas na pequenez da sua terra.
E logo arregaçou mangas para desmoitar os matos, que lhe vieram, por herança, dos seus, e mais uns cerrados a que deitou a mão, “terra quanta a vejas”, dizia ele ao filho.
Alentado o tempo todo, o sol não o apanhava na cama, pois tinha sempre um ror de coisas, que careciam da sua presença, “e isso, de levantar, ainda de madrugada, herdei dele”, dizia meu pai.
Os mais velhos da freguesia, ainda hoje o recordam pelas suas proezas. E foi isso mesmo que eu quis recordar de viva voz, do senhor João Cabral, “tinha a cabeça a fervilhar de ideias”, disse para começo de conversa, “imagina só aquela lembrança do comboio...”, começou por falar, assim dele, o irmão de meu sogro, a caminho dos oitenta e oito.
Acerquei-me melhor dele para nada perder da nossa conversa, e comentei benevolente “os anos não lhe pesam, senhor João”, e ele, ciente do tempo que já não volta, “vamos passando de um dia para o outro, meu querido Joãozinho, até Deus querer...”, e levou a mão à cabeça num jeito de tirar o chapéu, já que não o tinha, por respeito à palavra sagrada.
E, então, contou a história do comboio, com os retoques do tempo antigo, “o senhor Chiquinho Bento, teu avô, meteu-se com o tio Antonino da Lomba, e os dois engendraram e fizeram uma carruagem muito alta, com dois andares, atrelada a um carro de bois, que servia de rodeiro”. Sem perceber bem para que serviam, comentei admirado, “dois andares?!...”, e ele pronto na resposta, “o de cima, para a Banda de música, e o de baixo, para os convidados”.
Pensando eu que a Banda era reduzida, repisou entusiasmado, “qual quê, era a Banda toda, aquilo era muito grande, um louvar a Deus!”, mas ainda querendo saber mais, “e os convidados?...”, indaguei sempre curioso, como se nunca tivera ouvido aquilo. E ele prosseguiu com a explicação, “teu avô tinha cada ideia... lembrou-se de ir, numa embaixada, cumprimentar o senhor padre Botelho”, e olhou no longe, como quem espera alguém na curva do Caminho Novo, e rematou, “que a Ponta Garça se deve sentir muito honrada dele”.
E lá foram, num domingo de manhãzinha, depois da missa, para as Furnas, puxados pelas melhores duas juntas de bois, “uma da nossa casa e outra dele”, precisou. E lembrou-se de mais um pormenor curioso, “a Banda, ali à ponte, tocou um ‘Ordinário’, a despedir-se da Freguesia, por ordens dele; teu avô pensava em tudo”.
Imagine-se todo aquele aparato na subida íngreme do primeiro outeiro, “foi preciso que ele se descesse e tangesse a boiada, de aguilhada na mão, porque o Lomba não dava conta do recado, teu avô era um homem rijo”, concluiu simplesmente.
Com os bois sob controle, o comboio lá galgou o primeiro e todos os outros outeiros, até à estrada, "na vida, só se anda p'ra frente, Antonino!", foi o que se ouviu dele, voltando para o andar de baixo para junto dos convidados, “e quem eram eles?”, perguntei, “iam as gentes importantes da terra, cuido eu, pois aquilo não era uma embaixada para o senhor padre Botelho?”. Perguntei, ainda, se ele levara o filho, “não, teu pai andava a estudar lá fora”.
E, já agora, um aparte, porque não retira a Junta de Freguesia o senhor padre Botelho do silêncio soturno do cemitério das Furnas e coloca o busto de tão ilustre padre-poeta, no jardim junto à igreja, a que ele deu início?
E aquele homem, o senhor João Cabral, de uma ninhada de dez filhos, tio de minha mulher, de lembrança ainda bem arejada, muito amadurecido dos seus quase noventa, aprimorou, “hoje, faz-se melhor, certamente, até se vai à Lua; mas, no tempo que me criei, só o teu avô, o senhor Chiquinho Bento, para se lembrar de uma coisa assim – um comboio para ir às Furnas...”.

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