03 maio 2006

OS DIZERES DE UM ARTISTA

“A vida não é o que cada um viveu,
mas o que recorda e como recorda para contá-la”

Garcia Marques

Não é todas as vezes que se vê um artista debruçar-se sobre a obra feita. E, quando fá-lo, toma as suas cautelas, não vá uma só palavra borrar a pintura.
Mas há os que, desabridamente, arrojam contra tudo e todos, na defesa daquilo que a sua real gana criou.
Conta-se que Miguel Ângelo, segundo dizia meu pai, algo alucinado com a escultura de Moisés, acabada de esculpir, desafiou a rocha trabalhada, num assomo de arrebatamento óbvio, e bradou, “fala Moisés, fala!”; ele, ébrio com os traços conseguidos, ante a rigidez estática do bloco intrépido, quedando-se num silêncio aterrador, que afrontava a ordem da alma do génio, atira-lhe o martelo à cara e quebra-lhe o nariz.
Outros há que, sempre inquietos no seu talento, depois de páginas brilhantes, vertidas em textos de rara beleza, deitam tudo a perder, rasgando, de alto a baixo, momentos altos de suas vidas.
Vida de artista é isso mesmo – é silêncio e escuridão – e nada mais; é um não caber em si de contente; é um não querer mais que bem querer; é ter de mil desejos o esplendor e não saber sequer que se deseja –, um caso muito sério...
E contou-me o meu amigo Norberto uns tais dizeres de um finório em artes muito nossas, um homem miudinho, o olhar penetrante, o pé descalço, dando alento, na prancha redonda, ao maior talento da Vila – o mestre José Batata.
E que dizeres eram, “eu já lhe conto”, e descreveu-me, com a minúcia de um bom contador de histórias, a cena, em que representavam duas pessoas: uma, vergada pelos mais de oitentas, viúva, o xaile preto a agasalhar-lhe o corpo curvado, os tamancos a matraquear na calçada, a voz sumida, “mestre José, boa tarde”, e a outra, o pé a dar a dar na roda, “ó tia Olinda, vai entrando, vai entrando”, e a pegada do mestre José Batata a dar a dar, que o dia já não é grande, não senhor, “a hora já mudou, tia Olinda”, e os dois ficaram-se em considerandos de ocasião, “esta coisa, da hora mudar, mexe comigo, mestre José”, e ele, apenas a consolou, “pois é, tia Olinda”.
E a tia Olinda, cansada da jornada, que a trouxera das bandas do Baixio, senta-se numa banca, deitando sentido nos dedos do mestre José Batata, ele que amacia a massa informe do barro húmido, “isso ainda dá o seu trabalho, mestre José”, e o pé do oleiro quedou-se, “ora se dá, tia Olinda”, e deu uma cuspidela para o chão terreiro.
Estava eu deveras agradado com a narração dos pormenores, “engraçadíssimo”, e o meu amigo Norberto, “pois, pois, estou a ver o mestre José com aquele seu jeito muito próprio...”, a contar o sucedido.
A mulher do Baixio, a tia Olinda, cerimoniosa, “queria um bacio, mestre José”, para as necessidades das noites compridas de Inverno, “estão ali, escolhe um daqueles, tia Olinda”, e a viúva deitou a mão a um, que enfiou numa saca de fardo, “vai aqui debaixo do xaile, que eu tenho vergonha de o levar assim à pamparela”.
Bem, aqui o oleiro, não vislumbrando razões de tais vergonhas, disparou resoluto, sem receios de borrar a sua obra, “tia Olinda, tira-me esse penico dessa saca que eu quero ter uma conversa com ele, antes dele se ir embora daqui”, deu mais uma cuspidela para a ilharga, ajeitou o boné na cabeça, e prosseguiu irónico, que só a alma de artista concebe, “penico, ouve meu amigo, se esta mulher de ti tem vergonha, como será, então, quando ela se sentar em cima de ti, e tu, por baixo, avistares as vergonhas dela?”.
“Ai tal mestre José...”, e a tia Olinda, com o penico bem agasalhado das bocas do mundo, se foi com os tamancos a burilar a calçada.
Então, o meu amigo Norberto, segurando o guarda-chuva, nós que saíamos de um concerto de dois saxofones – um evento raro –, na Câmara, vendo a minha satisfação, completou sorridente, “isto foi tal e qual como ele me contou”.
E não resisti a uma boa gargalhada, afiançando-lhe, “essa é uma história, que deveria merecer honras de escrita”, já que “a vida não é o que cada um viveu, mas o que recorda e como recorda para contá-la”.