UM ITALIANO EM APUROS
A meio da tarde, a lancha deixava o porto da Casa, de regresso à ilha das Flores, e para trás ficara a mais pequena jóia do colar açoriano, embrulhada num desejo de um dia voltar.É que, de tão pequena que é a ilha, que pouco tem para nos mostrar, não poderia esquecer aquela mãe, a receber a filha no cais, com um bule de chá, agasalhado num abafador de lã, “tome também, minha senhora, que está tão pálida”, disse a prestimosa corvina para minha mulher, que havia enjoado.
Bafejado por aquela lembrança grata, e a lancha, galgando a ondulação, despedi-me daquele rochedo, onde se aninha uma paz, que, até hoje, nunca mais encontraria em nenhuma parte.
Agora, mestre José Augusto, o grande timoneiro daquele canal de arrojadas travessias, deu uma olhada pelo mar, que tinha pela frente, e gritou da proa, para aquele punhado de turistas, “nós não vamos para as Flores!”, e todos se riram do gracejo. Mas o destemido lobo do mar, vendo que não o tinham levado a sério, voltou à carga, “é verdade, nós não vamos para Santa Cruz”. E todos, entre portugueses, franceses e italianos – éramos uns doze –, olhámos uns para os outros, já que ele se expressava, minimamente, nas outras duas línguas.
Na realidade, o comandante-em-chefe daquela expedição de marinhagem veraneante, queria dizer que não íamos já para a ilha das Flores, onde decidíramos passar uma semana de férias, naquele Agosto de 1976.
Com efeito, ele começou a abrir o jogo, reduzindo a marcha da embarcação, mostrando-se num vasto sorriso, que lhe iluminava o rosto, tisnado do sol, seu melhor companheiro de viagem, “quem trouxe fato de banho que se prepare”, e dali a pouco a lancha estacava, aninhando-se no meio daquela concha protegida pela altíssima falésia a precipitar-se, a pique, mar adentro, como se encostasse ao cais de Santa Cruz, já o mar se acalmara.
“É aqui”, disse visivelmente satisfeito, por nos querer proporcionar um inesperado mergulho, em águas tépidas, aquecidas pela rocha exposta àquele sol escaldante.
E mais surpresas tinha mestre José Augusto.
Com o último a trepar, a custo, o costado da lancha, todos a bordo o brindaram com uma bem merecida salva de palmas, “bravo! bravo!”, gritou um dos italianos e o comandante deu força à vante, e zarpou daquele lugar de sonho.
A surpresa seguinte estava a pouco mais de uma milha dali, encostando ele a lancha ao calhau, “essa água, ali em cima, é boa para quem quiser que o cabelo cresça...”, e virou-se para o italiano careca, passando as mãos pela cabeça, para que ele o entendesse.
Logo o grupo foi saber das virtudes daquela água miraculosa. Claro que, nesse tempo, tinha eu menos vinte e sete anos, era novo, a cabeleira farta, e apenas constatei que a água não era fria, não, era mesmo bem quente.
Agradados com a surpresa, voltávamos nós à lancha com o italiano careca a deixar-se ficar para o fim, para poder beneficiar, em plenitude, tudo o que a pródiga água tinha para lhe dar.
O curioso é que ele, o italiano, em vez de seguir o conselho do comandante, ou seja, passar só as mãos pela cabeça, pôs toda a careca debaixo da água que corria farta.
Ainda estou a ouvi-lo aos gritos, “calienta! calienta!”, e desatou a correr pelo calhau abaixo, com todos nós a bom rir, especialmente o maroto do comandante, que tinha pregado mais uma das suas partidas...
E mais coisas há para contar dessa viagem, que a generosidade do mestre parecia não ter fim. Fica para outro dia.
Agora, muito gostaria que esta crónica chegasse às mãos de mestre José Augusto, para que ele pudesse voltar atrás no tempo, e divertir-se novamente com o sucedido.
Aí vai um abraço, comandante.

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