UM CASO DE POLÍCIA
"Não há certeza alguma neste mundoe tanto basta para dar alforria ao espírito humano"
Ricardo Jorge
Um amigo que se preza é aquele que nos deita a mão à porta e, sem pedir licença, nos faz um reparo, “mesmo no meio de um desgosto, lá encontras uma razão para escrever”.
Bem, lá por isso, e por se ter perdido a única andorinha do ninho, a gente, comigo nesse baralho, não deixa de falar de qualquer coisa – melhor assim, cuido eu.
Por conseguinte, os meus, que ainda agora se foram – como se um grande paquete, numa viagem de excelsa beleza, atravessando o mundo dos sonhos, os levasse para o imenso Reino do porvir –, estariam comigo na leitura destes escritos, como gostosamente o faziam – o sangue sempre nos puxou muito.
Como ainda havia uns restos de festa por aí, o meu sobrinho – o tal quarentão, a contas só consigo, que a vida, assim, tão bem lhe sabe –, no melhor de um destes serões, a cavaqueira, contava-me, “esta é de bradar aos céus, padrinho”, e naquele seu jeito de tudo bem, poucas ondas é o seu forte, uma singeleza amena, “sempre há cada uma...”, e o gesto a compasso, a expressão risonha, o meneio característico, enfeitavam-lhe o ramalhete da arte de dizer.
E vai daí que um militar da Base das Lajes, dos States, à paisana, abastecia a sua viatura numa estação de serviço, na Praia da Vitória. Tudo bem, não fora a pior das companhias – os copos que não seriam todos para ele.
Na euforia do mundo todo seu, “hands up!”, gracejou para um fulano, mãos ao alto... e ainda repisou, “this’s a holdup!”, estava disposto a assaltar-lhe, “your wallet!” – numa de bolsa ou vida...
A vítima, no seu melhor, revela-se numa calma aterradora, exibindo-lhe o crachá da “Judiciária”, e o americano, sempre na maior, saca do seu cartão de identidade, ”I’m Mike Smith”, como se fora um nome sonante da diplomacia americana, ornado de todas as imunidades do State Department.
No meio dos vapores de Verdelho, o policial agarra do telemóvel, e alerta a polícia americana, que vagueava nas redondezas, “an amarican fellow is leaving the gas station, in very bad conditions”, claro que a tentativa de assalto lhe parecera uma brincadeira, mas as más condições de condução não lhe deviam permitir ir muito mais além da estação de serviço – tinha de ser interceptado.
E num golpe de teatro de um autêntico James Bond, o cape Mike saca, também, do seu telemóvel e chama a companhia seguradora, “eh, fellows, my car has just got a pan, I need a truck, right now!”, o carro acabara de enguiçar, precisava de um reboque, imediatamente.
Algum tempo depois, o carro seguia empoleirado na carripana azul, e o nosso Mike, muito bem disposto, pudera, seguia à frente, junto com o condutor, “it’s a real pleasure going here, believe me”, para ele, era um prazer enorme viajar ali, podia crer o motorista.
Mais à frente, uma espera policial parecia querer saber da aventura do cape Mike, “eh fellows, I’m quite sure you need to find out what’s going on with me”, os amigos americanos precisariam de saber o que estava a acontecer com ele, disso tinha quase a certeza.
Era verdade, o cape Mike não estava, agora, em transgressão, somente alardeava a sua irreverência, nada mais – alcoolêmia, qual quê?
Viajava com um motorista assistente e os vapores eram só uma questão de tempo, “fellows, you may go back to the station, I’m going to Angra, O. K. ?”, os amigos corpulentos, uns sobrinhos remotos de Uncle Sam, que ele bem conhecia, podiam dar meia volta, porque a cidade património era o seu destino, e os compromissos eram inadiáveis.
E agora, de que certezas podemos falar neste mundo? O cape Mike, com as suas tropelias, acabara de dar alforria ao vagabundo espírito humano.
E o meu sobrinho, levantando-se para continuar na noite, ainda com o sorriso largo, consumava aquele extravagante caso de polícia, “é assim, os Américas quando exageram no Verdelho...”, e apenas acrescentei divertido, “sempre há cada uma...”.
Bem, lá por isso, e por se ter perdido a única andorinha do ninho, a gente, comigo nesse baralho, não deixa de falar de qualquer coisa – melhor assim, cuido eu.
Por conseguinte, os meus, que ainda agora se foram – como se um grande paquete, numa viagem de excelsa beleza, atravessando o mundo dos sonhos, os levasse para o imenso Reino do porvir –, estariam comigo na leitura destes escritos, como gostosamente o faziam – o sangue sempre nos puxou muito.
Como ainda havia uns restos de festa por aí, o meu sobrinho – o tal quarentão, a contas só consigo, que a vida, assim, tão bem lhe sabe –, no melhor de um destes serões, a cavaqueira, contava-me, “esta é de bradar aos céus, padrinho”, e naquele seu jeito de tudo bem, poucas ondas é o seu forte, uma singeleza amena, “sempre há cada uma...”, e o gesto a compasso, a expressão risonha, o meneio característico, enfeitavam-lhe o ramalhete da arte de dizer.
E vai daí que um militar da Base das Lajes, dos States, à paisana, abastecia a sua viatura numa estação de serviço, na Praia da Vitória. Tudo bem, não fora a pior das companhias – os copos que não seriam todos para ele.
Na euforia do mundo todo seu, “hands up!”, gracejou para um fulano, mãos ao alto... e ainda repisou, “this’s a holdup!”, estava disposto a assaltar-lhe, “your wallet!” – numa de bolsa ou vida...
A vítima, no seu melhor, revela-se numa calma aterradora, exibindo-lhe o crachá da “Judiciária”, e o americano, sempre na maior, saca do seu cartão de identidade, ”I’m Mike Smith”, como se fora um nome sonante da diplomacia americana, ornado de todas as imunidades do State Department.
No meio dos vapores de Verdelho, o policial agarra do telemóvel, e alerta a polícia americana, que vagueava nas redondezas, “an amarican fellow is leaving the gas station, in very bad conditions”, claro que a tentativa de assalto lhe parecera uma brincadeira, mas as más condições de condução não lhe deviam permitir ir muito mais além da estação de serviço – tinha de ser interceptado.
E num golpe de teatro de um autêntico James Bond, o cape Mike saca, também, do seu telemóvel e chama a companhia seguradora, “eh, fellows, my car has just got a pan, I need a truck, right now!”, o carro acabara de enguiçar, precisava de um reboque, imediatamente.
Algum tempo depois, o carro seguia empoleirado na carripana azul, e o nosso Mike, muito bem disposto, pudera, seguia à frente, junto com o condutor, “it’s a real pleasure going here, believe me”, para ele, era um prazer enorme viajar ali, podia crer o motorista.
Mais à frente, uma espera policial parecia querer saber da aventura do cape Mike, “eh fellows, I’m quite sure you need to find out what’s going on with me”, os amigos americanos precisariam de saber o que estava a acontecer com ele, disso tinha quase a certeza.
Era verdade, o cape Mike não estava, agora, em transgressão, somente alardeava a sua irreverência, nada mais – alcoolêmia, qual quê?
Viajava com um motorista assistente e os vapores eram só uma questão de tempo, “fellows, you may go back to the station, I’m going to Angra, O. K. ?”, os amigos corpulentos, uns sobrinhos remotos de Uncle Sam, que ele bem conhecia, podiam dar meia volta, porque a cidade património era o seu destino, e os compromissos eram inadiáveis.
E agora, de que certezas podemos falar neste mundo? O cape Mike, com as suas tropelias, acabara de dar alforria ao vagabundo espírito humano.
E o meu sobrinho, levantando-se para continuar na noite, ainda com o sorriso largo, consumava aquele extravagante caso de polícia, “é assim, os Américas quando exageram no Verdelho...”, e apenas acrescentei divertido, “sempre há cada uma...”.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home