04 maio 2006

A esfíngica figura do senhor Pedrinho

Já há muito tempo que tenho este apontamento de lado, e chegou a hora de espairecer essa bendita alma do senhor Pedrinho. É uma coisa é outra, vai uma fala disto outra daquilo, e o borrão amarrotado, aqui no computer, parecia não querer sair do casulo.
E, hoje sim, o enrugado vai ter o apreço da serventia; está decidido, vou dar um abanão a esse sujeito, que não conheci – a esfíngica figura do senhor Pedrinho.
Ora, essa enigmática criatura, natural de Santo António, muito para cá do Nordeste, digamos que um pouco além das Capelas, e antes da Bretanha dos Capetos – desculpem-me os de cá, mas tenho que situar uns leitores do Pico e de São Jorge –, fez as mentes amedrontadas do meu saudoso irmão Victor e da mulher.
E logo no primeiro dia de escola, em 1960, “ai senhor professor, dizem que o senhor Pedrinho aparece... naquele casarão, onde os senhores estão assistindo, lá pela noite fora...”, prevenia a contínua, ansiosa por mostrar algum cuidado com o novato casal.
E uns diziam que o sibilino se metia na dispensa, para comer do que lá havia, “se assim é, senhora professora, ele é um grandíssimo confiado...”, insistia ela, ingenuamente, fechando, ao fim do dia, as janelas da sala de aula.
Outros, que os há, julgando-se mais advertidos, neste mister de almas do outro mundo, “não, senhor professor, o que a minha bendita mãe nos dizia é que ele se enfiava no quarto de dormir dos netos”.
E o vizinho, meio perturbado, já se vê, “que isto me custa a crer, mas é o que se dizia no tempo”, e a minha cunhada, ao lado, ria-se, de amarelo, “no meu quarto de cama, credo!”, pois, às tantas, o homenzinho, se calhar, sentia-se desconsolado, e que tal o conchego dos cobertores quentes, que a tumba era mesmo regelada...
Quer na dispensa, quer no quarto de dormir, o senhor Pedrinho jamais molestou os novos inquilinos. E o meu irmão, na primeira visita que lhe fizemos, caçoando daqueles dizeres, “até aqui, o fabiano tem sido uma pessoa acomodada”, e, se se passeava pela casa, subindo escadas até ao torreão, nunca ele se topou com a esfíngica personagem, tão-pouco a bondosa minha cunhada deu por falta de bolachas na dispensa, se bem que andasse de olho nele....
Mas o casarão, sendo enorme – só a cozinha dava para se jogar à cabra-cega –, deixava-se atravessar, nos seus sete quartos, por muitas dúvidas, e não era para menos.
E há sempre um dia que as coisas se toldam, “menina Teresinha, eu quero voltar para a Vila”, implorou a empregada, que dormia no torreão, "ó rapariga, e tu ainda acreditas nisso...”, sossegou minha cunhada.
Uns tempos depois, pareciam as coisas mais dormentes, a Maria do Rosário resolvera ficar, e o senhor Pedrinho, em boa verdade, não parecia mais do que uma figura imaginária – melhor assim.
As contínuas da escola e algum vizinho, mais atento ao carpir de fantasmas, querendo fazer crer que a casa era mesmo assombrada, ainda tentaram a sua sorte, mas ficaram-se por isso mesmo, que os rendeiros da casa solarenga queriam mesmo era descanso.
O Inverno acabara desandando, mal-humorado, para outras bandas, a costa recortada vestia-se dos melhores verdes, a Primavera trazia um arejo bem gracioso e a minha cunhada, “às vezes, Victor, eu via o senhor Pedrinho, um homem magro, alto, de chapéu...”, e, pasme-se, em cima da cómoda...
Bem, valente, valente, era mesmo o cão de guarda da nossa casa, porque o meu irmão, com o astral ainda em dúvidas, “nunca te quis dizer nada, mas também mirava, naquelas noites de invernia, um homem baixote, redondo, mas sem chapéu...”, e, imaginem só, em cima do guarda-fatos...
Mas há sempre uma explicação para tudo. A alucinação da minha cunhada pendia para a sua gente, já que o pai era tal e qual – alto e seco – mas bondoso. A assombração, que o meu irmão descortinava, empoleirado no guarda-fatos, era a estampa chapada de meu pai, um rente-ao-chão, sempre desejoso por histórias do arco-da-velha.
A casa ainda lá está, altiva, afrontando o casario baixo, que lhe fica fronteiro. Se por lá ainda se passeiam figurões apocalípticos, a acertar contas antigas, um testamento dos diabos, de entre eles, certamente, o senhor Pedrinho é o primeiro da frente, na fileira das misteriosas criaturas, que assombraram alguns desprevenidos – e não só – da ridente terra de Santo António.
Mesmo assim, os meus geraram lá o primeiro filho...