27 abril 2006

UM VIAJANTE MUITO SIMPÁTICO

Lisboa estava a ficar para trás, e muitos dos passageiros ainda permaneciam na amurada a namorar-lhe o casario. Acabáramos de passar sob a ponte, e um cavalheiro bem vestido, a meu lado, deitava um último olhar sobre a margem norte, dando a entender que conhecia bem aquelas paragens da cidade, “é uma cidade sempre bonita”, ouvi-lhe. Ia eu a dizer-lhe alguma coisa, mas já ele abandonava o lugar e entrava no salão, seguido por outro passageiro.
A tarde derretia-se numa toada compassada, naquele princípio de Outubro, com as pequenas ondas a esmorecerem de encontro ao costado do navio. Deixei-me ficar até ao acender das primeiras luzes; “é Cascais, não é?”, disse uma senhora para o marido. E assim, a coberto de uma brisa esfriada, se perdeu a vista sobre o que restava da velha Europa continental.
O grande mar, agora, abria-se, de par em par, à imaginação de cada um. E quis ver, ao largo, as muitas naus com as velas inchadas do vento, que parecia soprar de nordeste, “devem ser as de Gonçalo Velho”, pensei. Fiquei algum tempo por ali, fascinado pelas fantásticas viagens dos nossos maiores. Por isso, fui dos últimos passageiros a deixar aquele lugar de sossego à mistura com muito mistério.
Até ali, não dera por nenhuma cara conhecida, e concluí: “vou ter que arranjar conversa para a viagem”.
A caminho das ilhas, o “Carvalho Araújo” deslizava sobre as águas mansas de um oceano, que acabara de adormecer, envolto pelo capote da noite escura.
E chegado ao salão, logo se fez ouvir o rapaz do xilofone, a anunciar o jantar. Aquele ar fresco, de há pouco, despertara mesmo o apetite, que logo fez levantar quase todos do salão.
Sentei-me, e aguardei pelos companheiros de mesa que iria ter; e curioso, a meu lado se veio juntar o mesmo cavalheiro, que eu supus ser dos lados de Belém, “não, não, – respondeu com manifesta simpatia – sou da Ajuda, junto a Cavalaria 7, conhece?”, foi o princípio de uma conversa de três dias.
Então, aquele cavalheiro quarentão, tinha eu vinte e poucos anos, de boas maneiras, trajando um terno castanho, de padrão príncipe de Gales, e que se deslocava aos Açores, por esta altura do ano, era um caixeiro viajante. Fazia a praça, duas vezes no ano, carregando vários baús com as últimas novidades em tecidos e uma sorte de outros artigos.
“É uma vida um pouco errante”, disse-lhe, calculando o enfado do afastamento da família. “sou solteiro”, respondeu com um largo sorriso. “Posso adivinhar-lhe o bom marinheiro que parece ser...”, gracejei. E ele, com elegância, passando o guardanapo pela boca, rematou, “marinheiro sou, e de muitas águas...”, e riu-se. Imaginei-lhe o pinga-amor, bem parecido, nas várias praças das ilhas. “Isso não – interrompeu-me o pensamento – que a minha vida exige boas vendas, e só isso; as águas, a que me referia, são estes mares, sempre diferentes: hoje um mar de azeite, amanhã o que será...”
Após o jantar, passámos ao salão para mais um pouco de conversa, e numa mesa, junto ao bar, já se jogava. “Aqueles quatro ali são meus colegas de profissão”, observou-me. E eu perguntei-lhe como eram as regras do jogo, já que eram, só ali, cinco os caixeiros viajantes, “sabe, cada um representa a sua casa, nunca há problemas”, esclareceu-me.
Deixámo-nos prender por um ror de curiosidades tão comprido, quanto o muito tempo que era todo nosso. E falou de muitas casas comerciais pelas ilhas, umas que eu bem conhecia, de Angra e de Ponta Delgada. “Claro que conhece os Armazéns Cogumbreiro”, adiantei à conversa o orgulho comercial da minha cidade, e a resposta veio-lhe pronta, “aquilo, mais do que uma grande casa, é uma rica escola de profissionais”. E tinha razão o simpático caixeiro viajante.
E contou-me que ficava pelas ilhas uns três meses, pois que eram muitos os comerciantes, que os procuravam nas salas de exposição. “Sabe, a casa que represento e todas as demais enviam, com antecedência, uma carta a anunciar a nossa chegada”, explicou. “Pelo que vejo, é uma vida interessante”, e ele, dirigindo-se ao bar, “é mais do que interessante, é apaixonante, pode crer; aceita um digestivo?”.
Mas aquele cavalheiro, de porte elegante, gentil, solteirão, arrastava a asa – viria a saber mais tarde –, por uma senhora de Angra, com quem viria a casar.
Em boa verdade, aquele companheiro de viagem, um viajante muito simpático que era, honrava sobremaneira a sua classe.