À TERRA AONDE FORES TER
“Num país tão seco e caótico,a linguagem quebra-se contra altas vedações e barreiras”
Maria Gabriela Llansol
Exactamente isso; é como vos digo, não vale a pena ignorar, cumpram esse ditado, escrupulosamente, “faz como vires fazer”, dizia o saudoso padre Rebelo, nas suas apreciadas aulas de Moral, ele que agora é, há três anos, um bom vizinho de memórias.
E entre a bondade da sua palavra e os desígnios de Deus, que tanto sublimava, metia uma pequena história, certamente para nos cativar – a do ovo e da galinha – porventura a mais badalada pela rapaziada, um ou outro episódio rocambolesco, enfim, muita coisa tinha o professor para contar.
As histórias de reis, e outras figuras graúdas da cena mundial, faziam as suas delícias. Recordava ao pormenor, como se a tivesse presenciado, a visita régia de D. Carlos, “ a rainha D. Amélia era mais alta do que o rei...”, gracejava.
E descrevia uma digressão que o rei Eduardo VII, muito viajado pelo império britânico, fizera por terras africanas, “era um soberano afável, elegante, um grande desportista, enquanto príncipe de Gales...”, e aclarava melhor o pormenor do estatuto de príncipe, não fossemos nós pensar que o monarca apenas se ocupava dos assuntos atléticos.
Ora, a história referia-se a um festim, oferecido por um alto dignatário dos seus domínios. Banqueteavam-se as criaturas com as melhores iguarias, “e quando chegou a hora da galinha, toca o régulo e seus seguidores, de atirar os ossos para trás...”, logo apanhados pela inúmera criadagem em redor.
Incrédulos com o insólito, ”ó senhor padre, isso é mesmo verdade?”, perguntava alguém na sala, ”sim, sim”, asseverava ele, como se fora um dos convivas presentes na boda.
Bem, uma coisa assim, quantas vezes excêntrica, acrescida do exotismo da batucada, fez sua Alteza pensar duas vezes, “o rei olhou à volta, desfez-se dos pruridos da corte, a muitos dias de viagem dali, e arremessou a ossada...”, pelo que foi muito aplaudido pelos circunstantes, isso contava o mestre, sempre bem informado. E assim fiquei a conhecer quem dera o nome ao famoso parque da Capital.
O presbítero – estou a vê-lo a caminho do Liceu – de riso fácil, barriguinha cheia, o passo miudinho, ligeiro, rematou a cena, algo caricata, “pois é, meus amiguinhos, à terra aonde fores ter...”, e mais uma aula chegava ao fim.
Muitos anos depois, e bem arredado dos domínios de sua majestade, digamos que aqui entre portas, porque, nas distâncias comparadas, podemos dizer que a ilha de Jesus é duas ruas aqui ao lado – ali para as bandas dos poentes de Anthero –, o incrível tinha de acontecer.
A nossa irmã Terceira, catita, vaporosa que é, de lilás vestida, parece ter, eternamente, umas contas a acertar com a mana mais velha, com aqueles amuos que lhe dá, de vez em quando, e que vêm, é o que dizem, ainda dos tempos de escola...
Andava o meu bom irmão Victor, sequioso pela soleira de uma tourada à corda, e que tal uma loirinha? entrou numa tasca da Silveira, “uma Melo-Abreu, por favor”, esperando ser servido, prontamente; não era ele um forasteiro, a quem se devia dar melhor atenção?
Isso é que era bom... Se sede tinha, ficou ainda mais seco com a resposta pronta do tasqueiro, “uma Melo-Abreu? vai beber essa coisa para a tua terra”, e ponto final.
Mas o meu irmão, tentando afogar a sede, entre tábuas, e ensaiando um sotaque rabo-torto, “ó homem, dê-me de outra marca”, e o taberneiro, tipo gado bravo, investiu, ”já te disse, vai para a tua terra, aqui não tomas cerveja nenhuma”, e ponto final, parágrafo.
Vejamos o que dizem os antigos: antes um mau ano do que um mau vizinho e é verdade. Virou ele costas aos impropérios do rezingão, entrou na tasca em frente, afinou uma voz simpática, que a sede era já muita, “uma cerveja, por favor”, o bem-humorado bodegueiro, animado com a festa brava, e melhor, com a tasca cheia, “sai uma imperial para este nosso São-Miguel!”, e assentou a mão gorducha no ombro do meu saudoso irmão Victor.
Em boa verdade, nos dizeres de D. Gabriela, “num país tão seco e caótico, a linguagem quebra-se contra altas vedações e barreiras”, e digam lá se o bom padre Rebelo não tinha, também, razão, “à terra, aonde fores ter, faz como vires fazer” – nem mais...

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