12 julho 2006

Um dia de muito mar

Estou de volta, como prometi, para recordar a galhardia do velho lobo do mar, do canal Flores Corvo, que é mestre José Augusto.
Se bem se lembram, o tal italiano, que se tinha metido em apuros, ao querer que aquela água milagrosa operasse maravilhas na sua calvície irreversível, voltando à guedelheira dos tempos de rapaz, tinha dado um grande show, ao desandar pelo calhau abaixo, aos gritos, “calienta! calienta!”
Agora, com a careca já arrefecida, e toda a marinhagem veraneante, transbordando alegria a jorros, o comandante capitaneava, como ninguém, a lancha para outras paragens da costa altaneira da ilha das Flores.
Que mais teria ele para nos mostrar, naquela tarde de sol escaldante e de tanto mar?
No meio daquele mar, agora calmo, imaginei os primeiros navegadores, debruçados na amurada, depois de ouvirem o gajeiro, empoleirado na gávea, gritar, “terra à vista! terra à vista!”. E eles, acabados de chegar, extasiados com a beleza daquela penedia negra, vestida de farrapos verdes, muito florida, qual menina envergonhada a mergulhar no oceano, para esconder-se daquela gente estranha, terão proclamado: “esta é a ilha das Flores!”.
E tinham razão, porque é, na verdade, uma terra de rara beleza. De costas escarpadas, salpicadas por tufos verdes, viu a natureza rasgar-lhe as entranhas, em vales profundos, e deu-se, de presente, naquela grande montanha, acima do mar erguida, para servir as naus em aflição.
A lancha contornava a costa devagar, “vão entrar, agora, dentro da ilha...”, disse o mestre, num largo sorriso, com a maior satisfação.
E era mesmo verdade; ele dirigia a embarcação para o interior de uma enorme gruta, escavada na alta penedia, às ordens de mares antigos, em fúria milenar. A semi-escuridão fazia lembrar que entrávamos numa catedral basáltica, de grandes abóbadas, a recomendar silêncio para aquele lugar sagrado.
O ruído surdo do motor, ecoando nos ressaltos da enorme concha rochosa – permitam-me o paradoxo – fez-me ouvir uma oratória de requintado gosto barroco, em acordes portentosos.
A intensa luminosidade de um dia cristalino, lá fora, dava agora lugar a um crepúsculo enigmático, caracterizado por uma ambiência mística. Ali ficámos algum tempo a admirar a grande maravilha, envolta numa penumbra excelsa, que mestre José Augusto nos presenteara.
Muito devagar, como quem se despede de Deus, ele fez voltar a lancha no interior da gruta, e outra suavidade, misturada de verdes de algas marinhas e do azul do céu, se foi revelando, à medida que saíamos e a claridade crescia.
E mais grutas houve para entrar e outras só para espreitar, que o porto de Santa Cruz estava prometido, “é só mais uma meia hora e estamos lá”, disse o timoneiro com a alma alegre. E todos irromperam numa grande salva de palmas.
Dá que pensar, agora que muitos anos se passaram.
Este reino – o das pérolas do colar açoriano – não é de reis, nem de príncipes, nem de fidalgos ociosos; é, sim, um reino das gentes, que muito deram do seu esforço, para termos tanta beleza por aí plantada.
E dos milheirais verdes a ondear na brisa suave de uma tarde ensolarada, dos montes e dos vales sempre verdejantes, das ribeiras de águas cristalinas a perderem-se por mares que sempre cruzámos, de tudo isso, façamos um palácio para os vindouros, ou melhor, a nossa casa para viver.