GOOD BYE NEW YORK

Voltando a New York city, que a havia deixado em sossego – para falar da Vera, essa boa Prima, e da cidade que és minha –, fui surpreendido, como dizia, por ima moinha de muita inquietação, lembram-se?
A caminho do hospital, ia-me torcendo de dores muito agudas, com a ambulância a toda a força e a buzinar a sirena estridente, furando o intenso tráfego da grande urbe. E não só a viaturaa, onde seguia, parecia barulhenta, porque pelo menos outras duas ou três se colavam a nós, numa infernaria de buzinas, “how do you feel, sir?”, quis saber um dos paramédicos, que, no hotel, havia abordado o meu estado clínico, apalpando-me por todo o sítio, “ai!!!”, arreganhei as goelas, quando ele me batia na zona dos rins.
Apesar das fortes dores, procurava dar a impressão de que estava preparado para o pior; é que, a ser uma intervenção cirúrgica de emergência, isso não seria a primeira na minha vida. E, na sua conversa de entreter o tempo, ele voltou a acalmar-me, que o hospital estaria ao voltar da esquina... “in a few minuts, we´ll be there”, mas as guinadas bruscas de curva à esquerda, curva à direita, faziam crer que o hospício estava, ainda, a vários quarteirões.
Seja como for, com o tempo a correr atrás do tempo da verdade, eu curvava-me sem posição que me desse um mero alívio. Ele pegou-me na mão, “just a while, sir”, mas a companhia das outras ambulâncias, cada uma a querer fazer mais alarde, levou-me a ironizar, “too much noise...”. o paramédico deu uma forte gargalhada e comentou, “that’s right, sir... you don’t feel too bad...”.
Nisto, uma aparatosa travagem seguida de uma viragem apertada fizeram supor uma colisão quase certa, “my Goa!”, exclamei, agarrando-lhe, com todas as forças, pelo casaco, “here we are, sir!”, anunciou a almejada chegada ao Emergency Room.
E para quê tanto aparato, santo Deus? Ele pareceu perceber a minha angústia, “these drivers are like so...”, e eu resmunguei, “querem mostrar serviço...”, ele riu-se do meu desabafo numa língua, que certamente não entendia, e respondeu-me à letra, “cognac is cognac, service is service...”.
Dei uma olhadela pelo sítio desinquieto, enquanto me levavam com presteza na maca: gentes chorando, carreavam muito sofrimento; outros, com sacos de pertences, caminhavam radiantes; yellow cabs chegando com famílias em sentida aflição nos olhares; até que me deixaram num grande átrio, “another portuguese gentleman”, observou uma enfermeira simpática, preparando-me para receber um balão de soro.
Deu umas quantas falas para a colega do lado, “one more hour... and home sweet home...”, claro que esbocei um sorriso de inveja, e ela, satisfeita com o seu tempo a correr-lhe de feição, e o doce lar quase à vista, “you eat much choriso...”, e lá dei um ar da minha graça, “not too much, madam...”, ela fixou-me, “you don’t live here, do you?”, perguntou, quase certa de que eu vivia muito longe dali, “no, madam, I’m just arriving from Portugal”, apenas umas horas, depois de chegar, e já dava entrada onde menos esperava, “that’s life...”, e deixou-me com um sorriso expressivo, recomendando-me sossego, “just relax...”.
Tentei relaxar, mas só me via, na marquesa, a estraçalharem-me barriga adentro, escarafunchando qualquer coisa que seria o mal de tamanho achaque.
Afrouxei o pensamento vadio, melhor assim, para deambular pelo Central Park, em busca do russo bolchevique, e ensaiar um golpe, à KGB, levando-o de volta para Moscovo, mas ele logo se sumia, quando se apercebia da minha presença...
Neste jogo d’o gato e o rato, abandonando o grande parque, e às corridas pelas largas avenidas, a ver se punha as mãos no ex-marxista, como ele me dissera, um médico se pôs à minha beira, “you are Mr. Joao Sampaio, aren’t you?”, e preparei-me para o pior, “yes, doctor, a surgery?”, mas ele, “no...”, e riu-se, “just sand in your kidneys” explicando-me que deveria beber muitos líquidos para facilitar a passagem das areias nos rins.
Com uma receita assim, com alta e livre da faca, esperei por um cortês yellow cab, que me levasse ao hotel. E pensei, se fosse o pardo driver das estepes regeladas da grande Rússia a aparecer, que faria com ele?
Dir-lhe-ia, tão-somente, ardente de alegria, “I’ve change my mind, fellow”. Não, já nada tinha contra ele, “eh, brother, let’s have a Budweiser”.
Depois da loirinha fresquinha, mesmo a calhar naquele sufocante April ’85, estendia-lhe a mão conciliadora, “nice to meet you, my friend” e, para a grande metrópole da Liberdade, good bye... New York!
A caminho do hospital, ia-me torcendo de dores muito agudas, com a ambulância a toda a força e a buzinar a sirena estridente, furando o intenso tráfego da grande urbe. E não só a viaturaa, onde seguia, parecia barulhenta, porque pelo menos outras duas ou três se colavam a nós, numa infernaria de buzinas, “how do you feel, sir?”, quis saber um dos paramédicos, que, no hotel, havia abordado o meu estado clínico, apalpando-me por todo o sítio, “ai!!!”, arreganhei as goelas, quando ele me batia na zona dos rins.
Apesar das fortes dores, procurava dar a impressão de que estava preparado para o pior; é que, a ser uma intervenção cirúrgica de emergência, isso não seria a primeira na minha vida. E, na sua conversa de entreter o tempo, ele voltou a acalmar-me, que o hospital estaria ao voltar da esquina... “in a few minuts, we´ll be there”, mas as guinadas bruscas de curva à esquerda, curva à direita, faziam crer que o hospício estava, ainda, a vários quarteirões.
Seja como for, com o tempo a correr atrás do tempo da verdade, eu curvava-me sem posição que me desse um mero alívio. Ele pegou-me na mão, “just a while, sir”, mas a companhia das outras ambulâncias, cada uma a querer fazer mais alarde, levou-me a ironizar, “too much noise...”. o paramédico deu uma forte gargalhada e comentou, “that’s right, sir... you don’t feel too bad...”.
Nisto, uma aparatosa travagem seguida de uma viragem apertada fizeram supor uma colisão quase certa, “my Goa!”, exclamei, agarrando-lhe, com todas as forças, pelo casaco, “here we are, sir!”, anunciou a almejada chegada ao Emergency Room.
E para quê tanto aparato, santo Deus? Ele pareceu perceber a minha angústia, “these drivers are like so...”, e eu resmunguei, “querem mostrar serviço...”, ele riu-se do meu desabafo numa língua, que certamente não entendia, e respondeu-me à letra, “cognac is cognac, service is service...”.
Dei uma olhadela pelo sítio desinquieto, enquanto me levavam com presteza na maca: gentes chorando, carreavam muito sofrimento; outros, com sacos de pertences, caminhavam radiantes; yellow cabs chegando com famílias em sentida aflição nos olhares; até que me deixaram num grande átrio, “another portuguese gentleman”, observou uma enfermeira simpática, preparando-me para receber um balão de soro.
Deu umas quantas falas para a colega do lado, “one more hour... and home sweet home...”, claro que esbocei um sorriso de inveja, e ela, satisfeita com o seu tempo a correr-lhe de feição, e o doce lar quase à vista, “you eat much choriso...”, e lá dei um ar da minha graça, “not too much, madam...”, ela fixou-me, “you don’t live here, do you?”, perguntou, quase certa de que eu vivia muito longe dali, “no, madam, I’m just arriving from Portugal”, apenas umas horas, depois de chegar, e já dava entrada onde menos esperava, “that’s life...”, e deixou-me com um sorriso expressivo, recomendando-me sossego, “just relax...”.
Tentei relaxar, mas só me via, na marquesa, a estraçalharem-me barriga adentro, escarafunchando qualquer coisa que seria o mal de tamanho achaque.
Afrouxei o pensamento vadio, melhor assim, para deambular pelo Central Park, em busca do russo bolchevique, e ensaiar um golpe, à KGB, levando-o de volta para Moscovo, mas ele logo se sumia, quando se apercebia da minha presença...
Neste jogo d’o gato e o rato, abandonando o grande parque, e às corridas pelas largas avenidas, a ver se punha as mãos no ex-marxista, como ele me dissera, um médico se pôs à minha beira, “you are Mr. Joao Sampaio, aren’t you?”, e preparei-me para o pior, “yes, doctor, a surgery?”, mas ele, “no...”, e riu-se, “just sand in your kidneys” explicando-me que deveria beber muitos líquidos para facilitar a passagem das areias nos rins.
Com uma receita assim, com alta e livre da faca, esperei por um cortês yellow cab, que me levasse ao hotel. E pensei, se fosse o pardo driver das estepes regeladas da grande Rússia a aparecer, que faria com ele?
Dir-lhe-ia, tão-somente, ardente de alegria, “I’ve change my mind, fellow”. Não, já nada tinha contra ele, “eh, brother, let’s have a Budweiser”.
Depois da loirinha fresquinha, mesmo a calhar naquele sufocante April ’85, estendia-lhe a mão conciliadora, “nice to meet you, my friend” e, para a grande metrópole da Liberdade, good bye... New York!

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