16 abril 2006

NEW YORK NEW YORK

Não tinha ficado, propriamente, boquiaberto com a grandiosidade da cidade, pois que, comigo, esse estado de espírito só se tem ao primeiro contacto. É que isso havia já acontecido antes, quando aquelas torres, ao avaliar-lhes a altura, pareciam cair-se-me em cima.
Com efeito, New York, New York era uma velha amiga minha, nem sempre com as melhores recordações.
E tinha razões de sobra, quando, treze anos antes, regressara de barco, com muita bagagem de porão, retida no cais, por via de uma greve de solidariedade para com os estivadores ingleses. Coisas de quem, não tendo mando, manda...
Apesar disso, New York era uma cidade de se voltar sempre, mesmo que...
E o resto vem lá para o fim...
O russo, o driver do yellow cab – lembram-se? –, tinha-se sumido na balbúrdia da Baixa, e imaginei-o, muito naturalmente, a dar-se uma folga na primeira esplanada, ao virar da esquina, “please, a Budweiser”, e quase que dava para avistar o pardo bolchevique, a bebericar, sem pressas, a saborosa cerveja – estaria ele e eu, precisando de refrescar a goela.
Plantado ali, no meio do amplo side walk, bem me poderiam tomar pelo tal bufo da secreta soviética, com a maleta preta na mão, e a mala, no chão à minha ilharga, eu que mirava o altaneiro casario em volta, quando, inesperadamente, alguém se apossou dela, a mala, ”yes, sir”, perfilou-se um rapazola, fardado de azul.
Não era nenhum colega bufo, não; não tinha ninguém à minha espera, acreditem...
Dei uma guinada brusca, receoso da investida, “eh, wait a moment, please”, e quis certificar-me se aquele franganote, mascando shewing gum, era mesmo do hotel para onde estava destinado. Ele, atencioso, “no problem, sir”, retirou a mala da carreta, e “pardom, sir”, enquanto eu dava uma olhada em redor, não fosse ele pertencer a uma outra hospedaria, ali ao lado, “is this the Lexington hotel?”, assegurei-me, tinha que ser, “off course, sir...”.
Agora sim, estava tudo nos conformes, porque já tinha, afinal, dado com o nome do hotel, por cima de uma das portas, por sinal, um pouco além do sítio onde nos encontrávamos, e o moço riu-se, “anything wrong, sir?”.
Já não havia dúvida alguma; estava in New York city, e o meu destino estava encontrado: Lexington hotel, “no, everything is all right”, respondi, e ele voltou a colocar a mala na carripana, enquanto o acompanhava até à espaçosa recepção.
Uma loira espampanante, toda ela num real american style, atendeu-me, bombardeando-me com umas quantas perguntas: se eu gostava de... e de... e mais um de... e eu ia respondendo yes, no, may be, sure, até que, “room 3732, sir”, e deu-me um cartão perfurado.
Devo ter feito uma cara de estranheza com o cartão – para que serviria aquilo... e o elevado número de quartos... –; mas ela, adivinhando-me a admiração, esclareceu expedita, apontando no cartão plastificado, “this´s your key, the 37th floor and room 32; o.k., sir?”, e, de certeza, levou aquela para contar ao seu boy friend...
E o que é que tem de mal a minha surpresa?... nestas coisas, uma vez é a primeira...
Bem, o tal rapazote malandreco, ainda à espera da gorjeta, limitou-se a justificá-la, “the elevator is right there, sir”, e lá foi cravar outro hóspede...
Melhor assim, porque deu para fazer o teste ao building, que tinha cinquenta e tal andares, o suficiente para me poder atrapalhar.
Mas não; o elevator parecia um foguete e, num ápice, cheguei direito ao 37th floor, e o room era mesmo bacano, tudo em tons de azul, razão da fardamenta do catraio, fardado da mesma cor.
Estendi-me ao comprido na cama para passar em revista os meus afazeres de serviço, e passar, então, pelas brasas – estava deveras cansado da viagem transatlântica.
Brasas... quais brasas?
O resto, de que vos falava no início, resumiu-se a uma moinha que se acercou da região lombar e, decidida a não me deixar em paz, levou-me de vencida, “anything wrong, sir?”, perguntou o empregado da recepção, que eu havia chamado pelo telefone, para vir em meu auxílio, “I’m realy sick”, disse consternado e cheio de dores, “you’d better go to the hospital, sir”, aconselhou-me em boa hora.
Mesmo assim, New York é uma cidade de se voltar sempre, mesmo que...
Ainda há mais in the New York, New York...