14 abril 2006

CIDADE QUE ÉS MINHA


Nem mais, mal d’amores não tem cura.
Cidade, cidade, é mesmo esta, a nossa, aonde eu, e tantos outros como eu, aqui vieram parar.
Não é New York city, nem pouco mais ou menos. Não; não quer ser essa coisa grande, medonha, descomunal, não senhor. Quer ser ela própria, um burgo que os tempos, afectuosamente, vêm levedando, num labor de gerações, onde quase todos se conhecem, e que se dizem, uns aos outros, olá, bom-dia – e só isso lhe basta.
Ah... a primeira vez que vim à cidade... nem se pode imaginar a alegria que me inundou a alma, quando meu pai me disse, “já falei com o teu professor, amanhã, vais comigo”, e corri para ele a encher-lhe de beijos.
Quem é que dizia que eu adormecia logo à primeira, qual quê! Revirei-me umas quantas vezes a conceber as muitas voltas que o senhor Mariano – o chafeiro das viagens para a cidade – daria no guiador, metendo as mudanças para galgar o destemido Pisão.
E adormeci ao despachar e a cobrar os bilhetes aos passageiros para aquele ensaio de viagem, depois de engendrar mil manobras, antes do arranque; mas logo de seguida estremecia, na cama, com a camioneta a bater na primeira curva, à saída da Vila...
Bem, desempanado o calhambeque e compostos, mais ou menos, os guarda-lamas, entrei afortunado nas nuvens, e que nuvens! – estava mesmo feliz.
Envolto na primeira nuvem, com minha mãe a dizer-me adeus, da varanda, outra veio, menos favorável, e espreitei, de muito longe, que a camioneta partira o eixo. Meu Deus, e agora?... Nada de mais, que logo outra ali estava para nos levar – fervia o poder da fantasia.
À terceira nuvem, tinha de ser, acordei a meio da noite, num inquietante sobressalto. Tinha sonhado que perdêramos a camioneta da carreira da manhã, e levantei-me, “papá, papá”, estava plantado à sua beira, e ele, adivinhando-me a ânsia, sossegou-me aquela aflição, “ainda é de noite, filho, vá, vá dormir”, e afagou-me a cabeleira de caracóis revolta.
Enfiei-me na cama para retornar às voltas com uma viagem cheia de peripécias: a gasolina que se sumira do depósito, o motor que gripara nos areais de Água d’Alto, o senhor Mariano, que um malzinho lhe dera; enfim, tudo queria, à viva força, bater torto...
Logo a fortuna me disse: a cidade era o destino marcado, lá disso não havia que duvidar.
Manhã cedo, ainda o sol não dera sinal de si, já minha mãe se abeirava daquele menino ferrado no sono. Pudera, estava extenuado de tanto peregrinar por atabalhoadas encrencas.
Lavado com o sabonete das festas, estava asseado, vestia um calção de veludo, cinzento claro, uma blusa sedosa de um branco-sujo, ah, e calçado, que, não sendo domingo, era dia de sair da terra com os sapatos da primeira comunhão.
Quase duas horas depois, estávamos à Calheta, “papá, o mar está aqui tão perto”, e as casas da rua João Melo Abreu eram já outras, e o bulício do barracão, a azáfama das mercearias, das barracas e do talho, o bate-sola dos sapateiros – cheirava já a cidade.
Um pormenor curioso me chamou a atenção, quando a camioneta seguiu pela rua da Misericórdia, “aquela outra (a dos Mercadores), só dá para cá”, referiu meu pai como sendo algo importante – ainda hoje não mudou.
Saímos direitos à Matriz, caiada de amarelo, e assistimos ao resto da missa, “era o senhor padre Rebelo”, e meu pai tudo me dizia.
Com as pernas retesadas, depois de todo aquele tempo espartilhado, em pé e à frente de meu pai, na camioneta – não pagara bilhete –, parecia-me que os pés não queriam andar, “papá, olha o mar mesmo ali”, e ele levou-me até à Varanda de Pilatos, “papá, para que são estes arcos?”, e ele respondeu, a despachar que eram as portas da cidade.
Aquela de ele dizer que aqueles arcos eram mesmo portas, não se me enquadrou lá muito bem, “mas não têm portas de abrir, papá”. Ele ia a dizer qualquer coisa, e eu adiantei uma explicação para o facto, “se calhar foram a consertar...”, e ele, apertando-me a mão de satisfação, “talvez...”.
Quando peguei a amar-te, cidade, foi isto que aconteceu, quem te disse, meu amor, que eu te havera de largar...
Parabéns para ti menina, que te ajudei a crescer, a fazeres-te bonita, gentil, uma cidade que é minha; é minha, sim senhor.