UM RESTO DE COSTAS
Para dizer adeus aos meus caríssimos Costas, gente de peso, assim se julgam, que, às levas, se rebolam no bem-bom, compreendam os meus amigos leitores que eu cá tenho alguns deveres. Quem se mete nas bocas do mundo, tem que atender uns tantos preceitos.Era aquela dama da nossa praça, pessoa de muitas contas, e bem feitas, coisa um pouco rara, bem se vê, – só para balançar com os atalhos esconsos das safadas contas do Orçamento de Estado –, a dizer-me “olá”; e a prezada senhora, num gesto de cortesia para comigo, “então, os nossos Costas, como é que vão?”, e eu abonei, “olhe, os Costas, essas benditas almas, julgo que estão todos bem”.
E ela, a Dona da arrumada computação, quer da sua, quer da dos outros, de sorriso meigo, “e fazendo o quê?”, e eu só tive que acrescentar, “os Costas, Dona Fátima, apenas se podem dar ao luxo de viajar...”, e arrumámos, nesse serão, as contas do Banco Alimentar.
Já agora, lembrem-se, do dar por dar, ao meritório Banco, não só os que sempre podem, mas aqueles que, sobretudo, pensam que os problemas da Fome lhes passa ao lado – dêem asas à generosidade.
Adiante. E na outra ponta do novelo da Vida, e repuxando o que resta do “Costa Mágica”, a estas horas, sacando mais uns trocados, quiçá os últimos, a um apaniguado teimoso da jogatina, o altaneiro palácio flutuante passeia-se, com a pompa e circunstância, no melhor do Mediterrâneo.
Na última etapa da viagem, entre Génova e Barcelona, sentou-se ao meu lado, no salão do Fred – o tal pianista, o Al Capone, chegado à pressa de Chicago –, um casal meia-idade, julgando eu que seria para a última noite de bem-bom, “where do you come from?”, quis saber daquele par simpático, “from TurKey”, apressou-se o marido, sorridente, ”our trip begins right here”.
E, assim, entendi que os Costas iniciam as suas viagens, em qualquer porto, que o paquete faça escala. Valeu a conversa com o casal da Anatólia.
Quando me cruzo com gente árabe, a primeira coisa que me ocorre é o semblante enquadrado numa cabeleira forte, o olhar profundo e o íntimo bigode.
Aferventei-me logo com o meu reparo, “I thought you were from another country...”, e ele interrogou-se, com notória satisfação, não fosse eu imaginá-lo um intelectual polaco, “why?”, e eu, com pena de o desiludir, “just because you have no mustach...”, e aqui o afável turco vestiu um sorriso amarelo, levando a mão à boca, e respondeu, “I’ve just cut it out”.
Rapar o bigode, porquê? Para mim, melhor é sê-lo do que parecê-lo, mas o otomano, de Istambul, tinha lá as suas razões, as tais que tantas vezes a própria razão desconhece...
Os Costas, pareceu-me, e o turco em particular, mostravam-se de tal sorte, como se aquele monstro dos mares, o elegante “Costa Mágica” saísse do estaleiro só para a elite daquela semana.
Maluqueiras dos tais passageiros sui generis, coisa pouca, é um facto; quem sabe uns resquícios dos atrasados sobreviventes de um serôdio espírito colonial, recheado de mordomias...
Não se aflijam que isso lhes passa – é fruta seca, não germina...

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