18 abril 2006

NEW YORK, A CITY TO REMEMBER

É óbvio que não poderia ficar-me por um mero aceno de cortesia para a cidade de Sinatra, that never sleeps e, de longe, dizer, apenas – good bye... New York!
Claro que não. Evidentemente que um simples adeus era muito pouco pela grande pátria americana. Tinha muitas coisas para contar à minha gente – aquela era mesmo uma cidade para lembrar.
Ora, feitas as pazes com o driver bolchevique, esperava-me o trabalho, para que fora arrolado, pelo meu Serviço e exibir os galões de que ainda era capaz de arengar some words in english.
E pus-me a imaginar, à medida que os quarteirões se sucediam, no caminho do Kennedy airport, para o “Lexington hotel”,, quantos milhões estariam abarrotando as high ways, ou amontoados no sub-way, num lufa-lufa pala vida, desde manhãzinha muito cedo, os filhos enchendo os yellow busses, a caminho das public schools, e outros milhares, acabados de chegar do third shift, a ver se encarreiravam o sono merecido de uma noite escambada nos industrial shops.
Disso mesmo havíamos falado, quando ele me confidenciava, “in the beginning, it was real tough”. E fomos trocando impressões da vida dura de um emigrante, “imagine this, I was a quemical engenneer, in Russia!”, ele olhou para mim pelo retrovisor, talvez a avaliar a minha reacção, e repisou, “yes, it’s truth!”, e em jeito de conclusão, “and now?...”.
Agora, ganhava a vida, como se toda aquela formação universitária fosse apenas para americano ver, ou ir contando aos fregueses, que, como eu, se dispusessem a questionar the american way of life.
Considerandos à parte, abalei, na manhã seguinte, para o meu new job, à beira do rio Hudson, in down town. Achava-me an american executive, de maleta preta na mão, “yes, sir, do you want to go to the top of the Twin Towers, for a visit?”, perguntou-me a tall beautyful girl, plantada in the front desk, pronta para me cobrar um ticket de 3 dolars.
Cheguei-me para ela determinado, não tinha tempo para ir lá cima, “oh, no, I’m on duty”, respondi-lhe todo convencido do meu novo trabalho. Expliquei-lhe, então, que fazia parte do portuguese staff da exposição, A Portuguese Week in New York. Ela olhou-me de soslaio, “your documents, sir”, ao que eu, empoleirando-me nas pontas dos pés, para parecer another sort of an executive, “here they are, miss”.
A moça deu uma mirada minuciosa, um a um, pelos meus papéis, “O. K. sir, 47th floor”, e preparei-me para tomar o elevator e ocupar o meu novo posto de trabalho... in The World Trade Center. Entrou um tal magote de gente no ascensor, que iam forçando os da frente, para que mais um coubesse, “that’s enough!”, gritou uma voz aflita lá na frente, antes que fosse esmagada pelo bando, atrás dela; e nisto o elevador fechou-se, arrancando como um bólide.
Ia deitando sentido nos pisos que iam correndo, até que o dito passou pelo meu floor, sem parar, “please, stop it!”, gritei, antes que ele me levasse até ao topo, “don’t mind, it stops on 5Oth”, sossegou-me a mid-age lady. Como poderia sair dali, eu que estava no meio de um tal ajuntamento? Comecei a forçar uma saída, a tentar a minha sorte, “just wait, brother”, resmungou a fat white collar, e comecei a suar, junto daquela massa adiposa...
Afinal, à boa maneira americana, sempre cheia de soluções práticas, saímos todos – para aí uns sessentas –, para a frente, por outra porta oposta à da entrada, e a simpática lady dispôs-se a esclarecer-me, “it’s an express elevator to the 50th floor” e que tinha de apanhar outro, floor by floor, para chegar ao meu destino. Eram só 45 elevadores, aninhados no corpo central da Torre...
Refeito do susto, não fosse ficar colado, for ever, lá no 103th floor, encontrei o office do certame português, “may I?”, pedi licença, “sure”, respondeu uma moça, que me não pareceu aquele tipo de americana alta, loira, de silhueta escorrida; não, talvez fosse, quem sabe, espanhola, italiana, até mesmo grega, uma coisa assim... e ensaiei-me para estar ao nível delas, “I’ve just been coming from Portugal”, soou-me bem a frase... e detive-me, “e todas nós de lá viemos...”, disse ela divertida.
Quase sempre, tecemos um rodopio de dúvidas, antes que as coisas aconteçam, e, afinal, estamos em casa, ou tão perto dela...
No fim de contas, New York, New York... parecia soberba, portentosa, esmagadora, as elegantes Twin Towers a quererem desabar sobre nós, quando as mirávamos cá de baixo, mas tão graciosa que era a bela cidade, que falava, também, a deliciosa língua da Camões – a city to remember.