20 abril 2006

Brasil adentro cantando II

Depois do primeiro embate de que resultou, mais do que vivos, estarmos todos em forma – e isso muito teve a ver com a impetuosidade do grande Brasil, todo feito à imagem do seu gigantismo –, voltámos à estrada, rumo à imensa metrópole de cerca de dezoito milhões de almas que é São Paulo (aqui os números divergem, porque, há pouco tempo, eram dezasseis), mas, todos os dias, do grande sertão chega mais e mais gente, engrossando favelas de pobreza extrema, contrastando, num drama pungente, com a beleza dos condomínios, de grande arrojo arquitectónico, como a avenida Paulista e ruas adjacentes, ou o bairro da Tijuca no Rio de Janeiro.
No hotel onde nos instalou a eficiente organização, durante três dias (recordo com gosto as duas irmãs Martinha e Leonor – o pai das Furnas e a mãe da Ribeira Seca de Vila Franca), fui abordado por um garçon, que sabendo de sermos um coral, quis dizer-nos que era barítono – no Bel-canto, o seu coral – que, para além de música do folclore brasileiro, cantava também música erudita.
- E o que é que andam a cantar, agora? perguntei com alguma expectativa.
- A Missa da Coroação, de Mozart – respondeu-me com um brilho nos olhos, que só queria dizer do orgulho que sentia em também ser cantor.
O Cassiano, seu nome, quis saber da nossa gente, das nossa andanças, das nossas impressões. Contei-lhe que éramos, nos Açores, menos de cinquenta mil que a favela da Rocinha, no Rio, que conta trezentas mil almas de desgraça, e que, das cidades onde tínhamos actuado – Ribeirão Preto, Niterói, Rio de Janeiro e Barueri – o Rio era uma urbe de beleza ímpar, espraiando-se por entre morros de impressionante pujança rochosa, salpicados de vegetação luxuriante, dando a sensação de um mudo único, que a mão de Deus não quis repetir em mais outro lugar da Terra.
- É curioso, você apanhou direitinho o Rio – interveio o Cassiano deleitado – mas vou-te contar, eu nunca fui ao Rio – desabafou com a mesma ternura de brasileiro sentido, e quase deixava rolar uma lágrima naquele rosto redondo de mestiço; tinha vinte anos.
Embaraçado com a dura realidade, quis saber como era possível estar-se a seis horas, sem nunca lá ter ido.
- Aqui, no Brasil, você só tem duas condições: ou nasce pobre, ou nasce rico. Se nasce pobre, aí tem duas opções: ou nasce pobre rezando, rezando... ou, então, vira ladrão.
E se nasce rico? – perguntei ansioso pela outra face da moeda, que nunca tinira em sua vida.
- Aí, meu amigo, alguém já foi ladrão, com certeza.
Quedou-se sobre nós um silêncio de profunda amargura e eu, sem jeito, fiquei esperando uma saída. Para quê falar-lhe do Pão-de-Açucar e do Cristo redentor? Seria cruel. O Cassiano, então, num gesto de amizade pura, sacudiu o ambiente:
- Deixa para lá... – e risonho, com aquele seu coração no lugar certo, prosseguiu – estou fazendo, primeiro, um pé-de-meia para o casório e, quem sabe, logo mais, vou com a minha carinha, em lua-de-mel, à cidade maravilhosa.
E mais não disse. E que mais haveria para dizer? Que iríamos para o sul, para Santa Catarina? Não voltei a vê-lo, pois folgara no dia seguinte, segundo me disse o gerente do hotel. Melhor assim, comentei com os meus botões.
E, sempre cantando, abraçámos os nossos muitos irmãos na sua Casa de São Paulo, como também o tínhamos feito, em jeito de cortesia informal, na Casa do Rio.
Não cabe aqui a emoção que se viveu nessas noites, tão grande era o entusiasmo pela nossa música, que alguém disse que o vastíssimo Atlântico, que nos separava, era apenas um rio, e outro mais emocionado, que esse tal de Atlântico não passava de uma qualquer ribeira de São Miguel.
E fomos, depois de termos cantado em dois modernos teatros da grande São Paulo, outra vez, Brasil abaixo, em direcção ao Estado de Santa Catarina, com uma baixa de peso.
Quando tudo parecia corre sobre rodas – com auditórios e igrejas sempre cheios de gente exaltada pelos textos de grande nível estético desse excelente declamador, o Belarmino Ramos, textos estes estreitamente conotados com os nossos sons destas ilhas de bruma –, lá vai uma das nossas melhores rodas que racha e logo ali ficou o Aurélio, derreado da coluna, regressando de São Paulo à sua Califórnia, mas deixando o coração por empréstimo, até terminar a nossa viagem.
Para trás ficaram dezassete dias em que se misturaram emoções nunca experimentadas pelo nosso orfeão. Arrepios do muito caminho, ainda por percorrer, e ainda agora o Aurélio, e o professor Cabral também, eram exemplos vivos de muitas canseiras pela longa marcha.
Santa Catarina era o último compromisso artístico, e de peso. Para além das actuações na igreja da Comunidade de Santo António de Lisboa e na Universidade Federal de Santa Catarina, restava-nos a prova de fogo, na Catedral Metropolitana de Florianópolis. A Associação Pró Música, comemorando a suas bodas de prata, preparara, a rigor, o espectáculo Clássicos na Catedral, reservando ao nosso orfeão a honra de o encerar. Foi a maior ovação de sempre, com toda a assembleia de pé em bravo, bravo, bravíssimo, um delírio, que nos comoveu a todos
A cidade de Floriano, que lhe deu o nome, o general terrível, que sufocou, no final do século passado, uma revolta contra o despotismo do centralismo do Rio, apoiada pela Marinha, e alimentada por intelectuais de várias tendências – melhor república e regresso à Monarquia –, despediu-se com a nostalgia das suas raízes açorianas, de há duzentos e cinquenta anos, idos das ilhas em busca de melhor sorte.
Todos queriam dizer que o seu apelido era açoriano. Enfim, todos se sentiam na pequena Casa Açoriana, aliás bem patente em muitas habitações de Ribeirão da Ilha.
Curioso foi o comentário de alguém, que não recordo quem: nunca tantos açorianos vieram em tão numeroso grupo de uma só vez.
Do sertão, que tínhamos pela frente, todos estavam ansiosos pelos mais de três mil quilómetros que faltavam. E agora? Mas, mais uma vez, como a gesta de outra gente nossa, ressoou o Grito do Ipiranga, respondendo à chamada, do Lúcio e do Hermano, e, determinados, clamamos:
- Todos à Foz do Iguaçu!