18 abril 2006

OS AMIGOS SÃO ISTO, HENRIQUE

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo, vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Anthero de Quental
Há sempre um primeiro dia para se ter um amigo, como o sol que nasce em cada manhã. Começamos por abordá-lo, de alto abaixo, a ver se encontramos algo de comum, dizemo-nos coisas que parecem de somenos: às tantas, o Porto ainda ganha...; não sei... disso pouco entendo; tenho um fraco pelas gentes do campo; as lagoas, conheço-as todas; isso já não posso dizer a mesma coisa; a música chama-nos para a melhor das intimidades; e aí está o despontar de uma grande amizade.
Terá sido por aí, numa conversa de coisas aparentemente menores, a primeira vez que nos cruzámos. Parecia-me evidente que tinha acertado, em cheio, num amigo para o resto da vida – e não me enganei.
Diz-se que a apartação, o andar longe da vista. afrouxa a amizade, quase que apaga o elo da aliança, criada sem formalismos. Parece até que o é, que se extinguiu a chama bonita do apego e, em certa medida, não deixa mesmo de ser assim; mas se o é, certamente que se trata de uma convivência superficial, de alguém que se encontrou, e de quem, uma vez por outra, se sabe, se ouve qualquer coisa...
Contigo, Henrique – e isto toda a cidade o diz ainda –, a amizade começava a sua caminhada duradoira, logo ao primeiro dia. E celebrado o contrato da afeição, chegavas-te com aquele jeito muito teu, “vais ter um tempo para mim?”, e eu, da outra ponta da linha, “para ti, não há um tempo, mas todo o tempo do mundo!”, e logo aparecias, pois que o teu tempo era precioso, “é verdade, João, olha que é um dos meus melhores companheiros, podes crer”, gracejavas, quando me aparecias com aquele sorriso generoso, direi de excelsa bondade.
Mas que coisa era essa, que mistério havia dentro de ti, que arrostava contra todas as vicissitudes da vida? Sei que a tua força anímica vinha das andanças pelas belezas da vida, plantadas nos trilhos verdejantes da tua Ilha.
E sei que, se preciso fosse, eras homem para atravessar selvas, mares, areias do deserto, para estares mais perto daquele amigo, que há tempos não vias – eras uma pessoa rara, uma Coisa única.
É óbvio que o mundo gira à volta das coisas gostosas que semeamos, e que nos são queridas, aquelas que a mãe leva ao colo agasalhadas, mas quem te conheceu por dentro, Henrique, quem te desdobrou, como tu te oferecias aos amigos, não tem a menor dúvida sobre a envergadura com que construías a Amizade.
Olha, meu bom amigo, não se trata de cumprir apenas um civilidade, esta coisa de vir aqui, para o teu Correio, falar de ti, como se fora um mero preceito. Não; não fiz nenhuma jura, à tua beira, quando nos despedimos, para alardear conversas vãs, nada disso.
Sabes, Henrique, os amigos são isto; hoje, apetece-me visitar a tua alma, passar, contigo, um pouco do teu tempo.
Deves ter visto, já, aí por esses recantos celestiais, muitos dos amigos com quem te cruzaste, por cá. Se, de entre eles, te abeirares de Anthero, escuta-o, porque te dirá coisas bonitas, talvez estas...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!