19 abril 2006

Brasil adentro cantando

Brasil, grande Brasil, gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso, és para os teus filhos, mãe gentil, Pátria amada.
Ainda ouço os acordes do seu hino heróico, em ressonâncias de quem sente o seu país, erguendo, ao mais profundo do céu estrelado, o brado retumbante que conquistou, nas margens do Ipiranga, a liberdade, desafiando no teu seio o nosso peito a própria morte.
Com este estado de alma, fomos, outra vez, sertão adentro, bandeirantes da cultura açoriana, levando longe os seus sons mais autênticos, pelas vozes, já sem fronteiras, do orfeão Edmundo Machado de Oliveira.
Não fujo à tentação de recordar um diálogo entre dois adolescentes que passavam perto da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e depois o papo que batemos os três.
- Esse pessoal aí está vindo de Portugal, estão dizendo que todos eles são cantores.
- Mas tantos, cara?! Como é possível um negócio desses? Não vai bater certo, não. Olha, meu irmão, essa turma aí é muito mais que os Rolling Stone; vai virar a maior confusão, pode escrever.
- Vira essa boca para lá, qual confusão rapaz; isso aí é um coral; entendeu agora?
- Falou.
Aproximei-me deles e trocámos, por uns instantes, antes da actuação, impressões da nossa digressão artística, já que eles mostravam grande interesse.
- Chegaram quando, gente?
Contei-lhes que já estávamos há uma semana no Brasil, vindo directamente de Lisboa para São Paulo e, de lá, havíamos seguido para Ribeirão Preto, a convite do Rotary Club, actuando em três espectáculos.
- Que beleza! Imagina só, Ribeirão Preto... e eu que nunca lá fui.
- Aquilo lá é quente para valer - disse o outro que conhecia bem a cidade.
Referi que, apesar do tempo quente que ainda se fazia sentir nesta altura do ano, a hospitalidade e o carinho com que nos envolveram, fez do calor uma agradável oportunidade para sabermos uns dos outros e para logo darmos conta do grande coração do povo brasileiro, sempre sorrindo e pronto para tudo.
Falei-lhes do magnífico teatro Pedro II, consumído por um grande incêndio, e agora totalmente recuperado por uma Fundação que o dirige, suportada pela grande cervejeira Antárctica, uma obra que obedeceu ao que de mais moderno havia em tecnologia de som e segurança. No tecto, tinha sido concebida, por uma arquitecta japonesa, uma iluminação curiosa, dando a ilusão óptica de uma transparência celestial.
- É isso aí, vocês devem mesmo cantar benzinho.
A melhor resposta foi dizer-lhes que entrassem, porque os ingressos eram gratuitos e não iriam arrepender-se. Aliás, esclareci os meus novos amigos que a nossa visita ao Brasil tinha sido despoletada pela Prefeitura da cidade de Niterói, para participarmos na inauguração das festividades dos quinhentos anos da chegada dos portugueses à grande Pátria Brasileira, tendo a cerimónia oficial, com a presença de autoridades dos governos brasileiro e português, ocorrido na Fortaleza de Santa Cruz, onde executamos os respectivos hinos, acompanhados pela Orquestra Sinfónica Nacional da Universidade Federal Fluminense.
- Puxa a vida, está certo, agora estou sabendo que por toda a cidade estão bandeirolas, anunciando o evento. Dá para você vir tomar um chopinho antes desse negócio aí?
Não pude aceitar a generosidade daqueles adolescentes, apesar do calor sufocante que escaldava toda a nossa gente. Esclareci que, antes de actuarmos, tínhamos de preparar, convenientemente, as vozes para que tudo desse certo, como garantia de um bom espectáculo, que aliás foi dos melhores que tivemos em toda a nossa digressão, com uma plateia, calculada em mais de mil e quinhentas pessoas, que escutou e soube brindar o nosso melhor repertório açoriano, para além de fados e canções portuguesas, interpretadas pela excelente voz, de raro timbre, de Aurélio Machado Oliveira, irmão do nosso patrono, que se deslocou expressamente do Canadá, onde se encontra radicado, para complementar as nossas actuações, acompanhado à guitarra por José Pracana e à viola por João Machado.
- É isso mesmo, vida de artista também vira saco.
Depois do sucesso, que foi a actuação no grande auditório da Universidade, não voltei a encontrar os rapazes, pois, agora sim, estava mesmo disposto a aceitar o tal chopinho. Mas artista é mesmo assim; o maestro, o insaciável dr. José Rodrigues, convocou-nos para um breve ensaio preparatório para o concerto daquela noite, aproveitando a dinâmica da actuação que acabara em alta.Tive pena de não voltar a vê-los, porque queria dizer-lhes que a procissão ainda ia no adro, pelo muito que tínhamos de cantar por esse Brasil adentro.