Brasil adentro cantando III
Vinte dias passados, manhã cedo, pé na estrada, e no retrovisor, envolta na habitual neblina matinal, Florianópolis aconchegava-se nas nossas vivas emoções. Era visível que deixáramos, no genético sorriso brasileiro, a ternura das hortênsias, e no seu coração grande, a ardência das caldeiras, esse encanto de alma das Ilhas de Bruma; mas também a lembrança da marítima aventura, esse arrojo épico do Boi do Mar que o Zé Eduardo a todos contou, cantando. Éramos, de corpo inteiro e de papel passado, os verdadeiros sertanejos dos sons vívidos da Constelação Açórica, ombreando-se altiva, ao Cruzeiro do Sul.Tudo parecia, enfim, consumado. É que, depois do retumbante sucesso, na Catedral Metropolitana de Florianópolis, em que os quatro Corais, em apoteose, se juntaram para cantar o Hallelujah, de George Haendel, haveria, porventura, mais Brasil para nos ouvir? Claro que havia; e mais cantaríamos, porque é a cantar que a gente se reencontra e se revê no corpo uno - o nosso orfeão. Foi, então, que alguém do staff da direcção, dando as instruções próprias do dia, nos autocarros (eram dois), lembrou a última exibição, em Itajaí. A sua grande e bela Catedral, construída em 1945, fez questão de nos ouvir, a mando da sua Prefeitura, que tão bem nos recebeu. Os aplausos, à mistura com o aperto nas nossas gargantas, pela derradeira actuação em solo brasileiro, foram o grande testemunho do reconhecimento da nossa condição de ilhéus, gente de dar, mas só por dar, paladinos orgulhosos da nossa querida açorianidade.
De tanto cantar, quer espartilhados à frente do maestro, mais do que incansável, sempre insaciável – esse doutor de leis, que alguém disse ser o maestro mais exótico que jamais conhecera –, quer, descontraídos, em mimos musicais de retribuição a tanta generosidade, estava pela frente um outro mundo à nossa espera - o grande sertão - esse espaço imenso que nos esmagava, à medida que nele íamos penetrando. O deslumbramento, ante a superabundância da vegetação, em que o viço era o mote, estampado, ali mesmo, no mato em mil árvores, todas diferentes, era um quê de proeza que a Natureza parece até ter retirado dos quatro cantos do mundo, num desvaire caprichoso, para ali fazer o seu jardim preferido; eram acácias, palmeiras, coqueiros, eucaliptos, pinheiros, amendoeiras, um sem fim de espécies, enredadas em heras, que lhes davam constância, numa insistência inquebrantável de espírito de corpo; era uma amizade pura, logo ali, expressa no primeiro bouquet de samambaias e filodentros; uma paz, uma autêntica comunhão, como se tudo se fundisse num monstruoso cadinho - esse mato selvagem - saboreando, mesmo ao lado, num relaxamento só aos deuses permitido, a papaia, a manga, o abacaxi, a pitanga, o mamão, a acerola, a banana, o jamelão, eu sei lá que mais...
Brasil... que mais, Brasil?
Esquecer o mundo?! Recordar os filhos, o marido, a mulher, os pais, os amigos?... Brasil... meu companheiro de estrada, já não sei dos nossos; mas se ao menos existimos, Brasil, meu grande Brasil, deixa-nos ver o Iguaçu.
Perdidos a mais de mil quilómetros da costa, com dezoito horas de estrada, as vozes emudeceram, porque outras maravilhas se alevantavam, com eloquente soberba, aos nossos olhos. Diria um desconhecido que éramos apenas mais turistas. Mas não. O nosso silêncio era a maior sensação de alma de artistas que, mais do que aquilo que cantam, também sentem, num misto de rir e sofrer - que o digam o Urbano e a D. Ruth, que dor tamanha! -; e ali se quedaram para assistir, de varanda, ao maior espectáculo que o Criador, antes de descansar e como qualquer artista sempre insatisfeito, decidiu erguer - as Cataratas do Iguaçu.
"Meu Deus!..." - gritou dentro de mim uma voz que eu nunca ouvira antes. E, aos nossos, apenas divisava uns vultos, deambulando num pasmo nunca visto.
"Que aconteceu aqui?!" - interroguei-me quase aflito, ante o rugido das águas bravas, em queda aparatosa - e tantas eram - numa frente de quase três quilómetros. Só vulcões e terramotos poderiam ter rasgado, num rude ímpeto, as profundas entranhas, em parto quantas vezes milenar!
Chamei todas as razões do meu ser, para sossegar a minha alma, aprisionada pela paixão tresloucada da grande Mãe-Natureza. Aos poucos me acalmei e me senti como num santuário, onde as divindades eram outras: panteras e onças, jibóias e jararacas; sabiás, pintassilgos, curruíras e pardais, e mais e mais aves, num delírio de vozes, que só faltava a orquestra para os acompanhar. Ocorreu-me pedir ao François e ao Gregory, que só eles, exímios no acordeão e no violino, poderiam atrever-se ao convívio dos trinados. Em vão. Ninguém via ninguém.A paz terrena voltou, por fim, aos nossos olhos negros, ainda agora esgaziados. Sem mister, os nossos se fizeram, pela última vez, à estrada, para São Paulo, Lisboa e Ponta Delgada.

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