BRASIL, MEU COMPANHEIRO DE ESTRADA

Por que razão terá o Criador, ou alguém a Seu mando, parado mais de um dia no Brasil? É que, em outro lugar do mundo, jamais a natureza reuniu tanta beleza, nem tão-pouco algum poeta teve tanto para cantar.
Do Cristo Redentor, empoleirado no alto do Corcovado, ao mais recôndito lugarejo, aninhado no grande sertão, a impetuosidade do mato, amassado em tanto verde, como o das ilhas, era o remoque sempre constante; e, quando chegados ao terreiro dos deuses - em Iguaçu -, tivemos de conter a respiração, espantados com o rugido das águas bravas, despencando-se rocha abaixo, dir-se-ia que em quedas suicidas, tantas eram elas, que Deus parou e terá proclamado: VIDA À MORTE!
E eu, ainda inebriado com o Brado Divino, quedei-me a um canto, não sei se assustado, se perplexo, até que tudo se abriu aos meus sentidos, para abarcar a grande obra da Criação - as Cataratas do Iguaçu.
Mas nós - o orfeão - gente de têmpera antiga, forjados de basalto negro, irrompemos por esse Brasil adentro, para cantar as Ilhas de Bruma, porque ainda sinto os pés no terreiro, assente sobre vulcões e sacudido por terramotos - há quanto tempo - que os meus avós balhavam o pézinho.
E cantámos, cantámos, que nossas almas se fundiram com as dos nossos irmãos brasileiros, por Ribeirão Preto, Niterói, Rio de Janeiro, Barueri, São Paulo, Florianópolis e Itajaí, num corre-corre de mais de oito mil quilómetros.
Tantas canseiras, quais romeiros por terras sertanejas, fica-nos, ao menos, na memória o ter cantado nas Casas dos Açores do Rio e de São Paulo, e de termos, num abraço forte, levado os sons espelhados na dolência das ondas, enredadas da ardência das caldeiras.
Mas, se Niterói nos levou pela mão, até ao Brasil, para abrilhantarmos as comemorações dos quinhentos anos da chegada dos portuguesas a terras de Vera Cruz, também Ribeirão Preto nos quis dar o seu melhor teatro Pedro II, e São Paulo e Barueri fizeram questão de cantarmos em dois modernos teatros. Mas Florianópolis disse não; tinha um festival de coros à nossa espera e deu-nos a chave para o encerrarmos, numa verdadeira apoteose.
Foi lá, nessa cidade onde os nossos, há duzentos e cinquenta anos, lá chegaram, que todos queriam dizer da sua origem das famosas Ilhas de Bruma.
E de lá, deram o alarme para Itajaí, que nos bloqueou a estrada para nos fazer entrar na sua grande Catedral e, aí sim, o Belarmino subiu ao púlpito para gravar, qual ferro em brasa, o nosso melhor sentir de olhos negros que, de chorar, fizeram covas no chão.
Vinte e tal dias tisnados por um sol ainda adusto, e era tempo de dizermos: havemos de voltar, aliás uma condição para deixar o Brasil, meu companheiro de estrada.

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