SAUDADES DO BRASIL EM PORTUGAL
Aquela senhora que, na companhia do marido, se apressava a tomar a barca no caminho de Niterói para o Rio, ouve o orfeão Edmundo Machado Oliveira, no Bay Market, cantando o refrão Coimbra tem mais encantos na hora da despedida... e lhe diz - "desculpa, meu amor, eu cá fico por aqui; não fica triste, não, vai andando, tá" -, e ele se foi... era a razão de ser da nossa deslocação ao Brasil. A sua avó era - que grande coincidência! - dessa cidade d'o Hilário disse um dia, ninguém mais será formado, quando a velha academia deixar de cantar o fado. É claro; tinha de lavar o coração nas águas do Mondego.Se levámos as melhores canções portuguesas, decantadas pela voz do Aurélio, ou o mais genuíno do folclore açoriano, na serenata já está entrando à porta, numa harmonia que só os Furnenses souberam saborear num passado cheio de graça e beleza, foi como que arrancar, das rochas das Ilhas de Bruma, um grande bocado de nós e, de presente, dar de coração aberto a todos por igual, para, de volta, receber um largo sorriso, como se flores fossem em cachoeira.
O Brasil foi esse grande companheiro de estrada e, como bom camarada que é, deu-nos a conhecer outros companheiros, todos jóias, e logo o primeiro a agarrar-nos, ainda em Portugal, foi o Dr. Arídio Martins e a Cristina, que não largaram nunca o nosso pé, no Cristo Redentor, no Pão-de-Açucar, nos concertos e mais a cortesia da Casa dos Açores, do Rio, e até, no final da visita, lá estavam eles, em São Paulo. Que saco!
E todos os outros fizeram questão de forçar a barra; e vai daí, no primeiro dia desse mato que nos cavou fundo a alma, em Ribeirão Preto, o Dr. José Laguna e o José Infante nos brindaram, pela mão da Tereza, com um coral de meninos, que cantaram só para nós. Que bonito! Mas nós, todos vaidosos, no belo teatro Pedro II, respondemos ao desafio, e, gostosamente, ouvimos à saída, "estou encantada" e outro, "tudo tão lindo"; e tão lindo foi que o Dr. José Laguna lembrou, via fax, que se "estabeleceu um vínculo de bem-querer entre nossos povos, construindo uma sólida ponte de amizade entre os Açores e o Brasil, de Portugal a Ribeirão Preto".
De mão em mão, lá estava em São Paulo o Dr. Manuel António Ramos, com a Martinha e a mana Leonor, a receber, num grande abraço, um bom punhado de gente cansada do pó da estrada. Não quiseram fazer por menos - 5 estrelas de alojamento. E que bom foi o repouso dos heróis... Levaram-nos, então, a cantar em dois teatros e, depois, mergulharam-nos no coração da nossa diáspora - a Casa dos Açores. Aí, estávamos de volta a casa e está tudo dito.
Mas o brado ouviu-se longe, mesmo muito longe, ecoou na ilha de Santa Catarina e logo apareceram outros companheiros, o professor doutor Nereu do Vale Pereira e o maestro Teixeira da Rosa. Logo no primeiro almoço, um estudante, à entrada do refeitório da Universidade Federal, me disse: "se esgaravatarem a terra aí, vão encontrar as vossas e nossas raízes". Brasil, assim, é muito mais lindo, apeteceu-me dizer-lhe. Virei-me para o professor, "explique-me, a que se deve esse sorriso dos brasileiros, que sempre nos acompanha desde Ribeirão Preto?", "isso aí, meu amigo, é genético", foi a resposta sábia. Era, assim mesmo, o nosso bom irmão; e dissemos-lhe, em recado do nosso Presidente do Governo, "cinco séculos de História deram-nos um passado comum, uma língua comum, e um património perdurável no futuro, porque bem arraigado nas nossas vivências e na nossa afectividade". Mas ele, o maestro catarinense, na volta do correio, ou o tal de fax, diz assim, "saudamos em nome do Instituto Histórico e Geográfico, os 105 açorianos ... trazendo música em seus instrumentos e em suas vozes, cantigas, que por certo, os primeiros imigrantes também as executaram e entoaram".
Na Catedral Metropolitana de Florianópolis, estavam três corais à nossa espera para lhes fecharmos a porta do seu concerto Clássicos na Catedral, e o público, sempre o grande juiz, não arredava pé, bravo, bravo, bravíssimo, e com todos os corais, em apoteose, cantámos o Hallelujia de Haendel.
Tão eloquente foi esse Finale, que, em Itajaí, ainda ressoavam esses sons maravilhosos, e depois de um breve descanso, mais uma vez, no melhor quarto da cidade, estávamos perfilados, na sua bela Catedral, encerrando a nossa digressão artística. Tão curta a vida para tão grande tarefa, "vocês conseguiram escrever nos nossos corações o capítulo mais bonito da História da Imigração", assim o disse, via fax, o Dr. Mauro Machado.
Mas mais Brasil estava pela frente - o grande sertão - esse mato que cantei, rezei e chorei. Parecia que ainda se podia ouvir o índio, "é por aí, sim". E era, de facto, a longa marcha para Iguaçu, a sentir, mais que ver, a mão de Deus: fica por aí, estás perto do Paraíso.
Fica-nos a sensação, por aquilo que temos ouvido e lido nos jornais e revistas, de que o Orfeão Edmundo Machado de Oliveira permaneceria dois, três, quatro meses, por terras do Brasil, tal foi o bom acolhimento que teve. E não me reporto apenas ao coração da diáspora, nas Casas dos Açores, no Rio e em São Paulo. Foi o Brasil, por onde passaram, em mais de 8 mil km., que vibrou com os sons destas Ilhas de Bruma, embalados na dolência das ondas, como aquela senhora que, a passar no Bay Market, onde actuava o Orfeão ao ar livre, em Niterói, indo a caminho do Rio, diz para o marido, "olha, amor, eu cá fico-me por aqui, não faça essa carinha triste, não, tá?", e ele se foi...
Hoje, do sertão, esse grande companheiro de estrada, restam as melhores saudades do Brasil em Portugal, e o orfeão ainda se recorda deles, dos que os ouviram, "estou encantada, cantaram mesmo benzinho...", e um outro cavalheiro, "tão lindo, foi tudo bom!".
Quem, de nós e vós, pode esquecer um amigo, uma qualquer pessoa que nos ouve com agrado, uma terra hospitaleira, que teve sempre um sorriso estampado no rosto? É, por isso, que as saudades moram, sempre ao nosso e vosso lado, e são elas, precisamente, que levam o Orfeão bem longe, cantando a ardência das caldeiras e em mimos de rara beleza a ternura das hortênsias, bem espelhadas na doçura das lagoas.

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