06 maio 2006

SÃO SORTES...

Há hábitos que nunca mais se perdem, são companheiros nossos que muito estimamos, e, satisfeitos, acarretamos, pela vida fora, toda a sua carga emotiva, como se fossem pedaços de nós; e eu pergunto, meus amigos, se não são mesmo pertença nossa? Julgo que sim.
Será por isso esta afeição muito especial que tenho a tudo o que me vem parar às mãos: seja um panfleto, que me cai na caixa do correio, que leio e releio, antes de o deitar fora; seja a despesa de um pertence para a casa, que fica uns tempos na gaveta; seja, enfim, um parafuso, uma porca, meia dúzia de pregos, que restaram de um conserto, que podem dar jeito para outra ocasião. Olhem, tudo guardo, para, de tempos a tempos, numa limpeza geral, ir quase toda a mixórdia para o rol do esquecimento e, só depois, merecer aquele destino fatal – o lixo, e, mesmo assim, com pena.
Com isto, não estou a aliciar ninguém para fazer parte desta maluqueira de guardar toda a sorte de ninharias; apenas são desabafos meus, que gosto de partilhar com os amigos.
Eu nasci assim, eu cresci assim, eu vou ser sempre assim, como a Gabriela, do Jorge Amado – está escrito...
E, reparem, quem sai aos seus, fica-lhe muito bem conservar a sua memória – acima a tradição, como cantava o Anthony Quin em Zorba, o Grego, lembram-se?
Como podia eu não sair à minha mãe, que me guardou os canudos louros na tal caixa de sabonetes “Violeta”, de que, há tempos, vos falei? Sabe mesmo bem quando seguimos as pisadas dos nossos, sentimo-nos mais perto deles.
Diria que não há maior gosto na vida do que sermos igualzinhos a nós próprios, com aquela marca indelével do sangue, e nunca aparentar meros decalques de uma qualquer figura de proa. É tão bom não termos de nos submeter a regras que não se ajustam ao nosso jeito de ser.
Deixemos correr o marfim, com aquela cor de alabastro antigo, que lhe fica tão bem. As pequenas coisas, tal como elas são, assim simples, maneirinhas, têm aquela candura de um primeiro amor, um quê muito característico, que se agarra a nós só por uma questão de bem-querer.
Portanto, estamos entendidos, cada um faça como quiser, desde que se veja sempre ao espelho e guarde o melhor que tenha, para, um belo dia, deixar-se seduzir por um qualquer papel velho, ou, de outro modo, poder fruir o ensejo de uma surpresa, e, se boa, tanto melhor.
Contas feitas e acertadas, vamos, então, ao que trago hoje na manga.
Pois, estava eu no bem-bom da Madeira, já lá vão quase trinta anos, tentando a minha sorte nas máquinas de moedas do Casino, quando uma carrada delas – um jakpot – caiu só para mim. Feliz, e com a prudência dando ordem de parar, fui trocar o talão por notas do banco, que o empregado mas entregou dentro de um envelope, e que eu guardei no casaco.
Era o último dia daquela semana de férias no hotel Girassol. Casaco para dentro da mala, mala para dentro do taxi e a Madeira a perder-se, rapidamente, das nossas vistas, com o avião a desembaraçar-se das nuvens, e logo o sol a raiar bem no pino do meio dia.
Chegados a casa, todas as atenções foram para o nosso menino de colo, mimos para a família, e roupa para o guarda-fatos. Estava feita a festa, férias acabadas, o trabalho à nossa espera e o casaco esperando a sua sorte do Verão seguinte. Tal e qual.
Os Santos e o Natal, a Páscoa e o Senhor Santo Cristo eram festas de outros agasalhos, que não aquele casaco leve, desforrado.
Um ano depois, o casaco bege foi despertado da longa soneca, e – imaginem o meu espanto –, quando dei pelo tal envelope com o timbre do Casino da Madeira, “é o dinheiro do jakpot!”, gritei, e fomos comemorar em grande.
Foi como se, num repente, tivesse tornado atrás um ano, voltasse a escorregar nos carrinhos do Monte e, para pasmo dos presentes, aterrasse bem no meio do Casino, para reviver o som das alegres campainhas, anunciando o “jakpot”.
São sortes... lá isso são...

05 maio 2006

À TERRA AONDE FORES TER

“Num país tão seco e caótico,
a linguagem quebra-se contra altas vedações e barreiras”

Maria Gabriela Llansol

Exactamente isso; é como vos digo, não vale a pena ignorar, cumpram esse ditado, escrupulosamente, “faz como vires fazer”, dizia o saudoso padre Rebelo, nas suas apreciadas aulas de Moral, ele que agora é, há três anos, um bom vizinho de memórias.
E entre a bondade da sua palavra e os desígnios de Deus, que tanto sublimava, metia uma pequena história, certamente para nos cativar – a do ovo e da galinha – porventura a mais badalada pela rapaziada, um ou outro episódio rocambolesco, enfim, muita coisa tinha o professor para contar.
As histórias de reis, e outras figuras graúdas da cena mundial, faziam as suas delícias. Recordava ao pormenor, como se a tivesse presenciado, a visita régia de D. Carlos, “ a rainha D. Amélia era mais alta do que o rei...”, gracejava.
E descrevia uma digressão que o rei Eduardo VII, muito viajado pelo império britânico, fizera por terras africanas, “era um soberano afável, elegante, um grande desportista, enquanto príncipe de Gales...”, e aclarava melhor o pormenor do estatuto de príncipe, não fossemos nós pensar que o monarca apenas se ocupava dos assuntos atléticos.
Ora, a história referia-se a um festim, oferecido por um alto dignatário dos seus domínios. Banqueteavam-se as criaturas com as melhores iguarias, “e quando chegou a hora da galinha, toca o régulo e seus seguidores, de atirar os ossos para trás...”, logo apanhados pela inúmera criadagem em redor.
Incrédulos com o insólito, ”ó senhor padre, isso é mesmo verdade?”, perguntava alguém na sala, ”sim, sim”, asseverava ele, como se fora um dos convivas presentes na boda.
Bem, uma coisa assim, quantas vezes excêntrica, acrescida do exotismo da batucada, fez sua Alteza pensar duas vezes, “o rei olhou à volta, desfez-se dos pruridos da corte, a muitos dias de viagem dali, e arremessou a ossada...”, pelo que foi muito aplaudido pelos circunstantes, isso contava o mestre, sempre bem informado. E assim fiquei a conhecer quem dera o nome ao famoso parque da Capital.
O presbítero – estou a vê-lo a caminho do Liceu – de riso fácil, barriguinha cheia, o passo miudinho, ligeiro, rematou a cena, algo caricata, “pois é, meus amiguinhos, à terra aonde fores ter...”, e mais uma aula chegava ao fim.
Muitos anos depois, e bem arredado dos domínios de sua majestade, digamos que aqui entre portas, porque, nas distâncias comparadas, podemos dizer que a ilha de Jesus é duas ruas aqui ao lado – ali para as bandas dos poentes de Anthero –, o incrível tinha de acontecer.
A nossa irmã Terceira, catita, vaporosa que é, de lilás vestida, parece ter, eternamente, umas contas a acertar com a mana mais velha, com aqueles amuos que lhe dá, de vez em quando, e que vêm, é o que dizem, ainda dos tempos de escola...
Andava o meu bom irmão Victor, sequioso pela soleira de uma tourada à corda, e que tal uma loirinha? entrou numa tasca da Silveira, “uma Melo-Abreu, por favor”, esperando ser servido, prontamente; não era ele um forasteiro, a quem se devia dar melhor atenção?
Isso é que era bom... Se sede tinha, ficou ainda mais seco com a resposta pronta do tasqueiro, “uma Melo-Abreu? vai beber essa coisa para a tua terra”, e ponto final.
Mas o meu irmão, tentando afogar a sede, entre tábuas, e ensaiando um sotaque rabo-torto, “ó homem, dê-me de outra marca”, e o taberneiro, tipo gado bravo, investiu, ”já te disse, vai para a tua terra, aqui não tomas cerveja nenhuma”, e ponto final, parágrafo.
Vejamos o que dizem os antigos: antes um mau ano do que um mau vizinho e é verdade. Virou ele costas aos impropérios do rezingão, entrou na tasca em frente, afinou uma voz simpática, que a sede era já muita, “uma cerveja, por favor”, o bem-humorado bodegueiro, animado com a festa brava, e melhor, com a tasca cheia, “sai uma imperial para este nosso São-Miguel!”, e assentou a mão gorducha no ombro do meu saudoso irmão Victor.
Em boa verdade, nos dizeres de D. Gabriela, “num país tão seco e caótico, a linguagem quebra-se contra altas vedações e barreiras”, e digam lá se o bom padre Rebelo não tinha, também, razão, “à terra, aonde fores ter, faz como vires fazer” – nem mais...

04 maio 2006

A esfíngica figura do senhor Pedrinho

Já há muito tempo que tenho este apontamento de lado, e chegou a hora de espairecer essa bendita alma do senhor Pedrinho. É uma coisa é outra, vai uma fala disto outra daquilo, e o borrão amarrotado, aqui no computer, parecia não querer sair do casulo.
E, hoje sim, o enrugado vai ter o apreço da serventia; está decidido, vou dar um abanão a esse sujeito, que não conheci – a esfíngica figura do senhor Pedrinho.
Ora, essa enigmática criatura, natural de Santo António, muito para cá do Nordeste, digamos que um pouco além das Capelas, e antes da Bretanha dos Capetos – desculpem-me os de cá, mas tenho que situar uns leitores do Pico e de São Jorge –, fez as mentes amedrontadas do meu saudoso irmão Victor e da mulher.
E logo no primeiro dia de escola, em 1960, “ai senhor professor, dizem que o senhor Pedrinho aparece... naquele casarão, onde os senhores estão assistindo, lá pela noite fora...”, prevenia a contínua, ansiosa por mostrar algum cuidado com o novato casal.
E uns diziam que o sibilino se metia na dispensa, para comer do que lá havia, “se assim é, senhora professora, ele é um grandíssimo confiado...”, insistia ela, ingenuamente, fechando, ao fim do dia, as janelas da sala de aula.
Outros, que os há, julgando-se mais advertidos, neste mister de almas do outro mundo, “não, senhor professor, o que a minha bendita mãe nos dizia é que ele se enfiava no quarto de dormir dos netos”.
E o vizinho, meio perturbado, já se vê, “que isto me custa a crer, mas é o que se dizia no tempo”, e a minha cunhada, ao lado, ria-se, de amarelo, “no meu quarto de cama, credo!”, pois, às tantas, o homenzinho, se calhar, sentia-se desconsolado, e que tal o conchego dos cobertores quentes, que a tumba era mesmo regelada...
Quer na dispensa, quer no quarto de dormir, o senhor Pedrinho jamais molestou os novos inquilinos. E o meu irmão, na primeira visita que lhe fizemos, caçoando daqueles dizeres, “até aqui, o fabiano tem sido uma pessoa acomodada”, e, se se passeava pela casa, subindo escadas até ao torreão, nunca ele se topou com a esfíngica personagem, tão-pouco a bondosa minha cunhada deu por falta de bolachas na dispensa, se bem que andasse de olho nele....
Mas o casarão, sendo enorme – só a cozinha dava para se jogar à cabra-cega –, deixava-se atravessar, nos seus sete quartos, por muitas dúvidas, e não era para menos.
E há sempre um dia que as coisas se toldam, “menina Teresinha, eu quero voltar para a Vila”, implorou a empregada, que dormia no torreão, "ó rapariga, e tu ainda acreditas nisso...”, sossegou minha cunhada.
Uns tempos depois, pareciam as coisas mais dormentes, a Maria do Rosário resolvera ficar, e o senhor Pedrinho, em boa verdade, não parecia mais do que uma figura imaginária – melhor assim.
As contínuas da escola e algum vizinho, mais atento ao carpir de fantasmas, querendo fazer crer que a casa era mesmo assombrada, ainda tentaram a sua sorte, mas ficaram-se por isso mesmo, que os rendeiros da casa solarenga queriam mesmo era descanso.
O Inverno acabara desandando, mal-humorado, para outras bandas, a costa recortada vestia-se dos melhores verdes, a Primavera trazia um arejo bem gracioso e a minha cunhada, “às vezes, Victor, eu via o senhor Pedrinho, um homem magro, alto, de chapéu...”, e, pasme-se, em cima da cómoda...
Bem, valente, valente, era mesmo o cão de guarda da nossa casa, porque o meu irmão, com o astral ainda em dúvidas, “nunca te quis dizer nada, mas também mirava, naquelas noites de invernia, um homem baixote, redondo, mas sem chapéu...”, e, imaginem só, em cima do guarda-fatos...
Mas há sempre uma explicação para tudo. A alucinação da minha cunhada pendia para a sua gente, já que o pai era tal e qual – alto e seco – mas bondoso. A assombração, que o meu irmão descortinava, empoleirado no guarda-fatos, era a estampa chapada de meu pai, um rente-ao-chão, sempre desejoso por histórias do arco-da-velha.
A casa ainda lá está, altiva, afrontando o casario baixo, que lhe fica fronteiro. Se por lá ainda se passeiam figurões apocalípticos, a acertar contas antigas, um testamento dos diabos, de entre eles, certamente, o senhor Pedrinho é o primeiro da frente, na fileira das misteriosas criaturas, que assombraram alguns desprevenidos – e não só – da ridente terra de Santo António.
Mesmo assim, os meus geraram lá o primeiro filho...

03 maio 2006

OS DIZERES DE UM ARTISTA

“A vida não é o que cada um viveu,
mas o que recorda e como recorda para contá-la”

Garcia Marques

Não é todas as vezes que se vê um artista debruçar-se sobre a obra feita. E, quando fá-lo, toma as suas cautelas, não vá uma só palavra borrar a pintura.
Mas há os que, desabridamente, arrojam contra tudo e todos, na defesa daquilo que a sua real gana criou.
Conta-se que Miguel Ângelo, segundo dizia meu pai, algo alucinado com a escultura de Moisés, acabada de esculpir, desafiou a rocha trabalhada, num assomo de arrebatamento óbvio, e bradou, “fala Moisés, fala!”; ele, ébrio com os traços conseguidos, ante a rigidez estática do bloco intrépido, quedando-se num silêncio aterrador, que afrontava a ordem da alma do génio, atira-lhe o martelo à cara e quebra-lhe o nariz.
Outros há que, sempre inquietos no seu talento, depois de páginas brilhantes, vertidas em textos de rara beleza, deitam tudo a perder, rasgando, de alto a baixo, momentos altos de suas vidas.
Vida de artista é isso mesmo – é silêncio e escuridão – e nada mais; é um não caber em si de contente; é um não querer mais que bem querer; é ter de mil desejos o esplendor e não saber sequer que se deseja –, um caso muito sério...
E contou-me o meu amigo Norberto uns tais dizeres de um finório em artes muito nossas, um homem miudinho, o olhar penetrante, o pé descalço, dando alento, na prancha redonda, ao maior talento da Vila – o mestre José Batata.
E que dizeres eram, “eu já lhe conto”, e descreveu-me, com a minúcia de um bom contador de histórias, a cena, em que representavam duas pessoas: uma, vergada pelos mais de oitentas, viúva, o xaile preto a agasalhar-lhe o corpo curvado, os tamancos a matraquear na calçada, a voz sumida, “mestre José, boa tarde”, e a outra, o pé a dar a dar na roda, “ó tia Olinda, vai entrando, vai entrando”, e a pegada do mestre José Batata a dar a dar, que o dia já não é grande, não senhor, “a hora já mudou, tia Olinda”, e os dois ficaram-se em considerandos de ocasião, “esta coisa, da hora mudar, mexe comigo, mestre José”, e ele, apenas a consolou, “pois é, tia Olinda”.
E a tia Olinda, cansada da jornada, que a trouxera das bandas do Baixio, senta-se numa banca, deitando sentido nos dedos do mestre José Batata, ele que amacia a massa informe do barro húmido, “isso ainda dá o seu trabalho, mestre José”, e o pé do oleiro quedou-se, “ora se dá, tia Olinda”, e deu uma cuspidela para o chão terreiro.
Estava eu deveras agradado com a narração dos pormenores, “engraçadíssimo”, e o meu amigo Norberto, “pois, pois, estou a ver o mestre José com aquele seu jeito muito próprio...”, a contar o sucedido.
A mulher do Baixio, a tia Olinda, cerimoniosa, “queria um bacio, mestre José”, para as necessidades das noites compridas de Inverno, “estão ali, escolhe um daqueles, tia Olinda”, e a viúva deitou a mão a um, que enfiou numa saca de fardo, “vai aqui debaixo do xaile, que eu tenho vergonha de o levar assim à pamparela”.
Bem, aqui o oleiro, não vislumbrando razões de tais vergonhas, disparou resoluto, sem receios de borrar a sua obra, “tia Olinda, tira-me esse penico dessa saca que eu quero ter uma conversa com ele, antes dele se ir embora daqui”, deu mais uma cuspidela para a ilharga, ajeitou o boné na cabeça, e prosseguiu irónico, que só a alma de artista concebe, “penico, ouve meu amigo, se esta mulher de ti tem vergonha, como será, então, quando ela se sentar em cima de ti, e tu, por baixo, avistares as vergonhas dela?”.
“Ai tal mestre José...”, e a tia Olinda, com o penico bem agasalhado das bocas do mundo, se foi com os tamancos a burilar a calçada.
Então, o meu amigo Norberto, segurando o guarda-chuva, nós que saíamos de um concerto de dois saxofones – um evento raro –, na Câmara, vendo a minha satisfação, completou sorridente, “isto foi tal e qual como ele me contou”.
E não resisti a uma boa gargalhada, afiançando-lhe, “essa é uma história, que deveria merecer honras de escrita”, já que “a vida não é o que cada um viveu, mas o que recorda e como recorda para contá-la”.

01 maio 2006

UM CASO DE POLÍCIA

"Não há certeza alguma neste mundo
e tanto basta para dar alforria ao espírito humano"

Ricardo Jorge
Um amigo que se preza é aquele que nos deita a mão à porta e, sem pedir licença, nos faz um reparo, “mesmo no meio de um desgosto, lá encontras uma razão para escrever”.
Bem, lá por isso, e por se ter perdido a única andorinha do ninho, a gente, comigo nesse baralho, não deixa de falar de qualquer coisa – melhor assim, cuido eu.
Por conseguinte, os meus, que ainda agora se foram – como se um grande paquete, numa viagem de excelsa beleza, atravessando o mundo dos sonhos, os levasse para o imenso Reino do porvir –, estariam comigo na leitura destes escritos, como gostosamente o faziam – o sangue sempre nos puxou muito.
Como ainda havia uns restos de festa por aí, o meu sobrinho – o tal quarentão, a contas só consigo, que a vida, assim, tão bem lhe sabe –, no melhor de um destes serões, a cavaqueira, contava-me, “esta é de bradar aos céus, padrinho”, e naquele seu jeito de tudo bem, poucas ondas é o seu forte, uma singeleza amena, “sempre há cada uma...”, e o gesto a compasso, a expressão risonha, o meneio característico, enfeitavam-lhe o ramalhete da arte de dizer.
E vai daí que um militar da Base das Lajes, dos States, à paisana, abastecia a sua viatura numa estação de serviço, na Praia da Vitória. Tudo bem, não fora a pior das companhias – os copos que não seriam todos para ele.
Na euforia do mundo todo seu, “hands up!”, gracejou para um fulano, mãos ao alto... e ainda repisou, “this’s a holdup!”, estava disposto a assaltar-lhe, “your wallet!” – numa de bolsa ou vida...
A vítima, no seu melhor, revela-se numa calma aterradora, exibindo-lhe o crachá da “Judiciária”, e o americano, sempre na maior, saca do seu cartão de identidade, ”I’m Mike Smith”, como se fora um nome sonante da diplomacia americana, ornado de todas as imunidades do State Department.
No meio dos vapores de Verdelho, o policial agarra do telemóvel, e alerta a polícia americana, que vagueava nas redondezas, “an amarican fellow is leaving the gas station, in very bad conditions”, claro que a tentativa de assalto lhe parecera uma brincadeira, mas as más condições de condução não lhe deviam permitir ir muito mais além da estação de serviço – tinha de ser interceptado.
E num golpe de teatro de um autêntico James Bond, o cape Mike saca, também, do seu telemóvel e chama a companhia seguradora, “eh, fellows, my car has just got a pan, I need a truck, right now!”, o carro acabara de enguiçar, precisava de um reboque, imediatamente.
Algum tempo depois, o carro seguia empoleirado na carripana azul, e o nosso Mike, muito bem disposto, pudera, seguia à frente, junto com o condutor, “it’s a real pleasure going here, believe me”, para ele, era um prazer enorme viajar ali, podia crer o motorista.
Mais à frente, uma espera policial parecia querer saber da aventura do cape Mike, “eh fellows, I’m quite sure you need to find out what’s going on with me”, os amigos americanos precisariam de saber o que estava a acontecer com ele, disso tinha quase a certeza.
Era verdade, o cape Mike não estava, agora, em transgressão, somente alardeava a sua irreverência, nada mais – alcoolêmia, qual quê?
Viajava com um motorista assistente e os vapores eram só uma questão de tempo, “fellows, you may go back to the station, I’m going to Angra, O. K. ?”, os amigos corpulentos, uns sobrinhos remotos de Uncle Sam, que ele bem conhecia, podiam dar meia volta, porque a cidade património era o seu destino, e os compromissos eram inadiáveis.
E agora, de que certezas podemos falar neste mundo? O cape Mike, com as suas tropelias, acabara de dar alforria ao vagabundo espírito humano.
E o meu sobrinho, levantando-se para continuar na noite, ainda com o sorriso largo, consumava aquele extravagante caso de polícia, “é assim, os Américas quando exageram no Verdelho...”, e apenas acrescentei divertido, “sempre há cada uma...”.