15 abril 2006

APRIL ' 85

“Lexington avenue”, anunciei o meu destino ao homem de cabelo grisalho, do taxi amarelo, aninhando-me numa posição confortável, no banco traseiro, para uma viagem de cerca de uma hora.
O colossal carro arrancou devagar, pesadão, dando quase a sensação de que não se mexia na rua. Deixou o burburinho do movimentado aeroporto e ainda deu para avistar o bagageiro, um preto franzino, fardado de vermelho, talvez verificando se a nota era mesmo verdadeira...
Enquanto rolava e passava os primeiros semáforos, estendi o olhar, a ver se descortinava a silhueta esguia de algum arranha-céus, que me dissesse qualquer coisa da grande metrópole, mas nada. Apenas se me deparavam, nas ruas muito largas, por onde passávamos, as típicas casas de madeira, das cidades americanas, com alpendres a elas apegados e drive ways ajardinados.
Passada meia hora, desde que deixara o Kennedy airport, ia a perguntar-lhe se estávamos no caminho certo, não fosse aquele motorista, de certeza alguém de outras paragens bem distantes, levar-me para outra cidade das redondezas e hands up! Não obstante a probabilidade de um assalto, achei que não seria prudente – o taxi driver parecia boa praça.
Sabia que, nas grandes cidades, devemos dar mostras de conhecermos, mais ou menos, o sítio onde estamos, “that’s La Guardia airport”, deu ele o primeiro ar da sua graça, e eu acrescentei, como se fosse um expert em aviação comercial, “just for domestic flights, I think”. Certo ou errado era o que me tinham dito, cá na agência.
Num relance, ele olhou para trás, julgando-me talvez um espião de meia tigela, quem sabe de um país nórdico, para disfarçar... “where are you coming from?...”, indagou das minhas origens, num inglês mastigado de emigrante. Adivinhando-lhe as suas dúvidas, esclareci, “from Portugal”, e ele voltou a mirar-me pelo retrovisor, “oh... I thought you were sweedish...”.
Depois de lhe ter percebido alguma confiança no olhar, de que não era nem sueco, e muito menos espião, o nosso driver endireitou-se no volante, nitidamente mais descansado, e acrescentou, “I’m from Russia”.
Agora, tudo parecia melhor explicado. O homem parecia ter saltado a “Cortina de Ferro” e queria, obviamente, saber quem transportava no seu yellow cab. Às tantas, e tudo é possível, eu poderia muito bem ser um bufo da secreta russa, vasculhando o submundo nova-iorquino, para recambiar, à socapa, para o degredo das estepes siberianas, os desertores do tenebroso Leonidas Brejnev.
E não sendo, pelos vistos, um operacional do KGB e, tampouco, um agente da CIA, ficaram bem esclarecidos os meus planos de acção – era apenas mais um turista.
Bombardeei-o, então, com perguntas do país de Borodin e Tchaikovsky, “great music composers”, observou ele, orgulhoso dos seus maiores. Mais umas banalidades de viagem, atravessámos a imponente Washington bridge – um monumento ao ferro –, e New York erguia-se à minha frente, numa mole altiva e grandiosa.
Era quase meio-dia; o calor sufocante e a humidade elevada, roçando a saturação, não indicavam que era Abril, “it seems summer in April”, ironizei, e ele apensou, “it’s a crazy weather”, chegando ao fim da viagem de uma hora certinha.
Restava só saber para onde eu iria, se para o soviet consulate... ou para debaixo da ponte... “and now?”, perguntou ele, ao aproximar-se da esquina da Lexington avenue.
Subitamente, atrapalhei-me com a carteira que me acabara de cair da algibeira, no chão do taxi, e respondi-lhe, talvez de forma balbuciante, “Lexington hotel”.
Ele abrandou a marcha e encostou ao passeio, “look, the weather is realy crazy, but not me”, e que lhe daria pela cabeça para responder de forma tão azeda, ao dizer-me que estava de juízo perfeito? Um inesperado golpe hands up!. Em plena baixa? Não, não podia ser.
Bem, seja como for, em Roma sê romano, e in New York city, comporta-te as an american gentleman, pensei com algum receio, “what’s the matter, sir, something rong with the car?”. Algo parecia errado – ele ou eu? –, enquanto o taxímetro se encarregava de ajuntar mais uns cêntimos à dolorosa.
O russo pareceu acalmar-se e eu voltei à carga, naturalmente, “what’s the matter, sir, something rong with the car?”. Aliás, pouco mais tinha que fazer, senão manter a calma.
Foi então que me explicou a razão do seu azedume; que a minha resposta não podia ser Lexington avenue, porque já lá estávamos... “and now?”, insistiu mais cordato, e repeti-lhe o que já lhe tinha dito, “I’ve just told you – Lexington hotel”. Mesmo assim, “oh... pardom...”, esboçou um sorriso de quem parecia ter passado a noite inteira ao volante. Confusões desfeitas, o sorriso foi maior, quando acrescentei 3 dollars à avantajada conta da viagem.
E o pardo russo, apresentando-se agradecido, sumiu-se, entre um mar de yellow cabs, na grande avenida, disposto – quem sabe? –, outra vez, a saltar, com a dinheirosa, a tormentosa “Cortina de Ferro”, para assistir ao “Lago dos Cisnes”, no famoso teatro “Bolshoi”, naquele abafadiço April ’85.
Mas ainda há mais in the uncle Sam’s land...

14 abril 2006

CIDADE QUE ÉS MINHA


Nem mais, mal d’amores não tem cura.
Cidade, cidade, é mesmo esta, a nossa, aonde eu, e tantos outros como eu, aqui vieram parar.
Não é New York city, nem pouco mais ou menos. Não; não quer ser essa coisa grande, medonha, descomunal, não senhor. Quer ser ela própria, um burgo que os tempos, afectuosamente, vêm levedando, num labor de gerações, onde quase todos se conhecem, e que se dizem, uns aos outros, olá, bom-dia – e só isso lhe basta.
Ah... a primeira vez que vim à cidade... nem se pode imaginar a alegria que me inundou a alma, quando meu pai me disse, “já falei com o teu professor, amanhã, vais comigo”, e corri para ele a encher-lhe de beijos.
Quem é que dizia que eu adormecia logo à primeira, qual quê! Revirei-me umas quantas vezes a conceber as muitas voltas que o senhor Mariano – o chafeiro das viagens para a cidade – daria no guiador, metendo as mudanças para galgar o destemido Pisão.
E adormeci ao despachar e a cobrar os bilhetes aos passageiros para aquele ensaio de viagem, depois de engendrar mil manobras, antes do arranque; mas logo de seguida estremecia, na cama, com a camioneta a bater na primeira curva, à saída da Vila...
Bem, desempanado o calhambeque e compostos, mais ou menos, os guarda-lamas, entrei afortunado nas nuvens, e que nuvens! – estava mesmo feliz.
Envolto na primeira nuvem, com minha mãe a dizer-me adeus, da varanda, outra veio, menos favorável, e espreitei, de muito longe, que a camioneta partira o eixo. Meu Deus, e agora?... Nada de mais, que logo outra ali estava para nos levar – fervia o poder da fantasia.
À terceira nuvem, tinha de ser, acordei a meio da noite, num inquietante sobressalto. Tinha sonhado que perdêramos a camioneta da carreira da manhã, e levantei-me, “papá, papá”, estava plantado à sua beira, e ele, adivinhando-me a ânsia, sossegou-me aquela aflição, “ainda é de noite, filho, vá, vá dormir”, e afagou-me a cabeleira de caracóis revolta.
Enfiei-me na cama para retornar às voltas com uma viagem cheia de peripécias: a gasolina que se sumira do depósito, o motor que gripara nos areais de Água d’Alto, o senhor Mariano, que um malzinho lhe dera; enfim, tudo queria, à viva força, bater torto...
Logo a fortuna me disse: a cidade era o destino marcado, lá disso não havia que duvidar.
Manhã cedo, ainda o sol não dera sinal de si, já minha mãe se abeirava daquele menino ferrado no sono. Pudera, estava extenuado de tanto peregrinar por atabalhoadas encrencas.
Lavado com o sabonete das festas, estava asseado, vestia um calção de veludo, cinzento claro, uma blusa sedosa de um branco-sujo, ah, e calçado, que, não sendo domingo, era dia de sair da terra com os sapatos da primeira comunhão.
Quase duas horas depois, estávamos à Calheta, “papá, o mar está aqui tão perto”, e as casas da rua João Melo Abreu eram já outras, e o bulício do barracão, a azáfama das mercearias, das barracas e do talho, o bate-sola dos sapateiros – cheirava já a cidade.
Um pormenor curioso me chamou a atenção, quando a camioneta seguiu pela rua da Misericórdia, “aquela outra (a dos Mercadores), só dá para cá”, referiu meu pai como sendo algo importante – ainda hoje não mudou.
Saímos direitos à Matriz, caiada de amarelo, e assistimos ao resto da missa, “era o senhor padre Rebelo”, e meu pai tudo me dizia.
Com as pernas retesadas, depois de todo aquele tempo espartilhado, em pé e à frente de meu pai, na camioneta – não pagara bilhete –, parecia-me que os pés não queriam andar, “papá, olha o mar mesmo ali”, e ele levou-me até à Varanda de Pilatos, “papá, para que são estes arcos?”, e ele respondeu, a despachar que eram as portas da cidade.
Aquela de ele dizer que aqueles arcos eram mesmo portas, não se me enquadrou lá muito bem, “mas não têm portas de abrir, papá”. Ele ia a dizer qualquer coisa, e eu adiantei uma explicação para o facto, “se calhar foram a consertar...”, e ele, apertando-me a mão de satisfação, “talvez...”.
Quando peguei a amar-te, cidade, foi isto que aconteceu, quem te disse, meu amor, que eu te havera de largar...
Parabéns para ti menina, que te ajudei a crescer, a fazeres-te bonita, gentil, uma cidade que é minha; é minha, sim senhor.

13 abril 2006

UM RESTO DE COSTAS

Para dizer adeus aos meus caríssimos Costas, gente de peso, assim se julgam, que, às levas, se rebolam no bem-bom, compreendam os meus amigos leitores que eu cá tenho alguns deveres. Quem se mete nas bocas do mundo, tem que atender uns tantos preceitos.
Era aquela dama da nossa praça, pessoa de muitas contas, e bem feitas, coisa um pouco rara, bem se vê, – só para balançar com os atalhos esconsos das safadas contas do Orçamento de Estado –, a dizer-me “olá”; e a prezada senhora, num gesto de cortesia para comigo, “então, os nossos Costas, como é que vão?”, e eu abonei, “olhe, os Costas, essas benditas almas, julgo que estão todos bem”.
E ela, a Dona da arrumada computação, quer da sua, quer da dos outros, de sorriso meigo, “e fazendo o quê?”, e eu só tive que acrescentar, “os Costas, Dona Fátima, apenas se podem dar ao luxo de viajar...”, e arrumámos, nesse serão, as contas do Banco Alimentar.
Já agora, lembrem-se, do dar por dar, ao meritório Banco, não só os que sempre podem, mas aqueles que, sobretudo, pensam que os problemas da Fome lhes passa ao lado – dêem asas à generosidade.
Adiante. E na outra ponta do novelo da Vida, e repuxando o que resta do “Costa Mágica”, a estas horas, sacando mais uns trocados, quiçá os últimos, a um apaniguado teimoso da jogatina, o altaneiro palácio flutuante passeia-se, com a pompa e circunstância, no melhor do Mediterrâneo.
Na última etapa da viagem, entre Génova e Barcelona, sentou-se ao meu lado, no salão do Fred – o tal pianista, o Al Capone, chegado à pressa de Chicago –, um casal meia-idade, julgando eu que seria para a última noite de bem-bom, “where do you come from?”, quis saber daquele par simpático, “from TurKey”, apressou-se o marido, sorridente, ”our trip begins right here”.
E, assim, entendi que os Costas iniciam as suas viagens, em qualquer porto, que o paquete faça escala. Valeu a conversa com o casal da Anatólia.
Quando me cruzo com gente árabe, a primeira coisa que me ocorre é o semblante enquadrado numa cabeleira forte, o olhar profundo e o íntimo bigode.
Aferventei-me logo com o meu reparo, “I thought you were from another country...”, e ele interrogou-se, com notória satisfação, não fosse eu imaginá-lo um intelectual polaco, “why?”, e eu, com pena de o desiludir, “just because you have no mustach...”, e aqui o afável turco vestiu um sorriso amarelo, levando a mão à boca, e respondeu, “I’ve just cut it out”.
Rapar o bigode, porquê? Para mim, melhor é sê-lo do que parecê-lo, mas o otomano, de Istambul, tinha lá as suas razões, as tais que tantas vezes a própria razão desconhece...
Os Costas, pareceu-me, e o turco em particular, mostravam-se de tal sorte, como se aquele monstro dos mares, o elegante “Costa Mágica” saísse do estaleiro só para a elite daquela semana.
Maluqueiras dos tais passageiros sui generis, coisa pouca, é um facto; quem sabe uns resquícios dos atrasados sobreviventes de um serôdio espírito colonial, recheado de mordomias...
Não se aflijam que isso lhes passa – é fruta seca, não germina...

12 abril 2006

AI OS COSTAS

Não sei, nem nunca virei a sabê-lo, se aquilo que conto tem aquele tal acolhimento generalizado, uma coisa que nos sabe bem. Ou, em vez disso, paira, aqui e ali, uma indiferença fria, quase gélida, até mesmo um arrepio cortante, “olha este sujeito... outra vez...”, e adiante, que as peripécias da Casa Pia, isso sim, é que são assunto vivo.
E é verdade, isso nunca virei a descobrir, a menos que alguém se plante à minha frente, “meu caro, deixe-se dessas histórias e fale-nos das últimas contratações, para a próxima época” – arrenega, vá de retro!
Mas que posso dizer, então, daquele amigão dos bancos do Liceu, “tenho sempre muita coisa para dar a mão, ao Domingo, mas, mal recebo o jornal, vou logo à tua procura” – obrigado Clemente; ah, e aquele venerando presbítero, a guedelheira farta, alvacenta, que me recorta – salvo seja! – tal e qual como o meu querido amigo Henrique Martins, Deus o tenha – aos dois o meu puro reconhecimento.
Mas fico sem saber se o respeitável clérigo – zelador cioso da mais eminente Coisa sacra, que temos na cidade –, quando me esquarteja, me guarda nas modernices do congelador, ou, como no outro santo tempo, me desterra para as masmorras da salmoura...
Seja como for, pouco me importa o regelo do moderno combinado de duas portas, quiçá de uma reputada marca alemã, ou o degredo de outros tempos, lento, penoso, numa simples balsa de barro...
Bem, se me lerem, e me disserem, na rua, apenas olá, isso é coisa boa, é quanto me basta – e, a esses, sempre obrigado.
Estou eu para aqui a piscar o olho a este, àquele e ao outro, e os Costas, os meus heróis de uma semana em cheio, à espera que lhes dê um assopro sequer.
Pronto, valha-lhes o majestoso “Costa Mágica”, que sempre se desfez em atenções com todos, por igual. Os Costas entendem, e bem, que o tratamento VIP é coisa para repartir.
Afinal, quem é que não gosta de se passar por um pequeno príncipe das Arábias, sabendo que a coroa é de folheta, uma coisa de somenos? O estilo, mesmo que efémero, ainda carrega certas baterias gastas, que se supunha não aguentarem mais carga.
E deixei Palermo com pena de não me ter cruzado com um padrinho, “ó senhor Felismino, deixe-se disso, já é tempo de lavar as mãos de sangue inocente”, dir-lhe-ia, sem papas na língua, porque nós, fora de portas, somos possuídos daquela força anímica de querer dar um apertão nessa gente de esquemas tenebrosos – ah, isso são.
Eu cá tenho esses devaneios de, um dia, me dar a doida e pôr o mundo em ordem. Aliás, conheço um montão de amigos decididos nessa luta, e quase diria os nomes de todos, empenhados nessa utopia – o maravilhoso mundo novo.
Os Costas deixaram Palermo, quem sabe desapontados por não terem podido trancar, numa esquina escusa da monumental cidade, um desses padrinhos truculentos, cientes de que Roma, no dia seguinte, perdoaria a punição cruenta.
A augusta cidade, mostrando-se arredia desse castigo, essa sim, fazia alarde de memorar, em cada arco, as conquistas do seu vasto império.
A outra, a metrópole daquela que se diz albergar a grande Fé, essa não; encontrei-a empenhada em formalismos de primeira apanha. Onde já se viu, santo Deus, que o Altíssimo Se preocuparia que o Seu humilde servo, pudesse envergar uma tanga, como a de João Baptista?
Mas, então, como pode o sacrossanto Vaticano dar-se ao desplante de ter uns capangas, a expulsar, da grande Basílica, um pobretana, apenas porque a canícula requeria um arejo de pernas, para trajar uns shorts, ou o jeito que dava, a uma fervorosa Costa, uma refrescante t-shirt sem mangas.
E que falar da ostentação, da vaidade de uns tantos purpurinos em emoldurar o grande pescador de almas num reluzente deslumbramento, “não, não, eu não servi a Deus por essa causa”, diria o despretensioso patriarca, desajeitado no seu trono. Mas ainda deu para ouvi-lo, a vociferar para uns quejandos, já que o seu Senhor lhe parecia distante, “arranjem-me uma rede para pescar mais peixe, e não esta barca a meter água”.
Pedro, para quem o conheceu, como eu, naqueles tempos de Verdade, era um homem desabrido, ele que experimentou a terrível amargura da vacilação – “Senhor, nunca, mas nunca mais Te negarei”.
E o seu Deus, que por um pouco o viu arredado, tocou-lhe, que os meus olhos isso presenciarem, “Pedro, Pedro, mais dia, menos dia, corro com essa corja de acomodados, para bem longe deste fausto, e digo-te mais, isto já me vem incomodando”Que bem me soube este desabafo, meus amigos. Os Costas são gente de estilo.

11 abril 2006

UMA PAUSA NO BEM BOM

Vou prosseguir nessa saga, essa gesta graúda dos nossos dias, que se dedica, por inteiro, e com devotada paixão, à tão apregoada quietação, coisa nunca sonhada no tempo dos nossos – os de cá, está visto -, eles que levaram, até ao fim dos seus dias, uma vida dedicada ao trabalho áspero, um legado a que se sentiam na obrigação de dar continuidade – uma coisa antiga... dizem, do outro tempo...
Esse tempo, meus amigos, o tempo o levou e não é previsível que retorne, Deus queira que não; mas creiam-me, é uma lida que me tem dado que pensar.
Portanto, os Costas – essa criação da modernidade –, estão por aí, banqueteiam-se com folgança, mostram-se como gente respeitosa – e são-no –, revezam-se em quefazeres da sua laia, num desassossego tal, não vá o tempo escassear-lhes.
E eu, o outro, aquele e toda a gente integram o aficcionado clube dos Costas, sem tirar nem pôr. E estou certo, quem se for ver ao espelho, mesmo agora, tirar-me-á o chapéu...
Bem, agora um aparte, aquele que ousou chegar até aqui, tentando adivinhar-me a cogitação, sem passar adiante na página, é um Costa concentrado no debate de hoje – prazer em vê-lo.
Ora, não tem sido em vão que me venho debruçando sobre seja o que for, mesmo para contar um breve apontamento. Tem estado, sempre, subjacente algo mais para lá da lembrança.
Nunca pretendi ser paladino de coisa nenhuma; tão-só, contentei-me em partilhar uns borrões, amarrotados no tempo, que vou passando à forma final – a escrita.
E não fora aquele não-me-toques a demandar ao magrebino, de Tunis, um tapete de caxemira mais pequeno, e eu não voltava com mais estas ninharias.
Mas, já agora, lá vai. Ele, o amaciado sujeito, apressava-se a pedir-lhe, “oh, no; this is still large”, e, só depois de meia dúzia de mostras, se decidiu por um mísero rectângulo de 30x40, quiçá, para emoldurar, junto de outras relíquias dos seus arrebiques...
Ou ainda o tal tunisino, o olhar paciente, um descanso na fala mansa, cada vez que mostrava um tapete – e foram para aí uns trintas, no nosso turno –, dizia que dava sorte tocar-lhes, e os Costas, naquele antro misterioso, qual plateia à escuta do presságio de um vidente, se levantavam, não fosse, mesmo ali, a sorte tocar-lhes ao de leve, quando apalpassem a qualidade do pelo.
E ponto final no esfíngico Minarete, dominando, como é sua obrigação, a sossegada capital e a inescrutável ranchada de artesãos, entregues aos afazeres de gente empenhada no seu ganha-pão.
Como vêem, Tunis e as suas gentes, o ar bonançoso, circunspecto, tudo aquilo me tocou de perto. Poderiam os Costas passear-se pela intimidade do brumoso modo de ser de quem pretende que assim seja a sua forma de vida? Por isso, fiquei assim, assim...
Voltei para o bem-bom do “Costa Mágica”, e ensopei minhas dúvidas em mais um repasto de se lhe tirar o chapéu, com direito a desfile de decorosas travessas de iguarias, arraiadas de pirilampos de “parabéns a você”, e palmas para o maître d’hotel, que logo se mostrou, emproado por tanta arte amontoada.
Em boa verdade, não estava no meu dia forte. Dizem que, a meio de viagem, o cozimento tem dessas coisas – um estranho gosto a papel de música...
Acomodado, mas sem sono e inda acordado, dei comigo a matutar em tanto desperdício de Costas empanturrados. Num instante, acerquei-me dos magrebinos aninhados nas esteiras da sua sorte.
Estava com eles e sentia-me bem tê-los à minha beira, e tomei-os, então, como gente achegada. Deixei-me escorregar nestes vagares de boa vizinhança, e adormeci na paz dos anjos – é bom poder avistar Deus e Alá.
Mas qual quê? Num pouco, um pesadelo tomara conta de mim, e, sem defesa que me valesse, estava mergulhando, vertiginosamente, na escuridão de todos os decks, abaixo do meu.
Atordoado com a queda a pique, um cheiro pestilento esfervilhou-me as narinas ressequidas de ter que respirar pela boca. Arregalei as olheiras de espanto com o frenesi de uma descomunal porcalhada a chafurdar no bota-fora dos arrotos dos Costas.
Mas espanto dos espantos, lá estava o nosso senhor Costa, il Dulce, a dar uma ajuda, “quanto mais porco, mais toucinho...”, ironizou ele para a douta assembleia-geral de accionistas.
Refeito da importunação, Palermo e Roma estavam na calha, e o soberbo “Costa Mágica” fazia-se numa marcha pomposa dos da sua classe, determinado a abrir caminho num mar de azeite.
Nada mais prometo, vamos nesta onda.

10 abril 2006

A SAGA DOS COSTAS

E o prometido é mesmo merecido. Ai os Costas, num sobe e desce, enganando-se nos decks, mas que coisa...
Ora aí estão eles de volta com mais quefazeres...
No meu desvario de querer cruzar-me com o todo-poderoso – o nosso senhor Costa –, pus-me a vasculhar os cantos da casa do grande “Costa Mágica”, e, quem sabe, poderia até topá-lo, ele saindo devagar, de um dos vários elevadores panorâmicos, imperturbável, o ar enfático, eu que o achava um simpático siciliano, aí pelos setentas, o cabelo desfalcado, a cara boleada, adiposa, o olhar incisivo, e aquele ar de tudo dominar, com os polegares nos suspensórios, olhando em redor, pois julgava-o uma pessoa espampanante, querendo alardear, “gentes, eu sou o Dulce!”.
Mas nada, o homem andava como sumido. Subi e desci escadas atapetadas de motivos em verde; talvez o indivíduo quisesse saber como iam as coisas por estas bandas pouco franqueadas. Nada, mesmo nada de semelhante criatura se mostrava; que coisa...
Extenuado de tanta subideira, vi, sim, um casalinho de borrachos, bebericando amores felizes...
Disfarcei o olhar, mas dei com outros deboches, mais acima, e fingi execrá-los; mas, verdade, verdade, estava com eles... e ela, imaginei-a, mais do que ele, “ai, amor, esse Costa aí...”, e pareceu-me ouvi-lo, “deixa, meu amor, deixa para lá...”.
Mas, então, o nosso senhor Costa, onde poderia descortiná-lo? Ah, quem sabe na biblioteca – isso mesmo! E logo corri ao recatado lugar, “o homem, afinal, não é bem aquilo que...”, disparate meu, julgá-lo espaventoso. Entrei, pé ante pé, sem querer perturbar o ambiente de indelével intelectualidade.
Bem, não querendo afugentar a praga, salvo seja, lá estava o dito-cujo, que eu procurava; assemelhava-se a ele mesmo, “excuse me, you are Mr. Costa, il Dulce, aren’t you?”. Certo de ser ele a pessoa em causa, curvei-me, como quem estava a esmolar um desconto, de última hora, para a viagem dos meus.
E aquele ameno solitário, cortês, parecia querer apenas recambiar-me, “pardom...”. Mas não, o atencioso passageiro poisou o livro “vinte mil léguas submarinas”, sobre as pernas, afastou, com o vagar da idade, os óculos e contemplou-me com a ternura dos seus bons setentas, “no, my friend... I am from La Valeta, Malta”, e eu sorri, mas tinha que lhe dizer alguma coisa, “I was there, yesterday, it´s a very nice city”, claro que tinha apreciado a sua cidade, fazendo gala nos autocarros de outros tempos – umas relíquias – e pouco me enganara a seu respeito – o fulano não era siciliano, mas era na mesma latino.
Percebi-lhe que não se importaria de bater um papo. O livro bem poderia ficar para depois, e ficámos à conversa, o bastante para falar de Tunis, “a big confusion, my friend...”, e tinha alguma razão, se atendermos à sua idade de querer alguma bonança.
E contei-lhe a visita pelo enredo de lojecas, os artesãos a descontar, muito devagar, o tempo do seu tempo; pressas, para quê, nós é que tínhamos o tempo a fugir do tempo, “aqui, é um lugar de boas compras, gente séria”, assegurou o encanto da guia tunisina, num fluente espanhol, junto ao monumental Minarete.
E o franzino comerciante, um árabe paciente, o tempo todo num carreiro do seu lado, “today is my birthday...”, e palmas para quem, talvez, fazia anos todos os dias de cruzeiro – e que importava isso...
E, assim, frente a frente connosco, o enfezado tunisino, o bigode chapado, o olhar melengoso, um expert na arte de sedução pelo exotismo das colgaduras, num inglês requentado e muito à-vontade, “first, a coffee for all of you...”, enquanto o seu lugar-tenente desfilava, uma a uma, as maravilhas da tapeçaria local, tudo nuns vagares relaxantes.
Logo um avisado Costa se adiantou, impeticado, que os latinos não se deixam perder por falas mansas, não fosse o negócio ir parar a um outro Costinha atrevido, “I want this blue carpet, and that green, oh, and this big one, yes, all these three, O.k.?”, e o espertalhote magrebino depressa pediu uma salva de palmas para o primeiro e único cliente daquela leva de mirones chochos. Os Costas, os que ditaram as ordens de compra, saíam com o olhar sobranceiro – tinham dinheiro, ou um simples cartão de crédito?

09 abril 2006

LA DOLCE VITA

Quando eu poderia contar, praticamente um a um, os meus companheiros de viagem – entre alemães, sul-africanos, dinamarqueses e outras almas – todos sentados para o almoço, depenicando acepipes, para entrarem a direito no repasto do pequeno paquete da “Douro Azul”, regalando-se com a vastidão dos vinhedos, a perder de vista, Douro abaixo, logo me dei por achado que me iria enganar nas contas, ao chegar, meia-tarde, à gare marítima de Barcelona.
Aquele ajuntamento de centenas de forasteiros, visivelmente ansiosos como eu, remexiam-se, dando voltas e mais voltas, na expectativa, cuido eu, de ver soar a hora – de só o mar imenso lhes encher a alma.
Aliviado com as formalidades cumpridas ao balcão, não fosse a papelada ser para outra viagem, uma beldade espanhola, grandes olhos pretos, ancas torneadas, o corpo decoroso, lançou um olhar superior – não era ela a pessoa mais desejada? –, e, depois de se explicar em catalão, afinou num inglês académico, “attention please, all passengers with card one, follow me”, e todos quase se precipitaram para serem os primeiros, da sua série, a pôr o pé naquele gigante dos mares – o “Costa Mágica”.
Julgando eu que iria rondar os cantos da casa em pouco mais de nada, como em outros tempos o fizera no “Funchal”, cedo me apercebi da sua grandiosidade, e só se ouvia, “where is the restaurant?”, e uma graciosa filipina, redondinha, o olhar deleitoso, “down, deck three”, ou aquele casal, talvez suecos e, quem sabe, em lua-de-mel, já de chinelos, e querendo banhar-se, sem se importarem com as sopas avantajadas, “and the swimming pool?”, e uma voz napolitana, afável, apontou com o polegar, “up, deck nine”.
Digamos num aparte que, entre os pilares do Islão, está uma ida, a Meca, dos discípulos de Maomé, pelo menos uma vez na vida. No outro lado da barricada, um dos sustentáculos da modernidade é o consumo – está tudo bem, mas passemos adiante.
Ora, bem comido e melhor regado, e embalado ainda pela mole de gentes enfartadas, encaminhei-me para o enorme Teatro Urbino, e deliciei-me com o primeiro show da viagem – o estupendo matraquear do Flamenco.
Muito bem, entrara em cena a dolce vita de todos os Costas, a bordo do grande “Costa”. Ninguém poderia ficar indiferente a tanto frenesi de gentes, a meia nau, no deck five, onde fervilhava um rodopio de lojas, bingo, casino, uns quantos bares com música ao vivo; ninguém escapava àquele delírio – nem mesmo o comandante, deixando-se fotografar com os Costas...
Ao serão, deambulando pelos bares, acertei num, e apreciei o duo de piano e violino, saltando por valsas, polkas, tangos, mas logo terminou – que pena, disse para os meus.
Mas acto contínuo, porque a dolce vita dos Costas é mesmo melífera, um néctar de estontear, logo se achegou, para o piano de cauda, um genuíno Al Capone, mediana estatura, fato branco, chapéu escuro, uma pistola à cintura, que colocou sobre o tampo do piano, parecendo ter chegado, à pressa, de Chicago.
Encolhemos os ombros, “e este, hen?”, comentei. O insólito personagem agarrou o teclado e mostrou a sua arte, que era muita, “I am Fred”, e toca de imitar grandes ídolos – gostei mesmo.
A primeira noite ardera para os que apostaram no casino e no bingo, mas a sorte, se a houve, deu de caras com alguém a querer acreditar que iria multiplicá-la, voltando, outra vez, ao lugar do crime – o jogo.
Mas certo, certo, foi ver a sorte bandear-se para outro desatino, que o banqueiro nunca desarma e lá foi ela aninhar-se no sítio exacto, fazendo mais rico quem rico já é – ai que sortes...
No conchego da cabina, já a noite ia alta, imaginei o todo-poderoso Dulce, a puxar os cordelinhos daquela empresa armadora, talvez um siciliano, aí pelos setentas, o cabelo rareado, cara arredondada, rechonchuda, a pele esticada, os óculos na ponta do nariz, o olhar penetrante – era assim o nosso senhor Costa –, a comentar para a assembleia-geral de accionistas – meus senhores, pão e circo é o nosso melhor negócio... Prometo voltar com mais afazeres dos Costas, que muito deram que falar na sua peregrinação pelas piscinas, pelos bares, enganando-se nos decks, e outras tantas sortes da modernidade.