APRIL ' 85
“Lexington avenue”, anunciei o meu destino ao homem de cabelo grisalho, do taxi amarelo, aninhando-me numa posição confortável, no banco traseiro, para uma viagem de cerca de uma hora.O colossal carro arrancou devagar, pesadão, dando quase a sensação de que não se mexia na rua. Deixou o burburinho do movimentado aeroporto e ainda deu para avistar o bagageiro, um preto franzino, fardado de vermelho, talvez verificando se a nota era mesmo verdadeira...
Enquanto rolava e passava os primeiros semáforos, estendi o olhar, a ver se descortinava a silhueta esguia de algum arranha-céus, que me dissesse qualquer coisa da grande metrópole, mas nada. Apenas se me deparavam, nas ruas muito largas, por onde passávamos, as típicas casas de madeira, das cidades americanas, com alpendres a elas apegados e drive ways ajardinados.
Passada meia hora, desde que deixara o Kennedy airport, ia a perguntar-lhe se estávamos no caminho certo, não fosse aquele motorista, de certeza alguém de outras paragens bem distantes, levar-me para outra cidade das redondezas e hands up! Não obstante a probabilidade de um assalto, achei que não seria prudente – o taxi driver parecia boa praça.
Sabia que, nas grandes cidades, devemos dar mostras de conhecermos, mais ou menos, o sítio onde estamos, “that’s La Guardia airport”, deu ele o primeiro ar da sua graça, e eu acrescentei, como se fosse um expert em aviação comercial, “just for domestic flights, I think”. Certo ou errado era o que me tinham dito, cá na agência.
Num relance, ele olhou para trás, julgando-me talvez um espião de meia tigela, quem sabe de um país nórdico, para disfarçar... “where are you coming from?...”, indagou das minhas origens, num inglês mastigado de emigrante. Adivinhando-lhe as suas dúvidas, esclareci, “from Portugal”, e ele voltou a mirar-me pelo retrovisor, “oh... I thought you were sweedish...”.
Depois de lhe ter percebido alguma confiança no olhar, de que não era nem sueco, e muito menos espião, o nosso driver endireitou-se no volante, nitidamente mais descansado, e acrescentou, “I’m from Russia”.
Agora, tudo parecia melhor explicado. O homem parecia ter saltado a “Cortina de Ferro” e queria, obviamente, saber quem transportava no seu yellow cab. Às tantas, e tudo é possível, eu poderia muito bem ser um bufo da secreta russa, vasculhando o submundo nova-iorquino, para recambiar, à socapa, para o degredo das estepes siberianas, os desertores do tenebroso Leonidas Brejnev.
E não sendo, pelos vistos, um operacional do KGB e, tampouco, um agente da CIA, ficaram bem esclarecidos os meus planos de acção – era apenas mais um turista.
Bombardeei-o, então, com perguntas do país de Borodin e Tchaikovsky, “great music composers”, observou ele, orgulhoso dos seus maiores. Mais umas banalidades de viagem, atravessámos a imponente Washington bridge – um monumento ao ferro –, e New York erguia-se à minha frente, numa mole altiva e grandiosa.
Era quase meio-dia; o calor sufocante e a humidade elevada, roçando a saturação, não indicavam que era Abril, “it seems summer in April”, ironizei, e ele apensou, “it’s a crazy weather”, chegando ao fim da viagem de uma hora certinha.
Restava só saber para onde eu iria, se para o soviet consulate... ou para debaixo da ponte... “and now?”, perguntou ele, ao aproximar-se da esquina da Lexington avenue.
Subitamente, atrapalhei-me com a carteira que me acabara de cair da algibeira, no chão do taxi, e respondi-lhe, talvez de forma balbuciante, “Lexington hotel”.
Ele abrandou a marcha e encostou ao passeio, “look, the weather is realy crazy, but not me”, e que lhe daria pela cabeça para responder de forma tão azeda, ao dizer-me que estava de juízo perfeito? Um inesperado golpe hands up!. Em plena baixa? Não, não podia ser.
Bem, seja como for, em Roma sê romano, e in New York city, comporta-te as an american gentleman, pensei com algum receio, “what’s the matter, sir, something rong with the car?”. Algo parecia errado – ele ou eu? –, enquanto o taxímetro se encarregava de ajuntar mais uns cêntimos à dolorosa.
O russo pareceu acalmar-se e eu voltei à carga, naturalmente, “what’s the matter, sir, something rong with the car?”. Aliás, pouco mais tinha que fazer, senão manter a calma.
Foi então que me explicou a razão do seu azedume; que a minha resposta não podia ser Lexington avenue, porque já lá estávamos... “and now?”, insistiu mais cordato, e repeti-lhe o que já lhe tinha dito, “I’ve just told you – Lexington hotel”. Mesmo assim, “oh... pardom...”, esboçou um sorriso de quem parecia ter passado a noite inteira ao volante. Confusões desfeitas, o sorriso foi maior, quando acrescentei 3 dollars à avantajada conta da viagem.
E o pardo russo, apresentando-se agradecido, sumiu-se, entre um mar de yellow cabs, na grande avenida, disposto – quem sabe? –, outra vez, a saltar, com a dinheirosa, a tormentosa “Cortina de Ferro”, para assistir ao “Lago dos Cisnes”, no famoso teatro “Bolshoi”, naquele abafadiço April ’85.
Mas ainda há mais in the uncle Sam’s land...






