22 abril 2006

BRASIL, MEU COMPANHEIRO DE ESTRADA


Por que razão terá o Criador, ou alguém a Seu mando, parado mais de um dia no Brasil? É que, em outro lugar do mundo, jamais a natureza reuniu tanta beleza, nem tão-pouco algum poeta teve tanto para cantar.
Do Cristo Redentor, empoleirado no alto do Corcovado, ao mais recôndito lugarejo, aninhado no grande sertão, a impetuosidade do mato, amassado em tanto verde, como o das ilhas, era o remoque sempre constante; e, quando chegados ao terreiro dos deuses - em Iguaçu -, tivemos de conter a respiração, espantados com o rugido das águas bravas, despencando-se rocha abaixo, dir-se-ia que em quedas suicidas, tantas eram elas, que Deus parou e terá proclamado: VIDA À MORTE!
E eu, ainda inebriado com o Brado Divino, quedei-me a um canto, não sei se assustado, se perplexo, até que tudo se abriu aos meus sentidos, para abarcar a grande obra da Criação - as Cataratas do Iguaçu.
Mas nós - o orfeão - gente de têmpera antiga, forjados de basalto negro, irrompemos por esse Brasil adentro, para cantar as Ilhas de Bruma, porque ainda sinto os pés no terreiro, assente sobre vulcões e sacudido por terramotos - há quanto tempo - que os meus avós balhavam o pézinho.
E cantámos, cantámos, que nossas almas se fundiram com as dos nossos irmãos brasileiros, por Ribeirão Preto, Niterói, Rio de Janeiro, Barueri, São Paulo, Florianópolis e Itajaí, num corre-corre de mais de oito mil quilómetros.
Tantas canseiras, quais romeiros por terras sertanejas, fica-nos, ao menos, na memória o ter cantado nas Casas dos Açores do Rio e de São Paulo, e de termos, num abraço forte, levado os sons espelhados na dolência das ondas, enredadas da ardência das caldeiras.
Mas, se Niterói nos levou pela mão, até ao Brasil, para abrilhantarmos as comemorações dos quinhentos anos da chegada dos portuguesas a terras de Vera Cruz, também Ribeirão Preto nos quis dar o seu melhor teatro Pedro II, e São Paulo e Barueri fizeram questão de cantarmos em dois modernos teatros. Mas Florianópolis disse não; tinha um festival de coros à nossa espera e deu-nos a chave para o encerrarmos, numa verdadeira apoteose.
Foi lá, nessa cidade onde os nossos, há duzentos e cinquenta anos, lá chegaram, que todos queriam dizer da sua origem das famosas Ilhas de Bruma.
E de lá, deram o alarme para Itajaí, que nos bloqueou a estrada para nos fazer entrar na sua grande Catedral e, aí sim, o Belarmino subiu ao púlpito para gravar, qual ferro em brasa, o nosso melhor sentir de olhos negros que, de chorar, fizeram covas no chão.
Vinte e tal dias tisnados por um sol ainda adusto, e era tempo de dizermos: havemos de voltar, aliás uma condição para deixar o Brasil, meu companheiro de estrada.

21 abril 2006

Brasil adentro cantando III

Vinte dias passados, manhã cedo, pé na estrada, e no retrovisor, envolta na habitual neblina matinal, Florianópolis aconchegava-se nas nossas vivas emoções. Era visível que deixáramos, no genético sorriso brasileiro, a ternura das hortênsias, e no seu coração grande, a ardência das caldeiras, esse encanto de alma das Ilhas de Bruma; mas também a lembrança da marítima aventura, esse arrojo épico do Boi do Mar que o Zé Eduardo a todos contou, cantando. Éramos, de corpo inteiro e de papel passado, os verdadeiros sertanejos dos sons vívidos da Constelação Açórica, ombreando-se altiva, ao Cruzeiro do Sul.
Tudo parecia, enfim, consumado. É que, depois do retumbante sucesso, na Catedral Metropolitana de Florianópolis, em que os quatro Corais, em apoteose, se juntaram para cantar o Hallelujah, de George Haendel, haveria, porventura, mais Brasil para nos ouvir? Claro que havia; e mais cantaríamos, porque é a cantar que a gente se reencontra e se revê no corpo uno - o nosso orfeão. Foi, então, que alguém do staff da direcção, dando as instruções próprias do dia, nos autocarros (eram dois), lembrou a última exibição, em Itajaí. A sua grande e bela Catedral, construída em 1945, fez questão de nos ouvir, a mando da sua Prefeitura, que tão bem nos recebeu. Os aplausos, à mistura com o aperto nas nossas gargantas, pela derradeira actuação em solo brasileiro, foram o grande testemunho do reconhecimento da nossa condição de ilhéus, gente de dar, mas só por dar, paladinos orgulhosos da nossa querida açorianidade.
De tanto cantar, quer espartilhados à frente do maestro, mais do que incansável, sempre insaciável – esse doutor de leis, que alguém disse ser o maestro mais exótico que jamais conhecera –, quer, descontraídos, em mimos musicais de retribuição a tanta generosidade, estava pela frente um outro mundo à nossa espera - o grande sertão - esse espaço imenso que nos esmagava, à medida que nele íamos penetrando. O deslumbramento, ante a superabundância da vegetação, em que o viço era o mote, estampado, ali mesmo, no mato em mil árvores, todas diferentes, era um quê de proeza que a Natureza parece até ter retirado dos quatro cantos do mundo, num desvaire caprichoso, para ali fazer o seu jardim preferido; eram acácias, palmeiras, coqueiros, eucaliptos, pinheiros, amendoeiras, um sem fim de espécies, enredadas em heras, que lhes davam constância, numa insistência inquebrantável de espírito de corpo; era uma amizade pura, logo ali, expressa no primeiro bouquet de samambaias e filodentros; uma paz, uma autêntica comunhão, como se tudo se fundisse num monstruoso cadinho - esse mato selvagem - saboreando, mesmo ao lado, num relaxamento só aos deuses permitido, a papaia, a manga, o abacaxi, a pitanga, o mamão, a acerola, a banana, o jamelão, eu sei lá que mais...
Brasil... que mais, Brasil?
Esquecer o mundo?! Recordar os filhos, o marido, a mulher, os pais, os amigos?... Brasil... meu companheiro de estrada, já não sei dos nossos; mas se ao menos existimos, Brasil, meu grande Brasil, deixa-nos ver o Iguaçu.
Perdidos a mais de mil quilómetros da costa, com dezoito horas de estrada, as vozes emudeceram, porque outras maravilhas se alevantavam, com eloquente soberba, aos nossos olhos. Diria um desconhecido que éramos apenas mais turistas. Mas não. O nosso silêncio era a maior sensação de alma de artistas que, mais do que aquilo que cantam, também sentem, num misto de rir e sofrer - que o digam o Urbano e a D. Ruth, que dor tamanha! -; e ali se quedaram para assistir, de varanda, ao maior espectáculo que o Criador, antes de descansar e como qualquer artista sempre insatisfeito, decidiu erguer - as Cataratas do Iguaçu.
"Meu Deus!..." - gritou dentro de mim uma voz que eu nunca ouvira antes. E, aos nossos, apenas divisava uns vultos, deambulando num pasmo nunca visto.
"Que aconteceu aqui?!" - interroguei-me quase aflito, ante o rugido das águas bravas, em queda aparatosa - e tantas eram - numa frente de quase três quilómetros. Só vulcões e terramotos poderiam ter rasgado, num rude ímpeto, as profundas entranhas, em parto quantas vezes milenar!
Chamei todas as razões do meu ser, para sossegar a minha alma, aprisionada pela paixão tresloucada da grande Mãe-Natureza. Aos poucos me acalmei e me senti como num santuário, onde as divindades eram outras: panteras e onças, jibóias e jararacas; sabiás, pintassilgos, curruíras e pardais, e mais e mais aves, num delírio de vozes, que só faltava a orquestra para os acompanhar. Ocorreu-me pedir ao François e ao Gregory, que só eles, exímios no acordeão e no violino, poderiam atrever-se ao convívio dos trinados. Em vão. Ninguém via ninguém.A paz terrena voltou, por fim, aos nossos olhos negros, ainda agora esgaziados. Sem mister, os nossos se fizeram, pela última vez, à estrada, para São Paulo, Lisboa e Ponta Delgada.

20 abril 2006

Brasil adentro cantando II

Depois do primeiro embate de que resultou, mais do que vivos, estarmos todos em forma – e isso muito teve a ver com a impetuosidade do grande Brasil, todo feito à imagem do seu gigantismo –, voltámos à estrada, rumo à imensa metrópole de cerca de dezoito milhões de almas que é São Paulo (aqui os números divergem, porque, há pouco tempo, eram dezasseis), mas, todos os dias, do grande sertão chega mais e mais gente, engrossando favelas de pobreza extrema, contrastando, num drama pungente, com a beleza dos condomínios, de grande arrojo arquitectónico, como a avenida Paulista e ruas adjacentes, ou o bairro da Tijuca no Rio de Janeiro.
No hotel onde nos instalou a eficiente organização, durante três dias (recordo com gosto as duas irmãs Martinha e Leonor – o pai das Furnas e a mãe da Ribeira Seca de Vila Franca), fui abordado por um garçon, que sabendo de sermos um coral, quis dizer-nos que era barítono – no Bel-canto, o seu coral – que, para além de música do folclore brasileiro, cantava também música erudita.
- E o que é que andam a cantar, agora? perguntei com alguma expectativa.
- A Missa da Coroação, de Mozart – respondeu-me com um brilho nos olhos, que só queria dizer do orgulho que sentia em também ser cantor.
O Cassiano, seu nome, quis saber da nossa gente, das nossa andanças, das nossas impressões. Contei-lhe que éramos, nos Açores, menos de cinquenta mil que a favela da Rocinha, no Rio, que conta trezentas mil almas de desgraça, e que, das cidades onde tínhamos actuado – Ribeirão Preto, Niterói, Rio de Janeiro e Barueri – o Rio era uma urbe de beleza ímpar, espraiando-se por entre morros de impressionante pujança rochosa, salpicados de vegetação luxuriante, dando a sensação de um mudo único, que a mão de Deus não quis repetir em mais outro lugar da Terra.
- É curioso, você apanhou direitinho o Rio – interveio o Cassiano deleitado – mas vou-te contar, eu nunca fui ao Rio – desabafou com a mesma ternura de brasileiro sentido, e quase deixava rolar uma lágrima naquele rosto redondo de mestiço; tinha vinte anos.
Embaraçado com a dura realidade, quis saber como era possível estar-se a seis horas, sem nunca lá ter ido.
- Aqui, no Brasil, você só tem duas condições: ou nasce pobre, ou nasce rico. Se nasce pobre, aí tem duas opções: ou nasce pobre rezando, rezando... ou, então, vira ladrão.
E se nasce rico? – perguntei ansioso pela outra face da moeda, que nunca tinira em sua vida.
- Aí, meu amigo, alguém já foi ladrão, com certeza.
Quedou-se sobre nós um silêncio de profunda amargura e eu, sem jeito, fiquei esperando uma saída. Para quê falar-lhe do Pão-de-Açucar e do Cristo redentor? Seria cruel. O Cassiano, então, num gesto de amizade pura, sacudiu o ambiente:
- Deixa para lá... – e risonho, com aquele seu coração no lugar certo, prosseguiu – estou fazendo, primeiro, um pé-de-meia para o casório e, quem sabe, logo mais, vou com a minha carinha, em lua-de-mel, à cidade maravilhosa.
E mais não disse. E que mais haveria para dizer? Que iríamos para o sul, para Santa Catarina? Não voltei a vê-lo, pois folgara no dia seguinte, segundo me disse o gerente do hotel. Melhor assim, comentei com os meus botões.
E, sempre cantando, abraçámos os nossos muitos irmãos na sua Casa de São Paulo, como também o tínhamos feito, em jeito de cortesia informal, na Casa do Rio.
Não cabe aqui a emoção que se viveu nessas noites, tão grande era o entusiasmo pela nossa música, que alguém disse que o vastíssimo Atlântico, que nos separava, era apenas um rio, e outro mais emocionado, que esse tal de Atlântico não passava de uma qualquer ribeira de São Miguel.
E fomos, depois de termos cantado em dois modernos teatros da grande São Paulo, outra vez, Brasil abaixo, em direcção ao Estado de Santa Catarina, com uma baixa de peso.
Quando tudo parecia corre sobre rodas – com auditórios e igrejas sempre cheios de gente exaltada pelos textos de grande nível estético desse excelente declamador, o Belarmino Ramos, textos estes estreitamente conotados com os nossos sons destas ilhas de bruma –, lá vai uma das nossas melhores rodas que racha e logo ali ficou o Aurélio, derreado da coluna, regressando de São Paulo à sua Califórnia, mas deixando o coração por empréstimo, até terminar a nossa viagem.
Para trás ficaram dezassete dias em que se misturaram emoções nunca experimentadas pelo nosso orfeão. Arrepios do muito caminho, ainda por percorrer, e ainda agora o Aurélio, e o professor Cabral também, eram exemplos vivos de muitas canseiras pela longa marcha.
Santa Catarina era o último compromisso artístico, e de peso. Para além das actuações na igreja da Comunidade de Santo António de Lisboa e na Universidade Federal de Santa Catarina, restava-nos a prova de fogo, na Catedral Metropolitana de Florianópolis. A Associação Pró Música, comemorando a suas bodas de prata, preparara, a rigor, o espectáculo Clássicos na Catedral, reservando ao nosso orfeão a honra de o encerar. Foi a maior ovação de sempre, com toda a assembleia de pé em bravo, bravo, bravíssimo, um delírio, que nos comoveu a todos
A cidade de Floriano, que lhe deu o nome, o general terrível, que sufocou, no final do século passado, uma revolta contra o despotismo do centralismo do Rio, apoiada pela Marinha, e alimentada por intelectuais de várias tendências – melhor república e regresso à Monarquia –, despediu-se com a nostalgia das suas raízes açorianas, de há duzentos e cinquenta anos, idos das ilhas em busca de melhor sorte.
Todos queriam dizer que o seu apelido era açoriano. Enfim, todos se sentiam na pequena Casa Açoriana, aliás bem patente em muitas habitações de Ribeirão da Ilha.
Curioso foi o comentário de alguém, que não recordo quem: nunca tantos açorianos vieram em tão numeroso grupo de uma só vez.
Do sertão, que tínhamos pela frente, todos estavam ansiosos pelos mais de três mil quilómetros que faltavam. E agora? Mas, mais uma vez, como a gesta de outra gente nossa, ressoou o Grito do Ipiranga, respondendo à chamada, do Lúcio e do Hermano, e, determinados, clamamos:
- Todos à Foz do Iguaçu!

19 abril 2006

Brasil adentro cantando

Brasil, grande Brasil, gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso, és para os teus filhos, mãe gentil, Pátria amada.
Ainda ouço os acordes do seu hino heróico, em ressonâncias de quem sente o seu país, erguendo, ao mais profundo do céu estrelado, o brado retumbante que conquistou, nas margens do Ipiranga, a liberdade, desafiando no teu seio o nosso peito a própria morte.
Com este estado de alma, fomos, outra vez, sertão adentro, bandeirantes da cultura açoriana, levando longe os seus sons mais autênticos, pelas vozes, já sem fronteiras, do orfeão Edmundo Machado de Oliveira.
Não fujo à tentação de recordar um diálogo entre dois adolescentes que passavam perto da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e depois o papo que batemos os três.
- Esse pessoal aí está vindo de Portugal, estão dizendo que todos eles são cantores.
- Mas tantos, cara?! Como é possível um negócio desses? Não vai bater certo, não. Olha, meu irmão, essa turma aí é muito mais que os Rolling Stone; vai virar a maior confusão, pode escrever.
- Vira essa boca para lá, qual confusão rapaz; isso aí é um coral; entendeu agora?
- Falou.
Aproximei-me deles e trocámos, por uns instantes, antes da actuação, impressões da nossa digressão artística, já que eles mostravam grande interesse.
- Chegaram quando, gente?
Contei-lhes que já estávamos há uma semana no Brasil, vindo directamente de Lisboa para São Paulo e, de lá, havíamos seguido para Ribeirão Preto, a convite do Rotary Club, actuando em três espectáculos.
- Que beleza! Imagina só, Ribeirão Preto... e eu que nunca lá fui.
- Aquilo lá é quente para valer - disse o outro que conhecia bem a cidade.
Referi que, apesar do tempo quente que ainda se fazia sentir nesta altura do ano, a hospitalidade e o carinho com que nos envolveram, fez do calor uma agradável oportunidade para sabermos uns dos outros e para logo darmos conta do grande coração do povo brasileiro, sempre sorrindo e pronto para tudo.
Falei-lhes do magnífico teatro Pedro II, consumído por um grande incêndio, e agora totalmente recuperado por uma Fundação que o dirige, suportada pela grande cervejeira Antárctica, uma obra que obedeceu ao que de mais moderno havia em tecnologia de som e segurança. No tecto, tinha sido concebida, por uma arquitecta japonesa, uma iluminação curiosa, dando a ilusão óptica de uma transparência celestial.
- É isso aí, vocês devem mesmo cantar benzinho.
A melhor resposta foi dizer-lhes que entrassem, porque os ingressos eram gratuitos e não iriam arrepender-se. Aliás, esclareci os meus novos amigos que a nossa visita ao Brasil tinha sido despoletada pela Prefeitura da cidade de Niterói, para participarmos na inauguração das festividades dos quinhentos anos da chegada dos portugueses à grande Pátria Brasileira, tendo a cerimónia oficial, com a presença de autoridades dos governos brasileiro e português, ocorrido na Fortaleza de Santa Cruz, onde executamos os respectivos hinos, acompanhados pela Orquestra Sinfónica Nacional da Universidade Federal Fluminense.
- Puxa a vida, está certo, agora estou sabendo que por toda a cidade estão bandeirolas, anunciando o evento. Dá para você vir tomar um chopinho antes desse negócio aí?
Não pude aceitar a generosidade daqueles adolescentes, apesar do calor sufocante que escaldava toda a nossa gente. Esclareci que, antes de actuarmos, tínhamos de preparar, convenientemente, as vozes para que tudo desse certo, como garantia de um bom espectáculo, que aliás foi dos melhores que tivemos em toda a nossa digressão, com uma plateia, calculada em mais de mil e quinhentas pessoas, que escutou e soube brindar o nosso melhor repertório açoriano, para além de fados e canções portuguesas, interpretadas pela excelente voz, de raro timbre, de Aurélio Machado Oliveira, irmão do nosso patrono, que se deslocou expressamente do Canadá, onde se encontra radicado, para complementar as nossas actuações, acompanhado à guitarra por José Pracana e à viola por João Machado.
- É isso mesmo, vida de artista também vira saco.
Depois do sucesso, que foi a actuação no grande auditório da Universidade, não voltei a encontrar os rapazes, pois, agora sim, estava mesmo disposto a aceitar o tal chopinho. Mas artista é mesmo assim; o maestro, o insaciável dr. José Rodrigues, convocou-nos para um breve ensaio preparatório para o concerto daquela noite, aproveitando a dinâmica da actuação que acabara em alta.Tive pena de não voltar a vê-los, porque queria dizer-lhes que a procissão ainda ia no adro, pelo muito que tínhamos de cantar por esse Brasil adentro.

18 abril 2006

OS AMIGOS SÃO ISTO, HENRIQUE

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo, vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Anthero de Quental
Há sempre um primeiro dia para se ter um amigo, como o sol que nasce em cada manhã. Começamos por abordá-lo, de alto abaixo, a ver se encontramos algo de comum, dizemo-nos coisas que parecem de somenos: às tantas, o Porto ainda ganha...; não sei... disso pouco entendo; tenho um fraco pelas gentes do campo; as lagoas, conheço-as todas; isso já não posso dizer a mesma coisa; a música chama-nos para a melhor das intimidades; e aí está o despontar de uma grande amizade.
Terá sido por aí, numa conversa de coisas aparentemente menores, a primeira vez que nos cruzámos. Parecia-me evidente que tinha acertado, em cheio, num amigo para o resto da vida – e não me enganei.
Diz-se que a apartação, o andar longe da vista. afrouxa a amizade, quase que apaga o elo da aliança, criada sem formalismos. Parece até que o é, que se extinguiu a chama bonita do apego e, em certa medida, não deixa mesmo de ser assim; mas se o é, certamente que se trata de uma convivência superficial, de alguém que se encontrou, e de quem, uma vez por outra, se sabe, se ouve qualquer coisa...
Contigo, Henrique – e isto toda a cidade o diz ainda –, a amizade começava a sua caminhada duradoira, logo ao primeiro dia. E celebrado o contrato da afeição, chegavas-te com aquele jeito muito teu, “vais ter um tempo para mim?”, e eu, da outra ponta da linha, “para ti, não há um tempo, mas todo o tempo do mundo!”, e logo aparecias, pois que o teu tempo era precioso, “é verdade, João, olha que é um dos meus melhores companheiros, podes crer”, gracejavas, quando me aparecias com aquele sorriso generoso, direi de excelsa bondade.
Mas que coisa era essa, que mistério havia dentro de ti, que arrostava contra todas as vicissitudes da vida? Sei que a tua força anímica vinha das andanças pelas belezas da vida, plantadas nos trilhos verdejantes da tua Ilha.
E sei que, se preciso fosse, eras homem para atravessar selvas, mares, areias do deserto, para estares mais perto daquele amigo, que há tempos não vias – eras uma pessoa rara, uma Coisa única.
É óbvio que o mundo gira à volta das coisas gostosas que semeamos, e que nos são queridas, aquelas que a mãe leva ao colo agasalhadas, mas quem te conheceu por dentro, Henrique, quem te desdobrou, como tu te oferecias aos amigos, não tem a menor dúvida sobre a envergadura com que construías a Amizade.
Olha, meu bom amigo, não se trata de cumprir apenas um civilidade, esta coisa de vir aqui, para o teu Correio, falar de ti, como se fora um mero preceito. Não; não fiz nenhuma jura, à tua beira, quando nos despedimos, para alardear conversas vãs, nada disso.
Sabes, Henrique, os amigos são isto; hoje, apetece-me visitar a tua alma, passar, contigo, um pouco do teu tempo.
Deves ter visto, já, aí por esses recantos celestiais, muitos dos amigos com quem te cruzaste, por cá. Se, de entre eles, te abeirares de Anthero, escuta-o, porque te dirá coisas bonitas, talvez estas...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

NEW YORK, A CITY TO REMEMBER

É óbvio que não poderia ficar-me por um mero aceno de cortesia para a cidade de Sinatra, that never sleeps e, de longe, dizer, apenas – good bye... New York!
Claro que não. Evidentemente que um simples adeus era muito pouco pela grande pátria americana. Tinha muitas coisas para contar à minha gente – aquela era mesmo uma cidade para lembrar.
Ora, feitas as pazes com o driver bolchevique, esperava-me o trabalho, para que fora arrolado, pelo meu Serviço e exibir os galões de que ainda era capaz de arengar some words in english.
E pus-me a imaginar, à medida que os quarteirões se sucediam, no caminho do Kennedy airport, para o “Lexington hotel”,, quantos milhões estariam abarrotando as high ways, ou amontoados no sub-way, num lufa-lufa pala vida, desde manhãzinha muito cedo, os filhos enchendo os yellow busses, a caminho das public schools, e outros milhares, acabados de chegar do third shift, a ver se encarreiravam o sono merecido de uma noite escambada nos industrial shops.
Disso mesmo havíamos falado, quando ele me confidenciava, “in the beginning, it was real tough”. E fomos trocando impressões da vida dura de um emigrante, “imagine this, I was a quemical engenneer, in Russia!”, ele olhou para mim pelo retrovisor, talvez a avaliar a minha reacção, e repisou, “yes, it’s truth!”, e em jeito de conclusão, “and now?...”.
Agora, ganhava a vida, como se toda aquela formação universitária fosse apenas para americano ver, ou ir contando aos fregueses, que, como eu, se dispusessem a questionar the american way of life.
Considerandos à parte, abalei, na manhã seguinte, para o meu new job, à beira do rio Hudson, in down town. Achava-me an american executive, de maleta preta na mão, “yes, sir, do you want to go to the top of the Twin Towers, for a visit?”, perguntou-me a tall beautyful girl, plantada in the front desk, pronta para me cobrar um ticket de 3 dolars.
Cheguei-me para ela determinado, não tinha tempo para ir lá cima, “oh, no, I’m on duty”, respondi-lhe todo convencido do meu novo trabalho. Expliquei-lhe, então, que fazia parte do portuguese staff da exposição, A Portuguese Week in New York. Ela olhou-me de soslaio, “your documents, sir”, ao que eu, empoleirando-me nas pontas dos pés, para parecer another sort of an executive, “here they are, miss”.
A moça deu uma mirada minuciosa, um a um, pelos meus papéis, “O. K. sir, 47th floor”, e preparei-me para tomar o elevator e ocupar o meu novo posto de trabalho... in The World Trade Center. Entrou um tal magote de gente no ascensor, que iam forçando os da frente, para que mais um coubesse, “that’s enough!”, gritou uma voz aflita lá na frente, antes que fosse esmagada pelo bando, atrás dela; e nisto o elevador fechou-se, arrancando como um bólide.
Ia deitando sentido nos pisos que iam correndo, até que o dito passou pelo meu floor, sem parar, “please, stop it!”, gritei, antes que ele me levasse até ao topo, “don’t mind, it stops on 5Oth”, sossegou-me a mid-age lady. Como poderia sair dali, eu que estava no meio de um tal ajuntamento? Comecei a forçar uma saída, a tentar a minha sorte, “just wait, brother”, resmungou a fat white collar, e comecei a suar, junto daquela massa adiposa...
Afinal, à boa maneira americana, sempre cheia de soluções práticas, saímos todos – para aí uns sessentas –, para a frente, por outra porta oposta à da entrada, e a simpática lady dispôs-se a esclarecer-me, “it’s an express elevator to the 50th floor” e que tinha de apanhar outro, floor by floor, para chegar ao meu destino. Eram só 45 elevadores, aninhados no corpo central da Torre...
Refeito do susto, não fosse ficar colado, for ever, lá no 103th floor, encontrei o office do certame português, “may I?”, pedi licença, “sure”, respondeu uma moça, que me não pareceu aquele tipo de americana alta, loira, de silhueta escorrida; não, talvez fosse, quem sabe, espanhola, italiana, até mesmo grega, uma coisa assim... e ensaiei-me para estar ao nível delas, “I’ve just been coming from Portugal”, soou-me bem a frase... e detive-me, “e todas nós de lá viemos...”, disse ela divertida.
Quase sempre, tecemos um rodopio de dúvidas, antes que as coisas aconteçam, e, afinal, estamos em casa, ou tão perto dela...
No fim de contas, New York, New York... parecia soberba, portentosa, esmagadora, as elegantes Twin Towers a quererem desabar sobre nós, quando as mirávamos cá de baixo, mas tão graciosa que era a bela cidade, que falava, também, a deliciosa língua da Camões – a city to remember.

17 abril 2006

GOOD BYE NEW YORK


Voltando a New York city, que a havia deixado em sossego – para falar da Vera, essa boa Prima, e da cidade que és minha –, fui surpreendido, como dizia, por ima moinha de muita inquietação, lembram-se?
A caminho do hospital, ia-me torcendo de dores muito agudas, com a ambulância a toda a força e a buzinar a sirena estridente, furando o intenso tráfego da grande urbe. E não só a viaturaa, onde seguia, parecia barulhenta, porque pelo menos outras duas ou três se colavam a nós, numa infernaria de buzinas, “how do you feel, sir?”, quis saber um dos paramédicos, que, no hotel, havia abordado o meu estado clínico, apalpando-me por todo o sítio, “ai!!!”, arreganhei as goelas, quando ele me batia na zona dos rins.
Apesar das fortes dores, procurava dar a impressão de que estava preparado para o pior; é que, a ser uma intervenção cirúrgica de emergência, isso não seria a primeira na minha vida. E, na sua conversa de entreter o tempo, ele voltou a acalmar-me, que o hospital estaria ao voltar da esquina... “in a few minuts, we´ll be there”, mas as guinadas bruscas de curva à esquerda, curva à direita, faziam crer que o hospício estava, ainda, a vários quarteirões.
Seja como for, com o tempo a correr atrás do tempo da verdade, eu curvava-me sem posição que me desse um mero alívio. Ele pegou-me na mão, “just a while, sir”, mas a companhia das outras ambulâncias, cada uma a querer fazer mais alarde, levou-me a ironizar, “too much noise...”. o paramédico deu uma forte gargalhada e comentou, “that’s right, sir... you don’t feel too bad...”.
Nisto, uma aparatosa travagem seguida de uma viragem apertada fizeram supor uma colisão quase certa, “my Goa!”, exclamei, agarrando-lhe, com todas as forças, pelo casaco, “here we are, sir!”, anunciou a almejada chegada ao Emergency Room.
E para quê tanto aparato, santo Deus? Ele pareceu perceber a minha angústia, “these drivers are like so...”, e eu resmunguei, “querem mostrar serviço...”, ele riu-se do meu desabafo numa língua, que certamente não entendia, e respondeu-me à letra, “cognac is cognac, service is service...”.
Dei uma olhadela pelo sítio desinquieto, enquanto me levavam com presteza na maca: gentes chorando, carreavam muito sofrimento; outros, com sacos de pertences, caminhavam radiantes; yellow cabs chegando com famílias em sentida aflição nos olhares; até que me deixaram num grande átrio, “another portuguese gentleman”, observou uma enfermeira simpática, preparando-me para receber um balão de soro.
Deu umas quantas falas para a colega do lado, “one more hour... and home sweet home...”, claro que esbocei um sorriso de inveja, e ela, satisfeita com o seu tempo a correr-lhe de feição, e o doce lar quase à vista, “you eat much choriso...”, e lá dei um ar da minha graça, “not too much, madam...”, ela fixou-me, “you don’t live here, do you?”, perguntou, quase certa de que eu vivia muito longe dali, “no, madam, I’m just arriving from Portugal”, apenas umas horas, depois de chegar, e já dava entrada onde menos esperava, “that’s life...”, e deixou-me com um sorriso expressivo, recomendando-me sossego, “just relax...”.
Tentei relaxar, mas só me via, na marquesa, a estraçalharem-me barriga adentro, escarafunchando qualquer coisa que seria o mal de tamanho achaque.
Afrouxei o pensamento vadio, melhor assim, para deambular pelo Central Park, em busca do russo bolchevique, e ensaiar um golpe, à KGB, levando-o de volta para Moscovo, mas ele logo se sumia, quando se apercebia da minha presença...
Neste jogo d’o gato e o rato, abandonando o grande parque, e às corridas pelas largas avenidas, a ver se punha as mãos no ex-marxista, como ele me dissera, um médico se pôs à minha beira, “you are Mr. Joao Sampaio, aren’t you?”, e preparei-me para o pior, “yes, doctor, a surgery?”, mas ele, “no...”, e riu-se, “just sand in your kidneys” explicando-me que deveria beber muitos líquidos para facilitar a passagem das areias nos rins.
Com uma receita assim, com alta e livre da faca, esperei por um cortês yellow cab, que me levasse ao hotel. E pensei, se fosse o pardo driver das estepes regeladas da grande Rússia a aparecer, que faria com ele?
Dir-lhe-ia, tão-somente, ardente de alegria, “I’ve change my mind, fellow”. Não, já nada tinha contra ele, “eh, brother, let’s have a Budweiser”.
Depois da loirinha fresquinha, mesmo a calhar naquele sufocante April ’85, estendia-lhe a mão conciliadora, “nice to meet you, my friend” e, para a grande metrópole da Liberdade, good bye... New York!

16 abril 2006

NEW YORK NEW YORK

Não tinha ficado, propriamente, boquiaberto com a grandiosidade da cidade, pois que, comigo, esse estado de espírito só se tem ao primeiro contacto. É que isso havia já acontecido antes, quando aquelas torres, ao avaliar-lhes a altura, pareciam cair-se-me em cima.
Com efeito, New York, New York era uma velha amiga minha, nem sempre com as melhores recordações.
E tinha razões de sobra, quando, treze anos antes, regressara de barco, com muita bagagem de porão, retida no cais, por via de uma greve de solidariedade para com os estivadores ingleses. Coisas de quem, não tendo mando, manda...
Apesar disso, New York era uma cidade de se voltar sempre, mesmo que...
E o resto vem lá para o fim...
O russo, o driver do yellow cab – lembram-se? –, tinha-se sumido na balbúrdia da Baixa, e imaginei-o, muito naturalmente, a dar-se uma folga na primeira esplanada, ao virar da esquina, “please, a Budweiser”, e quase que dava para avistar o pardo bolchevique, a bebericar, sem pressas, a saborosa cerveja – estaria ele e eu, precisando de refrescar a goela.
Plantado ali, no meio do amplo side walk, bem me poderiam tomar pelo tal bufo da secreta soviética, com a maleta preta na mão, e a mala, no chão à minha ilharga, eu que mirava o altaneiro casario em volta, quando, inesperadamente, alguém se apossou dela, a mala, ”yes, sir”, perfilou-se um rapazola, fardado de azul.
Não era nenhum colega bufo, não; não tinha ninguém à minha espera, acreditem...
Dei uma guinada brusca, receoso da investida, “eh, wait a moment, please”, e quis certificar-me se aquele franganote, mascando shewing gum, era mesmo do hotel para onde estava destinado. Ele, atencioso, “no problem, sir”, retirou a mala da carreta, e “pardom, sir”, enquanto eu dava uma olhada em redor, não fosse ele pertencer a uma outra hospedaria, ali ao lado, “is this the Lexington hotel?”, assegurei-me, tinha que ser, “off course, sir...”.
Agora sim, estava tudo nos conformes, porque já tinha, afinal, dado com o nome do hotel, por cima de uma das portas, por sinal, um pouco além do sítio onde nos encontrávamos, e o moço riu-se, “anything wrong, sir?”.
Já não havia dúvida alguma; estava in New York city, e o meu destino estava encontrado: Lexington hotel, “no, everything is all right”, respondi, e ele voltou a colocar a mala na carripana, enquanto o acompanhava até à espaçosa recepção.
Uma loira espampanante, toda ela num real american style, atendeu-me, bombardeando-me com umas quantas perguntas: se eu gostava de... e de... e mais um de... e eu ia respondendo yes, no, may be, sure, até que, “room 3732, sir”, e deu-me um cartão perfurado.
Devo ter feito uma cara de estranheza com o cartão – para que serviria aquilo... e o elevado número de quartos... –; mas ela, adivinhando-me a admiração, esclareceu expedita, apontando no cartão plastificado, “this´s your key, the 37th floor and room 32; o.k., sir?”, e, de certeza, levou aquela para contar ao seu boy friend...
E o que é que tem de mal a minha surpresa?... nestas coisas, uma vez é a primeira...
Bem, o tal rapazote malandreco, ainda à espera da gorjeta, limitou-se a justificá-la, “the elevator is right there, sir”, e lá foi cravar outro hóspede...
Melhor assim, porque deu para fazer o teste ao building, que tinha cinquenta e tal andares, o suficiente para me poder atrapalhar.
Mas não; o elevator parecia um foguete e, num ápice, cheguei direito ao 37th floor, e o room era mesmo bacano, tudo em tons de azul, razão da fardamenta do catraio, fardado da mesma cor.
Estendi-me ao comprido na cama para passar em revista os meus afazeres de serviço, e passar, então, pelas brasas – estava deveras cansado da viagem transatlântica.
Brasas... quais brasas?
O resto, de que vos falava no início, resumiu-se a uma moinha que se acercou da região lombar e, decidida a não me deixar em paz, levou-me de vencida, “anything wrong, sir?”, perguntou o empregado da recepção, que eu havia chamado pelo telefone, para vir em meu auxílio, “I’m realy sick”, disse consternado e cheio de dores, “you’d better go to the hospital, sir”, aconselhou-me em boa hora.
Mesmo assim, New York é uma cidade de se voltar sempre, mesmo que...
Ainda há mais in the New York, New York...