08 abril 2006

WE ARE THE ALEXANDERS

A vida tem destas coisas, prega-nos às vezes partidas e, portanto, há que sair delas depressa para não sermos enredados e perder o fio da conversa.
Foi isso mesmo que me ia acontecendo, quando viajávamos de Nova York para Ponta Delgada, no "Queen Anna Maria", já lá vão trinta anos.
O navio largou meia-tarde e fez-se ao rio Hudson, num grande vagar, como se tivesse receio de entrar no mar alto. Foi óptimo, porque deu para apreciar as imponentes torres da grande metrópole, que eu me fiquei a pensar se aquilo poderia caber em outro sítio da terra. Claro que caberia, e bem, mas alguém faria o Empire State apenas num ano?
E decidi refazer a minha dimensão à medida da ilha que, dali a cinco dias, me haveria de receber. Voltar a casa era mesmo bom, foi o que concluí do meu devaneio pelas grandezas que outros, ansiosos por poder, deram forma à prodigiosa imaginação humana.
Entrámos, enfim, no mar aberto e para trás ficou um outro mundo, que nunca seria o meu, mesmo que fosse instalado na melhor suíte do Sheraton da grande cidade, arranhando os céus...
A viagem estava a correr bem, com mar calmo e bom passadio a bordo. Mas os dias passavam-se na monotonia dos corredores a caminho da sala de jantar e do salão da turística, sem conhecer viva alma. Eram, na sua maioria, gregos, malteses, cipriotas e alguns italianos e pouquíssimos portugueses, para além de nós.
Ao quarto dia, o mar encapelou-se, com a aproximação dos Açores, e o paquete deu um ar da sua graça e balanceou a gosto, num passo de valsa lenta... Nada de mais, éramos já marinheiros experimentados.
Durante o jantar, fomos informados pelos altifalantes de bordo que o comandante oferecia a todos os passageiros, que o quisessem, um cocktail no salão da 1ª classe, seguido de baile, “boa ideia...” - disse para minha mulher.
Descemos ao camarote para nos vestirmos a preceito e lá fomos a caminho da festa. Entrados no salão, logo decidimos arranjar um lugar, onde nos sentássemos, que o equilíbrio não era nada fácil. E logo um cavalheiro, de meia idade, de pronto nos ofereceu a sua mesa, para partilharmos o serão com ele e a sua mulher.
Aceitámos de bom grado a gentileza e ele, numa pose de um gentleman simpático, apresentou-se-nos, a si e à sua mulher, nestes termos:
- We are the Alexanders.
Fiquei quase sem resposta, surpreendido com a sua elegância, em retoques de um inglês perfeito.
Num rasgo de sorte, saí-me da mesma forma e devolvi o cumprimento:
- We are the Sampaios.
- Pardom - não tinha percebido o nosso nome.
- I'll spell out - soletrando-o pausadamente, acrescentei que éramos portugueses.
- O.k.! - e foi o bastante para iniciarmos uma conversa agradável, enquanto saboreávamos uma taça de espumante.
Quis saber de que parte éramos, se de Lisbon or Oporto.
Quando lhe disse que vivíamos in the Azores, Mr. Alexander surpreendeu-me de novo, perguntando-me se éramos da Terceira, e continuou a falar sobre a importância que a ilha tinha no contexto estratégico da política externa do governo norte-americano.
De qualquer modo, valeu a pena passar da sensaboria das refeições amiúde, para uma simples taça de espumante, servida com uma boa conversa em inglês repuxado.
O navio prosseguia no seu bailado e, apesar disso, fomos à dança, por sugestão da mulher dele. Mas pouco durou o tempo de valsa, porque ninguém conseguia acertar o passo com o balanceio do paquete, pois ser-se marinheiro aprende-se depressa, mas bailarino é outra louça...

07 abril 2006

O MÉDICO DE BORDO

A Insulana tinha-me de volta, desta vez, para pior, no "Carvalho Araújo", mas melhor, em 1ª classe - um puro fogo de vista...
Apesar do fraco fogo, outro se acendeu com a grata recordação de descobrir quem era o cavalheiro, a um canto da sala de jantar, ao primeiro pequeno almoço, sentado a uma mesa. Do seu ar tranquilo, parecia irradiar a calma que se tem depois de uma sangrenta batalha naval, em que um único marinheiro sobreviveu para contar como tudo se passou.
Só, mastigava devagar, enquanto saboreava com regalo, o pão que ia barrando com manteiga e debicava pequenos pedaços de queijo, desfrutando o mar através da janela, enquanto levava à boca a chávena do café matinal. Percebia-se que ignorava o ambiente agitado, que se vivia à volta. Estaria na casa dos quarenta, talvez.
O cavalheiro, viria a saber, era o médico de bordo. Acabado o pequeno repasto, logo se sentou numa cadeira de vime, no convés coberto, mesmo ao sair da sala.
Da conversa que tivemos, o senhor doutor era uma figura de contraponto no equilíbrio das emoções que pululavam nas viagens de mar. Para nós, eu e os outros aspirantes, saídos de Marfa e não só, ele era uma espécie de angra, um ancoradouro seguro, aonde os tripulantes demandavam o eco no vazio das suas rotinas. Habitualmente sem problemas que preenchessem os seus cuidados de médico, quer com os passageiros, quer com os homens do mar, a veneranda figura, alta, farta e relaxada, arrastava-se, entre as refeições, em extensas divagações: ora profundas e revirando-as até à exaustão, com a oficialidade de bordo, quando algum deles, depois do quarto, se deixava ficar no bar e com deleite se entregava na defesa de causas perdidas; ora de índole leve, prendendo-se, como uma aranha manhosa, enredada na teia, à espreita do primeiro passageiro que se dispusesse à cavaqueira. Dir-se-ia que era uma espécie de navegador solitário, profundamente convicto das suas rotas, "se isto virasse inferno, estou em crer que seria o único a defender Satanás", costumava ele dizer-nos, quando se encontrava só numa encruzilhada de opiniões.
- Querem, então vocês, saber, ilustre soldadesca rastejante, o melhor que há na terra: pois é, o melhor que há por aí é o queijo de São Jorge e o vinho do Alentejo.
- Só?...
- Isto para o pequeno almoço dá.
- E o vinho, também vai...
- Não... é que tenho de me ir preparando para o almoço e o Alentejo espera-me - respondeu no meio de um riso calmo, espraiado.
- Se calhar, é a sua terra senhor doutor - disse o Loureiro, um continental mestiço, que tão bem cantava o "Hit the road, Jack, don't come back no more".
- Não, eu sou de São Miguel, da Bretanha.
- Não importa, se não é passa a ser – e rimo-nos.
A viagem, em finais de Setembro, de 1964, fugia à regra do equinócio e deu-nos a oportunidade de demoradas conversas com o diplomata do "Carvalho".
Ao outro dia, lançáramos a poita na mesa do médico e nunca mais o largaríamos até ao final da viagem.
Ao terceiro e último dia, numa directa para Ponta Delgada, não largávamos o médico, que a viagem era curta para tanta prosa, e da boa.
Depois do último pequeno almoço, ainda com a poita bem engalfinhada, ouviu-se, com surpresa, o pio de uma garça, contornando, num largo voo, o cano grande do navio. O paquete rasgava as águas sem alarido, como um tubarão voraz, correndo silencioso em direcção à primeira presa da manhã.
Via-se já, a estibordo, a ilha, parecendo ao longe um enorme monstro marinho, ainda da noite adormecido. Chegou-se-nos um oficial, alto e de meia-idade.
- Bom dia, meus senhores e meu caro doutor, é como eu lhe dizia ontem, a ilha nunca é igual.
- Hum... vejo que a monotonia, para o senhor comandante, tem variâncias rebuscadas.
- Rebuscadas?
- Repare na linha de uma circunferência...
- Que é que tem? - indagou-se curioso.
- Não vê que é monótona, fastidiosa... - e o médico sorveu o fumo do seu cachimbo.
- Lá está o doutor, e sempre o seu ângulo matemático de ver as coisas.
Era assim o médico de bordo e o tempo dele parecia parado no tempo dos tempos.
- Sabe, senhor comandante, quando, ao amanhecer, espreito, pela vigia do meu camarote, o tempo como está e avisto, ao longe, a silhueta escura da ilha, rodeada de uma vastidão sombria, a primeira coisa boa que me ocorre é o café da manhã.
- Ia a supor uma outra coisa... algo de sublime e raro - gracejou o timoneiro - mas se, ao menos, lhe sabe bem o café, então a ilha é bem-vinda.
- Traz-me sossego...

06 abril 2006

AGORA, RUMO A LISBOA


Agora que a Madeira ia ficando para trás, esfumada num fraco lampejo de uma tarde que esmorecia, como se fora o passamento sereno de um moribundo, sob um tecto de nuvens baixas, a ideia de chegar a Lisboa iluminava-se como se a pudesse ver já ao longe.
O navio pareceu parar, e eu pensei que uma avaria estivesse para acontecer. Não. Como em tudo, há sempre gente bem informada que sabe das coisas; por isso, me disseram que era uma manobra, na ponte, para assestar as agulhas. Então, não sendo mais do que uma certeza sem surpresa, fiquei descansado que o rumo era mesmo Lisboa.
A vida a bordo era um regalo a que eu não estava habituado. Voltei para o salão e apeteceu-me encontrar gente de quem pudesse ouvir coisas novas, e que eu lhe pudesse dizer, também, que era alguém que viajava com o prazer da primeira viagem.
- Vão para Lisboa? - perguntei a um casal de meia-idade.
- Não, vamos para o Porto - respondeu-me o marido, um sujeito de boa apresentação, com um riso peculiar no olhar.
- Mas, então... julgava que o barco ia...
- E vai; claro que vamos para Lisboa, mas depois vamos para cima, para a Invicta - atalhou ele, com bonomia, ante a minha hesitação.
- Mas não são do Porto?
Ele abriu-se num riso largo e continuou, como se estivesse a ensinar o filho mais novo:
- O Porto é conhecida pela cidade invicta, não sabia?
- Sim, sim - respondi com evidente atrapalhação.
Durante o jantar, conversámos sobre a viagem, falando eles das belezas de São Miguel e de alguns recantos, com certos pormenores, que, francamente, eu ignorava, mas, com algum engenho, fingi conhecer.
Depois, passámos os três pelo salão, por pouco tempo, porque, de comum acordo, entendemos ser prudente acomodarmo-nos mais cedo.
E tinha já muita coisa que contar aos meus pais na primeira carta que lhes escrevesse de Lisboa.
Estava, na verdade, a passar por momentos nunca dantes vividos. A ilusão do fulgor do ambiente requintado de um bom paquete, aliado ao frenesi social, fez, obviamente, os seus estragos. Portanto, sentia-me como se fosse uma espécie de único passageiro, ou, então, uma pessoa que foge à regra da vulgaridade, que é preciso atender com um misto de deferência e obrigação – mas foi sol de pouca dura.
Com a Madeira, perdida dos nossos olhos, e a sensação de ter o "Funchal" bem ao centro na noite escura, o imenso mar, a bater rijo no costado e nas vigias, encapelou-se e fez dele o que muito bem quis; ao contrário do que se dizia, a Jóia da Insulana, com estabilizadores e muitas outras mordomias, voltava a animar-se sobre as águas, como qualquer outro navio e eu não tive outro remédio senão o refúgio da cama; aí se quebrou, de vez, o encanto de ser o tal passageiro sui generis, para ficar acorrentado ao camarote e de castigo.
Ao outro dia, a ondulação teimava em ser nossa companheira de estrada e o camaroteiro, atento aos seus pacientes, permanecia zeloso no seu posto.
- Então... já falta pouco para chegarmos a Lisboa... - gracejou-me com mais duas laranjas, descascadas a preceito.
E, de facto, umas horas mais tarde, o paquete serenou o bastante para que passasse a ouvir um reboliço nos corredores. Afinal, grande parte da clientela daquela viagem passara, como eu, agarrada à cama, porque, mesmo que pretendessem dizer o contrário, as faces descoloradas não deixavam mentir.
Ao fim da tarde, o "Funchal" estava já Tejo acima e eu pude ver a famosa Torre de Belém e os Jerónimos. Era aquilo mesmo que eu esperava, tantas vezes tinha apreciado aqueles vetustos monumentos no meu compêndio de História.
E, em marcha reduzida, mais uma vez o paquete, que eu sonhara ser um palácio flutuante, encostava ao cais da Rocha, cortejando a capital com mais três apitos.
Em terra firme, mas com o balanço ainda presente, respirei de alívio e logo abracei o meu saudoso irmão Nuno, numa ternura que só o sangue compreende; e lá fomos jantar no “Arménio” um restaurante da rua Conde do Redondo, onde ele era comensal.

05 abril 2006

OS TRÊS APITOS DA PRAXE


De facto, ao outro dia, manhã cedo, o "Funchal" bordejava a ilha da Madeira e, melhor, parara de balancear, o que me deixou muito mais tranquilo. Pela vigia, espreitei a ilha, e, subitamente, se apoderou de mim um êxtase raro, como se avistasse uma espécie de éden, onde só as divindades afortunadas se deixam levar a passeio. Afinal, privilégios de quem viajava acima da linha d'água e com vista para o mar.
Aprontei-me rapidamente e subi ao convés, para melhor apreciar o que me parecera uma maravilha. A manhã estava calma e uma brisa doce, vinda de terra, bafejava num combinado singular de maresia e de cheiros da densa vegetação, já ali tão perto na costa. Estava-se mesmo bem.
- É Câmara de lobos - disse-me, num tom lacónico, um passageiro madrugador.
- É mesmo lindo! - e, num assomo de grande convencimento, reforcei - nunca vi uma tal beleza assim!
O diálogo parecia ficar por ali, não fosse eu a insistir do conhecimento que tinha de alguns pormenores da ilha, e, por isso, acrescentei:
- Meu pai disse-me que esta era a vila de que Churchil se apaixonara.
Ele olhou-me de cima a baixo, de gargalo empinado, como se, para um rapaz de vinte anos, fosse uma matéria interdita, uma coisa só própria dos seus sessenta e tal anos; era um fulano alto e magro, algo carrancudo, e seria um pouco mais velho do que o meu pai.
- Sim - respondeu-me secamente.
- Ele gostava de pintar estes sítios, tendo por companhia os seus inseparáveis charutos - tentei ainda comentar sir Winston para manter vivo o palavrório.
Mas o companheiro, que eu julgava ter conquistado para uma conversa amena, desapareceu dali. Era assim, naquele tempo...
O "Funchal" continuava, agora, numa viagem preguiçosa, a caminho do porto e eu fiquei-me por ali, até que outros passageiros se foram chegando, para engrossar a curiosidade de ver a ilha.
Por fim, num movimento compassado, à mistura com toques de sinetas a bordo, que eu entendi serem ordens de marinhagem, o elegante paquete da Insulana encostava à doca da cidade que lhe deu o nome, voltando aos três apitos de cortesia.
Era o dia 26 de Dezembro, por sinal véspera do 60º aniversário do meu pai e logo me recordei do que ele, esse querido professor, me dissera, "tens muitas coisas para ver lá".
Portanto, era preciso sair e apreciar, de perto, os encantos de uma cidade viva de gente. Passeei-me, então, pelas ruas de calçada negra e luzidia, mas escorregadia como uma pista de gelo. Cruzei-me com gentes que não lhes entendia a fala, certamente alemães, suecos e outros, já que, de ingleses e franceses, os percebia, nos mínimos, do que me tinha ficado do liceu.
Fascinado pela correnteza cosmopolita da cidade, pois eram muitos os turistas, vim a saber que ali estavam para a quadra festiva daquele Natal de 1963. E, entretanto, muitos outros viriam, ao que me disseram, para a passagem do ano, dali a quatro dias, fugindo assim aos rigores do inverno do norte da Europa.
Fui ver, como o meu pai me dissera, onde desembocavam os "Carrinhos do Monte" e não resisti em subir ao "Terreiro da Luta", para uma escorregadela até à baixa. Foi uma sensação de quem revoava sobre a cidade que eu só um pouco imaginara. E muitas outras coisas havia para ver, conforme as recomendações que trazia, mas o tempo não chegou mesmo.
De regresso ao paquete, notava-se já uma afluência maior de passageiros e um corre-corre de bagageiros e gente subindo e descendo a escada do portaló, alguns deles visitantes, que apreciavam uma bebida nos bares do navio. Tudo possuía um encanto especial que não tinham os cafés em terra.
Senti-me outro; tivera um dia em cheio como nunca; e, assim, do lado de bombordo, me dispus a assomar à amurada, onde a vista da cidade era soberba, com o casario a perder-se desordenadamente, pela encosta acima. Para ali fiquei esquecido de mim, embevecido que estava pela luxúria da paisagem prostrada a meus pés.
Algum tempo depois, o apito de um rebocador, em manobras de cais, fez-me despertar. Dei-me conta que, do outro lado de estibordo, os passageiros se apinhavam para as despedidas; e, já faltando pouco tempo para a saída do paquete, os últimos visitantes se apressavam para abandoná-lo, porque, nos altifalantes de bordo, se pedia a sua saída.
Depois, reparei que só eu e o tal sujeito sorumbático – aquele com quem estivara à fala, de manhã – estávamos daquele lado do convés; então, em jeito de etiqueta, voltavam os três apitos da praxe.
Indiferentes – e quanto me custou! – ficámos os dois mudos e quedos.
"Até Lisboa..." - apeteceu-me dizer-lhe.

04 abril 2006

ACIMA DA LINHA D'ÁGUA



Com destino a Lisboa, o "Funchal" partia dentro de duas horas naquela véspera do Natal de 1963, um dia naturalmente muito querido. Havia muita gente no cais à mistura com os passageiros, tudo numa grande confusão, mas que jogava bem com o dia de São-Vapor.
Não foi fácil arranjar um bagageiro, porque pareciam farejar os melhores clientes. E, antes que tivesse de ser eu a carregar com as malas, agarrei no braço de um que vinha descendo a escada.
- Olha, Chico, são estas e eu vou contigo.
- Não é preciso, patrão, não há que enganar - respondeu-me com as duas malas na mão.
- É que nessa, aí, vai um acordeão - disse-lhe, receoso de que deixasse a bagagem perdida pelos corredores do navio.
- Ah... - exclamei, percebendo-lhe as intenções e acrescentei à conversa uma moeda que ele, evidentemente, esperava.
Apressei-me nas despedidas, deixando um beijo em cada um dos meus e, num ápice, subi a escada. Olhei para trás, num relance de dar um último adeus, e, tropeçando no cimo da escada, quase ia caindo nos braços de um agente da PIDE; "este vem a dormir", resmungou num ar de sem-cerimónia que me deixou, deveras, agastado. De súbito, apoderou-se de mim uma angústia, como se algo pudesse estar errado nos meus papéis, por exemplo, a passagem ser a de outra viagem que não aquela, etc...
Franqueei o portaló, onde estavam, também, os oficiais de bordo e outras autoridades, e logo me devolveram a papelada. Explicaram-me que, por ser véspera de Natal, havia menos passageiros, trocando-me, por isso, a cabina. É que, em vez de ser interior e com quatro beliches, viajava agora em "turística superior", só com duas camas; era como se viajasse acima da linha d'água e, ainda, com vista para o mar....
Feliz com a troca, desci até ao meu camarote, mas fiquei transtornado por não ver as malas lá. Lembrei-me que talvez estivessem na cabina para onde estava destinado. Precipitei-me pela escada, dois decks mais abaixo, e nada... nem vi ninguém por ali. E, quando voltava à minha cabina, vi o Chico de costas, que lavava outras malas. Corri para ele, com preocupação:
- Mudaram-me de camarote, onde é que estão as minhas malas?
- Eu já sei, patrão, as suas malas já estão lá.
- Não estão, Chico.
- É verdade, patrão, isto aqui não tem que enganar - volveu com o seu ar expedito. Dei-lhe mais um trocado, pois merecia-a.
De facto, já lá estavam. Agora, quem quer que viajasse na outra cama, não tinha ainda aparecido. Achei uma cabina muito acolhedora, tão diferente do quarto da minha casa antiga, grande e fria, na Ponta Garça. Todo o chão era alcatifado e o mobiliário parecia de uma madeira bem diferente da nossa acácia, proporcionando, com as suas cores claras, um ambiente leve e harmonioso. Experimentei a cama e refastelei-me por uns instantes; é que viajar, pela primeira vez, para Lisboa, no melhor barco da Insulana, era motivo para ocupar grande parte dos devaneios de alguém que tinha só vinte anos. Desfiz a mala e arrumei, com desvelo, as minhas roupas, algumas delas novas.
De seguida, deixei o camarote e, na amurada, acenei para os meus que permaneciam ainda no cais. Apetecia-me gritar-lhes, cá de cima: "eu viajo em turística superior!"; isso e muitas coisas mais, havia de dizer, mais tarde, por carta.
Enfim, de mansinho, o barco afastou-se do cais e, devagar, zarpou de Ponta Delgada, soltando três apitos, deixando atrás de si uma amálgama de braços a agitarem lenços, que me arrancaram uma furtiva lágrima - pois era novo e não devia chorar.
Passei a tarde no salão a ver jogar à batota e, depois, voltei ao camarote e vi que viajava sozinho.
Até ali, tudo corria bem, sem o mais leve sintoma de enjoo e adormeci, diria, como um anjo... Mas qual quê? Caí, sim, num sono agitado, inventando um gatuno pelo camarote adentro, a derrear-me a ilharga para me arrancar a carteira. Nisto, acordei com toques à porta.
- Quem é?
- Por favor, é o camaroteiro.
Aliviado, abri-a, mas escorrendo em suores...
- Sempre que queira alguma coisa, é só chamar - disse em tom cortês, parecendo-me uma rotineira caça à gorjeta; mais tarde, veria que me enganara.
Voltei à cama, exausto, e deixei-me arrastar pelo tempo, até que uma música, parecendo de sininos, me trouxe de novo ao paquete - era o moço do xilofone, anunciando o jantar.
Perto da meia-noite, e já deitado, voltou a música do simpático xilofone. Acorri ao corredor e disseram-me que ia ser servida a ceia da consoada.
Alinhei com entusiasmo naquela ideia de comer requintadas doçarias, próprias da quadra, e lá fui. Pois não imaginam a tamanha decepção, quando vi ser-me servido um prato de bacalhau-com-todos, que eu, como os outros, reguei com muito azeite.
O resultado foi, tão-só, cair num grande mal-estar, que, com o balancear da inconstância de ser inverno, me levou a enjoar, até à Madeira, sem nunca mais me ter levantado da cama. Aí, sim, chamei o camaroteiro, porque era mesmo preciso.
- Amanhã estaremos na Madeira - comentou o meu lugar-tenente, servindo-me duas laranjas, primorosamente descascadas.