WE ARE THE ALEXANDERS
A vida tem destas coisas, prega-nos às vezes partidas e, portanto, há que sair delas depressa para não sermos enredados e perder o fio da conversa.Foi isso mesmo que me ia acontecendo, quando viajávamos de Nova York para Ponta Delgada, no "Queen Anna Maria", já lá vão trinta anos.
O navio largou meia-tarde e fez-se ao rio Hudson, num grande vagar, como se tivesse receio de entrar no mar alto. Foi óptimo, porque deu para apreciar as imponentes torres da grande metrópole, que eu me fiquei a pensar se aquilo poderia caber em outro sítio da terra. Claro que caberia, e bem, mas alguém faria o Empire State apenas num ano?
E decidi refazer a minha dimensão à medida da ilha que, dali a cinco dias, me haveria de receber. Voltar a casa era mesmo bom, foi o que concluí do meu devaneio pelas grandezas que outros, ansiosos por poder, deram forma à prodigiosa imaginação humana.
Entrámos, enfim, no mar aberto e para trás ficou um outro mundo, que nunca seria o meu, mesmo que fosse instalado na melhor suíte do Sheraton da grande cidade, arranhando os céus...
A viagem estava a correr bem, com mar calmo e bom passadio a bordo. Mas os dias passavam-se na monotonia dos corredores a caminho da sala de jantar e do salão da turística, sem conhecer viva alma. Eram, na sua maioria, gregos, malteses, cipriotas e alguns italianos e pouquíssimos portugueses, para além de nós.
Ao quarto dia, o mar encapelou-se, com a aproximação dos Açores, e o paquete deu um ar da sua graça e balanceou a gosto, num passo de valsa lenta... Nada de mais, éramos já marinheiros experimentados.
Durante o jantar, fomos informados pelos altifalantes de bordo que o comandante oferecia a todos os passageiros, que o quisessem, um cocktail no salão da 1ª classe, seguido de baile, “boa ideia...” - disse para minha mulher.
Descemos ao camarote para nos vestirmos a preceito e lá fomos a caminho da festa. Entrados no salão, logo decidimos arranjar um lugar, onde nos sentássemos, que o equilíbrio não era nada fácil. E logo um cavalheiro, de meia idade, de pronto nos ofereceu a sua mesa, para partilharmos o serão com ele e a sua mulher.
Aceitámos de bom grado a gentileza e ele, numa pose de um gentleman simpático, apresentou-se-nos, a si e à sua mulher, nestes termos:
- We are the Alexanders.
Fiquei quase sem resposta, surpreendido com a sua elegância, em retoques de um inglês perfeito.
Num rasgo de sorte, saí-me da mesma forma e devolvi o cumprimento:
- We are the Sampaios.
- Pardom - não tinha percebido o nosso nome.
- I'll spell out - soletrando-o pausadamente, acrescentei que éramos portugueses.
- O.k.! - e foi o bastante para iniciarmos uma conversa agradável, enquanto saboreávamos uma taça de espumante.
Quis saber de que parte éramos, se de Lisbon or Oporto.
Quando lhe disse que vivíamos in the Azores, Mr. Alexander surpreendeu-me de novo, perguntando-me se éramos da Terceira, e continuou a falar sobre a importância que a ilha tinha no contexto estratégico da política externa do governo norte-americano.
De qualquer modo, valeu a pena passar da sensaboria das refeições amiúde, para uma simples taça de espumante, servida com uma boa conversa em inglês repuxado.
O navio prosseguia no seu bailado e, apesar disso, fomos à dança, por sugestão da mulher dele. Mas pouco durou o tempo de valsa, porque ninguém conseguia acertar o passo com o balanceio do paquete, pois ser-se marinheiro aprende-se depressa, mas bailarino é outra louça...




