28 abril 2006

UM ITALIANO EM APUROS


A meio da tarde, a lancha deixava o porto da Casa, de regresso à ilha das Flores, e para trás ficara a mais pequena jóia do colar açoriano, embrulhada num desejo de um dia voltar.
É que, de tão pequena que é a ilha, que pouco tem para nos mostrar, não poderia esquecer aquela mãe, a receber a filha no cais, com um bule de chá, agasalhado num abafador de lã, “tome também, minha senhora, que está tão pálida”, disse a prestimosa corvina para minha mulher, que havia enjoado.
Bafejado por aquela lembrança grata, e a lancha, galgando a ondulação, despedi-me daquele rochedo, onde se aninha uma paz, que, até hoje, nunca mais encontraria em nenhuma parte.
Agora, mestre José Augusto, o grande timoneiro daquele canal de arrojadas travessias, deu uma olhada pelo mar, que tinha pela frente, e gritou da proa, para aquele punhado de turistas, “nós não vamos para as Flores!”, e todos se riram do gracejo. Mas o destemido lobo do mar, vendo que não o tinham levado a sério, voltou à carga, “é verdade, nós não vamos para Santa Cruz”. E todos, entre portugueses, franceses e italianos – éramos uns doze –, olhámos uns para os outros, já que ele se expressava, minimamente, nas outras duas línguas.
Na realidade, o comandante-em-chefe daquela expedição de marinhagem veraneante, queria dizer que não íamos já para a ilha das Flores, onde decidíramos passar uma semana de férias, naquele Agosto de 1976.
Com efeito, ele começou a abrir o jogo, reduzindo a marcha da embarcação, mostrando-se num vasto sorriso, que lhe iluminava o rosto, tisnado do sol, seu melhor companheiro de viagem, “quem trouxe fato de banho que se prepare”, e dali a pouco a lancha estacava, aninhando-se no meio daquela concha protegida pela altíssima falésia a precipitar-se, a pique, mar adentro, como se encostasse ao cais de Santa Cruz, já o mar se acalmara.
“É aqui”, disse visivelmente satisfeito, por nos querer proporcionar um inesperado mergulho, em águas tépidas, aquecidas pela rocha exposta àquele sol escaldante.
E mais surpresas tinha mestre José Augusto.
Com o último a trepar, a custo, o costado da lancha, todos a bordo o brindaram com uma bem merecida salva de palmas, “bravo! bravo!”, gritou um dos italianos e o comandante deu força à vante, e zarpou daquele lugar de sonho.
A surpresa seguinte estava a pouco mais de uma milha dali, encostando ele a lancha ao calhau, “essa água, ali em cima, é boa para quem quiser que o cabelo cresça...”, e virou-se para o italiano careca, passando as mãos pela cabeça, para que ele o entendesse.
Logo o grupo foi saber das virtudes daquela água miraculosa. Claro que, nesse tempo, tinha eu menos vinte e sete anos, era novo, a cabeleira farta, e apenas constatei que a água não era fria, não, era mesmo bem quente.
Agradados com a surpresa, voltávamos nós à lancha com o italiano careca a deixar-se ficar para o fim, para poder beneficiar, em plenitude, tudo o que a pródiga água tinha para lhe dar.
O curioso é que ele, o italiano, em vez de seguir o conselho do comandante, ou seja, passar só as mãos pela cabeça, pôs toda a careca debaixo da água que corria farta.
Ainda estou a ouvi-lo aos gritos, “calienta! calienta!”, e desatou a correr pelo calhau abaixo, com todos nós a bom rir, especialmente o maroto do comandante, que tinha pregado mais uma das suas partidas...
E mais coisas há para contar dessa viagem, que a generosidade do mestre parecia não ter fim. Fica para outro dia.
Agora, muito gostaria que esta crónica chegasse às mãos de mestre José Augusto, para que ele pudesse voltar atrás no tempo, e divertir-se novamente com o sucedido.
Aí vai um abraço, comandante.

27 abril 2006

UM VIAJANTE MUITO SIMPÁTICO

Lisboa estava a ficar para trás, e muitos dos passageiros ainda permaneciam na amurada a namorar-lhe o casario. Acabáramos de passar sob a ponte, e um cavalheiro bem vestido, a meu lado, deitava um último olhar sobre a margem norte, dando a entender que conhecia bem aquelas paragens da cidade, “é uma cidade sempre bonita”, ouvi-lhe. Ia eu a dizer-lhe alguma coisa, mas já ele abandonava o lugar e entrava no salão, seguido por outro passageiro.
A tarde derretia-se numa toada compassada, naquele princípio de Outubro, com as pequenas ondas a esmorecerem de encontro ao costado do navio. Deixei-me ficar até ao acender das primeiras luzes; “é Cascais, não é?”, disse uma senhora para o marido. E assim, a coberto de uma brisa esfriada, se perdeu a vista sobre o que restava da velha Europa continental.
O grande mar, agora, abria-se, de par em par, à imaginação de cada um. E quis ver, ao largo, as muitas naus com as velas inchadas do vento, que parecia soprar de nordeste, “devem ser as de Gonçalo Velho”, pensei. Fiquei algum tempo por ali, fascinado pelas fantásticas viagens dos nossos maiores. Por isso, fui dos últimos passageiros a deixar aquele lugar de sossego à mistura com muito mistério.
Até ali, não dera por nenhuma cara conhecida, e concluí: “vou ter que arranjar conversa para a viagem”.
A caminho das ilhas, o “Carvalho Araújo” deslizava sobre as águas mansas de um oceano, que acabara de adormecer, envolto pelo capote da noite escura.
E chegado ao salão, logo se fez ouvir o rapaz do xilofone, a anunciar o jantar. Aquele ar fresco, de há pouco, despertara mesmo o apetite, que logo fez levantar quase todos do salão.
Sentei-me, e aguardei pelos companheiros de mesa que iria ter; e curioso, a meu lado se veio juntar o mesmo cavalheiro, que eu supus ser dos lados de Belém, “não, não, – respondeu com manifesta simpatia – sou da Ajuda, junto a Cavalaria 7, conhece?”, foi o princípio de uma conversa de três dias.
Então, aquele cavalheiro quarentão, tinha eu vinte e poucos anos, de boas maneiras, trajando um terno castanho, de padrão príncipe de Gales, e que se deslocava aos Açores, por esta altura do ano, era um caixeiro viajante. Fazia a praça, duas vezes no ano, carregando vários baús com as últimas novidades em tecidos e uma sorte de outros artigos.
“É uma vida um pouco errante”, disse-lhe, calculando o enfado do afastamento da família. “sou solteiro”, respondeu com um largo sorriso. “Posso adivinhar-lhe o bom marinheiro que parece ser...”, gracejei. E ele, com elegância, passando o guardanapo pela boca, rematou, “marinheiro sou, e de muitas águas...”, e riu-se. Imaginei-lhe o pinga-amor, bem parecido, nas várias praças das ilhas. “Isso não – interrompeu-me o pensamento – que a minha vida exige boas vendas, e só isso; as águas, a que me referia, são estes mares, sempre diferentes: hoje um mar de azeite, amanhã o que será...”
Após o jantar, passámos ao salão para mais um pouco de conversa, e numa mesa, junto ao bar, já se jogava. “Aqueles quatro ali são meus colegas de profissão”, observou-me. E eu perguntei-lhe como eram as regras do jogo, já que eram, só ali, cinco os caixeiros viajantes, “sabe, cada um representa a sua casa, nunca há problemas”, esclareceu-me.
Deixámo-nos prender por um ror de curiosidades tão comprido, quanto o muito tempo que era todo nosso. E falou de muitas casas comerciais pelas ilhas, umas que eu bem conhecia, de Angra e de Ponta Delgada. “Claro que conhece os Armazéns Cogumbreiro”, adiantei à conversa o orgulho comercial da minha cidade, e a resposta veio-lhe pronta, “aquilo, mais do que uma grande casa, é uma rica escola de profissionais”. E tinha razão o simpático caixeiro viajante.
E contou-me que ficava pelas ilhas uns três meses, pois que eram muitos os comerciantes, que os procuravam nas salas de exposição. “Sabe, a casa que represento e todas as demais enviam, com antecedência, uma carta a anunciar a nossa chegada”, explicou. “Pelo que vejo, é uma vida interessante”, e ele, dirigindo-se ao bar, “é mais do que interessante, é apaixonante, pode crer; aceita um digestivo?”.
Mas aquele cavalheiro, de porte elegante, gentil, solteirão, arrastava a asa – viria a saber mais tarde –, por uma senhora de Angra, com quem viria a casar.
Em boa verdade, aquele companheiro de viagem, um viajante muito simpático que era, honrava sobremaneira a sua classe.

26 abril 2006

HINO BRASILEIRO













I PARTE

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada, Idolatrada, Salvé! Salvé!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
Terra adorada. Entre outras mil és tu, Brasil,

Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!

II PARTE

Deitado eternamente em berço esplêndido.
Ao som do mar e à luz do céu profundo.
Fulguras, ó Brasil, florão da América.
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores,
"Nossos bosques têm mais vida".
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".

Ó Pátria amada, Idolatrada, Salvé! Salvé!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verdelouro desta flâmula
Paz no futuro e glória no passado.

Mas se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada Entre outras mil És tu, Brasil.

Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil. Pátria amada. Brasil!

Para saber mais clique http://pt.wikipedia.org/wiki/Hino_Nacional_do_Brasil

Para ouvir clique http://www.exercito.gov.br/01Instit/Hinoscan/mp3/hinonacional.mp3

25 abril 2006

BRASIL CÁ DENTRO II

"A açussena quando nasce longe do pé, bota flor. Na ausência se conhece quem é firme em seu amor"
Folclore Catarinense

O Brasil, de épocas remotas, foi terra de esquecimento para alguns dos nossos. Quantas lágrimas, quanta angústia queimou em fogo brando os muitos corações que viram partir aqueles homens rijos, moldados a preceito na ilha, para a aventura do sertão. Não há palavras que sossegue um coração trespassado pela dor da grande viagem sem regresso.
É bom de ver agora que, ao menos, esses de antanho deixaram obra feita pelos quatro cantos desse gigante que é o Brasil.
Veja-se a romagem de uns tantos que, talhados pela arte dos sons, sentem mais alto o apego à terra que outros se viram na necessidade de a deixar.
Mas é hora de voltar para a Associação Coral de Florianópolis. E eles se foram com os olhos rasos, não de lágrimas, mas com a doçura das águas das lagoas, estreitando no peito a certeza de um dia voltar. Não sei se de tristeza, se de saudade, vi-os a todos como quem deixava o quarto, a casa, o amigo que se teve nas brincadeiras de criança. E um deles me disse:
- Olhe, você deve conhecer a canção do Jobim que diz: "tristeza não tem fim, felicidade sim...".
- E outras tantas mais - respondi.
- Eu sei que todo o mundo adora Jobim, mas te digo uma coisa, cara: na tua terra, felicidade é que não tem fim, não.
Não há maior prazer no mundo que é ter um amigo assim. É como ter todo o gozo das coisas, de uma só vez.
E como, só aos amigos, se conta uma história gostosa, ouvi esta, do alto do miradouro da Ponta do Sossego:
- Certa vez, um pequenino grão de areia, sonhador que era, olhou para o céu, em noite de lua nova, e viu uma estrela; e vai daí que logo imaginou coisas de amor... - começou o meu amigo a sua história encantadora, do modo que uma mãe embala o seu menino. Fez uma longa pausa, como se procurasse, mar adentro, mais inspiração. Depois, com o olhar perdido no meio do imenso mar, prosseguiu com toda a magia - muitos anos, mas muitos anos mesmo, se passaram, ela no céu, e ele à beira do mar. Todos afirmam que as duas criaturas românticas jamais se encontraram. Mas que houve alguma coisa entre eles, lá isso houve, só que ninguém pôde explicar - disse com um ar de profunda convicção.
Fiquei à espera, deleitado com toda a candura da história, já que ele continuava enamorado do muito mar que tinha pela frente. De repente, ele se vira para mim e me pergunta:
- Sabe, você, o que há de verdade em toda esta história?
Apenas sorri.
- É que desse sonho, desse grande amor, nasceu a estrela do mar.
Confesso que, naquele lugar paradisíaco, só essa história de encantar poderia ter lugar. Agora, imaginem, quando, mais tarde, ouvi o coral cantar, num doce tom menor, a linda história de amor - Estrela do Mar.
Mas, também, nos rimos muito com muitas conversas curiosas, durante o passeio ao Nordeste.
Com as surpresas que a ilha sempre revela, a toda a hora, chegámos à lagoa das Furnas para lhes mostrarmos as misteriosas covas dos cozidos. Viram, miraram, bateram fotos por tudo quanto foi sítio e, depois de tudo revisto e apreciado, há um que se deixa ficar para trás e me pergunta, à boca pequena, à porta do autocarro, quando quase todos se encontravam já lá dentro:
- Me diga uma coisa. Esse negócio, aí, não é gozação, não?

24 abril 2006

BRASIL CÁ DENTRO

"Há canções e há momentos, eu não sei como explicar, em que'a voz é um instrumento qu'eu não posso controlar"

Milton Nascimento


Nunca ouvi dizer a ninguém que a mediocridade pudesse morar em coração generoso. E, mesmo que isso viesse a ser verdade, só teria uma explicação: tratar-se-ia de uma qualquer disfunção cardíaca. Mas é bom deixar dito, e disso posso dar testemunho, que tal anomalia não existe no rol dos males dos nossos irmãos brasileiros, e muito menos nos cantores da Associação Cultural de Florianópolis.
Foi esse punhado de artistas, de sorriso perene e a voz toldada de emoção, que deixou por aí, de mão cheia, os sons da melhor alma brasileira e pelos recantos da ilha, eles, com ternura, esgaravataram para saber de suas raízes, espalhando o ritmo da terra catarinense, como que a deixar estampado, no verde majestoso do nosso grande Nordeste, a marca indelével da sua graciosidade e de serem mais uns dos nossos.
Não se poupando a esforços, em três dias muito cantaram. E, logo para Deus, cantaram primeiro num preito de tudo dever, emprestando muito fervor à Eucaristia da tarde do último domingo, na igreja de São Pedro. Faltava agora o preceito de César, o de dar à cidade o que, certamente com trabalho e dedicação, traziam na sua bagagem artística. Mesmo ali, no templo que louvaram o sagrado banquete, cantou a alma do povo, que quer a companhia do Bem junto de si.
A Universidade dos Açores, a seguir, quis também tê-los em sua casa, para os ouvir com a sensibilidade de mestres de outras artes, e os alunos, em troca, mimosearam-nos com os sempre bonitos mimos da academia.
O momento da despedida tem sempre um enlevo raro e - sempre foi assim - por isso é trabalhada e retocada. Aconteceu isso mesmo na igreja de Santo André. A rigor, com o brilho que se requer na hora da partida, rebuscaram o melhor que tinham nas pastas, para a todos - e muitos eram - provarem que sabiam da arte de cantar.
Essa gente - de Villa-Lobos e de Jobin, e de Venício e de Nascimento - é o que se vê. É um Brasil onde a imagem do Cruzeiro resplandece e a Pátria, sempre cantada a toda a hora, é mais amada.
E eu pergunto-me, que seiva te corre pelo corpo, grande Brasil?
Com graça e oportunidade crítica, um professor da Universidade Federal de Santa Catarina, quando lá estivemos, me asseverou: "isso aí, meu amigo, é genético...".
E é; que o digam quantos de nós, os da Associação Musical Edmundo Machado de Oliveira, que os acolheu, ouviram deles, com entusiasmo e um brilho gostoso no olhar, "nós somos daqui, não saímos de casa".
E uma vez que se tem gente dessa à nossa mesa, como sendo dos nossos, só nos resta a alegria de tudo dar e ficar contente, porque foi assim que aprendemos com a alma grande que temos, esse torrão de lava que sofre e ri, quando se é cantor.
Santa Catarina se foi da ilha, mas não da sua terra, porque, na Terceira, onde agora se encontram, querem ver com os seus próprios olhos mais uma terra prometida.
Com pasmo e respeito, como se a uma avó velhinha quisessem posar para um retrato de família, encontraram um pequeno mundo cheio de graça, um mundo de Ilhas de Bruma, de que falarei amanhã.

23 abril 2006

SAUDADES DO BRASIL EM PORTUGAL

Aquela senhora que, na companhia do marido, se apressava a tomar a barca no caminho de Niterói para o Rio, ouve o orfeão Edmundo Machado Oliveira, no Bay Market, cantando o refrão Coimbra tem mais encantos na hora da despedida... e lhe diz - "desculpa, meu amor, eu cá fico por aqui; não fica triste, não, vai andando, tá" -, e ele se foi... era a razão de ser da nossa deslocação ao Brasil. A sua avó era - que grande coincidência! - dessa cidade d'o Hilário disse um dia, ninguém mais será formado, quando a velha academia deixar de cantar o fado. É claro; tinha de lavar o coração nas águas do Mondego.
Se levámos as melhores canções portuguesas, decantadas pela voz do Aurélio, ou o mais genuíno do folclore açoriano, na serenata já está entrando à porta, numa harmonia que só os Furnenses souberam saborear num passado cheio de graça e beleza, foi como que arrancar, das rochas das Ilhas de Bruma, um grande bocado de nós e, de presente, dar de coração aberto a todos por igual, para, de volta, receber um largo sorriso, como se flores fossem em cachoeira.
O Brasil foi esse grande companheiro de estrada e, como bom camarada que é, deu-nos a conhecer outros companheiros, todos jóias, e logo o primeiro a agarrar-nos, ainda em Portugal, foi o Dr. Arídio Martins e a Cristina, que não largaram nunca o nosso pé, no Cristo Redentor, no Pão-de-Açucar, nos concertos e mais a cortesia da Casa dos Açores, do Rio, e até, no final da visita, lá estavam eles, em São Paulo. Que saco!
E todos os outros fizeram questão de forçar a barra; e vai daí, no primeiro dia desse mato que nos cavou fundo a alma, em Ribeirão Preto, o Dr. José Laguna e o José Infante nos brindaram, pela mão da Tereza, com um coral de meninos, que cantaram só para nós. Que bonito! Mas nós, todos vaidosos, no belo teatro Pedro II, respondemos ao desafio, e, gostosamente, ouvimos à saída, "estou encantada" e outro, "tudo tão lindo"; e tão lindo foi que o Dr. José Laguna lembrou, via fax, que se "estabeleceu um vínculo de bem-querer entre nossos povos, construindo uma sólida ponte de amizade entre os Açores e o Brasil, de Portugal a Ribeirão Preto".
De mão em mão, lá estava em São Paulo o Dr. Manuel António Ramos, com a Martinha e a mana Leonor, a receber, num grande abraço, um bom punhado de gente cansada do pó da estrada. Não quiseram fazer por menos - 5 estrelas de alojamento. E que bom foi o repouso dos heróis... Levaram-nos, então, a cantar em dois teatros e, depois, mergulharam-nos no coração da nossa diáspora - a Casa dos Açores. Aí, estávamos de volta a casa e está tudo dito.
Mas o brado ouviu-se longe, mesmo muito longe, ecoou na ilha de Santa Catarina e logo apareceram outros companheiros, o professor doutor Nereu do Vale Pereira e o maestro Teixeira da Rosa. Logo no primeiro almoço, um estudante, à entrada do refeitório da Universidade Federal, me disse: "se esgaravatarem a terra aí, vão encontrar as vossas e nossas raízes". Brasil, assim, é muito mais lindo, apeteceu-me dizer-lhe. Virei-me para o professor, "explique-me, a que se deve esse sorriso dos brasileiros, que sempre nos acompanha desde Ribeirão Preto?", "isso aí, meu amigo, é genético", foi a resposta sábia. Era, assim mesmo, o nosso bom irmão; e dissemos-lhe, em recado do nosso Presidente do Governo, "cinco séculos de História deram-nos um passado comum, uma língua comum, e um património perdurável no futuro, porque bem arraigado nas nossas vivências e na nossa afectividade". Mas ele, o maestro catarinense, na volta do correio, ou o tal de fax, diz assim, "saudamos em nome do Instituto Histórico e Geográfico, os 105 açorianos ... trazendo música em seus instrumentos e em suas vozes, cantigas, que por certo, os primeiros imigrantes também as executaram e entoaram".
Na Catedral Metropolitana de Florianópolis, estavam três corais à nossa espera para lhes fecharmos a porta do seu concerto Clássicos na Catedral, e o público, sempre o grande juiz, não arredava pé, bravo, bravo, bravíssimo, e com todos os corais, em apoteose, cantámos o Hallelujia de Haendel.
Tão eloquente foi esse Finale, que, em Itajaí, ainda ressoavam esses sons maravilhosos, e depois de um breve descanso, mais uma vez, no melhor quarto da cidade, estávamos perfilados, na sua bela Catedral, encerrando a nossa digressão artística. Tão curta a vida para tão grande tarefa, "vocês conseguiram escrever nos nossos corações o capítulo mais bonito da História da Imigração", assim o disse, via fax, o Dr. Mauro Machado.
Mas mais Brasil estava pela frente - o grande sertão - esse mato que cantei, rezei e chorei. Parecia que ainda se podia ouvir o índio, "é por aí, sim". E era, de facto, a longa marcha para Iguaçu, a sentir, mais que ver, a mão de Deus: fica por aí, estás perto do Paraíso.
Fica-nos a sensação, por aquilo que temos ouvido e lido nos jornais e revistas, de que o Orfeão Edmundo Machado de Oliveira permaneceria dois, três, quatro meses, por terras do Brasil, tal foi o bom acolhimento que teve. E não me reporto apenas ao coração da diáspora, nas Casas dos Açores, no Rio e em São Paulo. Foi o Brasil, por onde passaram, em mais de 8 mil km., que vibrou com os sons destas Ilhas de Bruma, embalados na dolência das ondas, como aquela senhora que, a passar no Bay Market, onde actuava o Orfeão ao ar livre, em Niterói, indo a caminho do Rio, diz para o marido, "olha, amor, eu cá fico-me por aqui, não faça essa carinha triste, não, tá?", e ele se foi...
Hoje, do sertão, esse grande companheiro de estrada, restam as melhores saudades do Brasil em Portugal, e o orfeão ainda se recorda deles, dos que os ouviram, "estou encantada, cantaram mesmo benzinho...", e um outro cavalheiro, "tão lindo, foi tudo bom!".
Quem, de nós e vós, pode esquecer um amigo, uma qualquer pessoa que nos ouve com agrado, uma terra hospitaleira, que teve sempre um sorriso estampado no rosto? É, por isso, que as saudades moram, sempre ao nosso e vosso lado, e são elas, precisamente, que levam o Orfeão bem longe, cantando a ardência das caldeiras e em mimos de rara beleza a ternura das hortênsias, bem espelhadas na doçura das lagoas.