12 julho 2006

O balancé do chair-a-banc

Entrado no calhambeque do tempo, com a brisa fresca de um norte seco destes dias, e tendo esse bom caminheiro de calçada, o sol todo de fora, por companhia, dei comigo perdido em lembranças, já que, vendo muito pouco – essa saborosa vantagem de ter amigos que se plantam à minha frente, e me dizem, “oh Sampaio, sou eu” –, toda a atenção ia direitinha para o que mais gosto – o devaneio.
E, então, no dobrar de uma esquina desse tempo de bonança, estava aquele ar de frescura de uma manhã de domingo, naquele balancé de chair-a-banc do nosso primo Antonino, que Deus o tenha, a caminho de Vila Franca, em dia de procissão do Senhor da Pedra.
Lavado a preceito numa grande banheira de madeira, na noite de sábado, aliás um dia de lavações gerais lá em casa, e calçado e vestido a rigor, ia contente para a festa, com a promessa de ter uns “fresquinhos” de serrilha para o arraial.
Pode parecer, nos dias que correm, uma sensaboria gratuita, mas, nascido eu numa freguesia, longe daquilo a que, na altura, se chamava de conforto dos tempos – água canalizada e luz eléctrica –, andar de chair-a-banc era muito melhor do que ver as pessoas, a pé, a ficarem para trás.
O nosso primo não dava descanso ao macho, que, nos outeiros, subia mais devagar, para retomar, nas chãs, o trote cadenciado, que outra coisa não tinha a cavalgadura que não fosse o caminho pela frente, “eu sei o que ele quer...”, gracejou, e achegou-lhe, ao pêlo, três retinentes chicotadas.
“Vamos, ainda, muito a tempo”, disse meu pai, dando a entender que a alimária não merecia aquele castigo, “não, primo, ainda tenho mais um frete para a procissão”, respondia ele já a chegar à Vila.
Foi então que as ferraduras do macho começaram a matraquear, a compasso, na calçada, e o chair-a-banc, pintado de verde e com vivos vermelhos, fazia-se vistoso, entre os da sua classe, correndo na rua direita, com o nosso primo Antonino, de sorriso rasgado, aos comandos da besta.
E eu cavalgava a minha fantasia de ser um forasteiro com privilégios de poder ouvir as bandas, “é a nossa, as duas da Vila e a de Água de Pau”, acrescentou meu pai, que havia lido na “Crença”. A nossa, a “Lira do Sul”, garbosa, ombreava com as outras, no cortejo, coisa que me encheu de orgulho.
Era, de facto, um acontecimento maior para um rapazinho de dez anos, com a quarta classe feita, deliciado com as férias grandes, aquelas que sabiam mesmo a descanso.
Agora, estava à vista o meu primeiro ano no Liceu e mais um mês e tal para ver as canas a espigar e, sem remédio que me valesse, as férias a acabar.
O Liceu viria a ser o melhor tempo da minha mocidade. Aquele casarão, que eu avistara, só por fora, fascinava-me de tal forma, que eu não pensava noutra coisa, queria senti-lo por dentro.
Hoje, carrego as memórias de um ou outro “medíocre”, de muitos “suficientes”, alguns “muito-bons” e um “óptimo”, e, muito principalmente, a excelência de grandes amizades.
Olhando pelo retrovisor do tempo, e empoleirado nesse famoso calhambeque de lembranças gratas, não sei se é assim tão melhor o tal conforto dos tempos – água canalizada e luz eléctrica.
Agora, como se tudo pudesse voltar ao mesmo, o que mais gostaria era mesmo o balancé de um chair-a-banc, lá isso era, a caminho da Ponta Garça.

O comboio para as Furnas

Contava meu pai que o meu avô era uma criatura arrojada, empreendedora, sem impossíveis à sua volta; numa palavra, era um homem decidido.
Não satisfeito com os horizontes acanhados da sua terra, cedo desandou da Ilha, nos meados de 1903, com a promessa de voltar à Ponta Garça, folgado de vida.
Embarcando, de penedo, para a Califórnia, sem ainda conhecer o único filho, que havia de nascer uns bons meses depois, tinha que desbravar, à sua maneira, a grande pradaria americana.
Por lá ficou uns longos dezoito anos, embrenhado na criação de gado de vária sorte, voltando à terra, como previra, bem prevenido de fazenda e de alfaias agrícolas nunca vistas na pequenez da sua terra.
E logo arregaçou mangas para desmoitar os matos, que lhe vieram, por herança, dos seus, e mais uns cerrados a que deitou a mão, “terra quanta a vejas”, dizia ele ao filho.
Alentado o tempo todo, o sol não o apanhava na cama, pois tinha sempre um ror de coisas, que careciam da sua presença, “e isso, de levantar, ainda de madrugada, herdei dele”, dizia meu pai.
Os mais velhos da freguesia, ainda hoje o recordam pelas suas proezas. E foi isso mesmo que eu quis recordar de viva voz, do senhor João Cabral, “tinha a cabeça a fervilhar de ideias”, disse para começo de conversa, “imagina só aquela lembrança do comboio...”, começou por falar, assim dele, o irmão de meu sogro, a caminho dos oitenta e oito.
Acerquei-me melhor dele para nada perder da nossa conversa, e comentei benevolente “os anos não lhe pesam, senhor João”, e ele, ciente do tempo que já não volta, “vamos passando de um dia para o outro, meu querido Joãozinho, até Deus querer...”, e levou a mão à cabeça num jeito de tirar o chapéu, já que não o tinha, por respeito à palavra sagrada.
E, então, contou a história do comboio, com os retoques do tempo antigo, “o senhor Chiquinho Bento, teu avô, meteu-se com o tio Antonino da Lomba, e os dois engendraram e fizeram uma carruagem muito alta, com dois andares, atrelada a um carro de bois, que servia de rodeiro”. Sem perceber bem para que serviam, comentei admirado, “dois andares?!...”, e ele pronto na resposta, “o de cima, para a Banda de música, e o de baixo, para os convidados”.
Pensando eu que a Banda era reduzida, repisou entusiasmado, “qual quê, era a Banda toda, aquilo era muito grande, um louvar a Deus!”, mas ainda querendo saber mais, “e os convidados?...”, indaguei sempre curioso, como se nunca tivera ouvido aquilo. E ele prosseguiu com a explicação, “teu avô tinha cada ideia... lembrou-se de ir, numa embaixada, cumprimentar o senhor padre Botelho”, e olhou no longe, como quem espera alguém na curva do Caminho Novo, e rematou, “que a Ponta Garça se deve sentir muito honrada dele”.
E lá foram, num domingo de manhãzinha, depois da missa, para as Furnas, puxados pelas melhores duas juntas de bois, “uma da nossa casa e outra dele”, precisou. E lembrou-se de mais um pormenor curioso, “a Banda, ali à ponte, tocou um ‘Ordinário’, a despedir-se da Freguesia, por ordens dele; teu avô pensava em tudo”.
Imagine-se todo aquele aparato na subida íngreme do primeiro outeiro, “foi preciso que ele se descesse e tangesse a boiada, de aguilhada na mão, porque o Lomba não dava conta do recado, teu avô era um homem rijo”, concluiu simplesmente.
Com os bois sob controle, o comboio lá galgou o primeiro e todos os outros outeiros, até à estrada, "na vida, só se anda p'ra frente, Antonino!", foi o que se ouviu dele, voltando para o andar de baixo para junto dos convidados, “e quem eram eles?”, perguntei, “iam as gentes importantes da terra, cuido eu, pois aquilo não era uma embaixada para o senhor padre Botelho?”. Perguntei, ainda, se ele levara o filho, “não, teu pai andava a estudar lá fora”.
E, já agora, um aparte, porque não retira a Junta de Freguesia o senhor padre Botelho do silêncio soturno do cemitério das Furnas e coloca o busto de tão ilustre padre-poeta, no jardim junto à igreja, a que ele deu início?
E aquele homem, o senhor João Cabral, de uma ninhada de dez filhos, tio de minha mulher, de lembrança ainda bem arejada, muito amadurecido dos seus quase noventa, aprimorou, “hoje, faz-se melhor, certamente, até se vai à Lua; mas, no tempo que me criei, só o teu avô, o senhor Chiquinho Bento, para se lembrar de uma coisa assim – um comboio para ir às Furnas...”.

Um dia de muito mar

Estou de volta, como prometi, para recordar a galhardia do velho lobo do mar, do canal Flores Corvo, que é mestre José Augusto.
Se bem se lembram, o tal italiano, que se tinha metido em apuros, ao querer que aquela água milagrosa operasse maravilhas na sua calvície irreversível, voltando à guedelheira dos tempos de rapaz, tinha dado um grande show, ao desandar pelo calhau abaixo, aos gritos, “calienta! calienta!”
Agora, com a careca já arrefecida, e toda a marinhagem veraneante, transbordando alegria a jorros, o comandante capitaneava, como ninguém, a lancha para outras paragens da costa altaneira da ilha das Flores.
Que mais teria ele para nos mostrar, naquela tarde de sol escaldante e de tanto mar?
No meio daquele mar, agora calmo, imaginei os primeiros navegadores, debruçados na amurada, depois de ouvirem o gajeiro, empoleirado na gávea, gritar, “terra à vista! terra à vista!”. E eles, acabados de chegar, extasiados com a beleza daquela penedia negra, vestida de farrapos verdes, muito florida, qual menina envergonhada a mergulhar no oceano, para esconder-se daquela gente estranha, terão proclamado: “esta é a ilha das Flores!”.
E tinham razão, porque é, na verdade, uma terra de rara beleza. De costas escarpadas, salpicadas por tufos verdes, viu a natureza rasgar-lhe as entranhas, em vales profundos, e deu-se, de presente, naquela grande montanha, acima do mar erguida, para servir as naus em aflição.
A lancha contornava a costa devagar, “vão entrar, agora, dentro da ilha...”, disse o mestre, num largo sorriso, com a maior satisfação.
E era mesmo verdade; ele dirigia a embarcação para o interior de uma enorme gruta, escavada na alta penedia, às ordens de mares antigos, em fúria milenar. A semi-escuridão fazia lembrar que entrávamos numa catedral basáltica, de grandes abóbadas, a recomendar silêncio para aquele lugar sagrado.
O ruído surdo do motor, ecoando nos ressaltos da enorme concha rochosa – permitam-me o paradoxo – fez-me ouvir uma oratória de requintado gosto barroco, em acordes portentosos.
A intensa luminosidade de um dia cristalino, lá fora, dava agora lugar a um crepúsculo enigmático, caracterizado por uma ambiência mística. Ali ficámos algum tempo a admirar a grande maravilha, envolta numa penumbra excelsa, que mestre José Augusto nos presenteara.
Muito devagar, como quem se despede de Deus, ele fez voltar a lancha no interior da gruta, e outra suavidade, misturada de verdes de algas marinhas e do azul do céu, se foi revelando, à medida que saíamos e a claridade crescia.
E mais grutas houve para entrar e outras só para espreitar, que o porto de Santa Cruz estava prometido, “é só mais uma meia hora e estamos lá”, disse o timoneiro com a alma alegre. E todos irromperam numa grande salva de palmas.
Dá que pensar, agora que muitos anos se passaram.
Este reino – o das pérolas do colar açoriano – não é de reis, nem de príncipes, nem de fidalgos ociosos; é, sim, um reino das gentes, que muito deram do seu esforço, para termos tanta beleza por aí plantada.
E dos milheirais verdes a ondear na brisa suave de uma tarde ensolarada, dos montes e dos vales sempre verdejantes, das ribeiras de águas cristalinas a perderem-se por mares que sempre cruzámos, de tudo isso, façamos um palácio para os vindouros, ou melhor, a nossa casa para viver.